PESSOA COM DEFICIÊNCIA NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA:
PROBLEMATIZANDO O DEBATE
ISBN: 85-7644-072-5
UNIVERSIDADE ESTADUAL DO OESTE DO PARANÁ - UNIOESTE
REITOR
Alcibiades Luiz Orlando
VICE-REITORA
Onildes Maria Taschetto
PRÓ-REITOR INTERINO DE EXTENSão
Bartolomeu Tavares
DIRETOR DO CAMPUS DE CASCAVEL
Alfredo Petrauski
DIRETORA DO CECA - CENTRO DE EDUCAÇÃO, COMUNICAÇÃO E ARTES:
Aparecida Feola Sella
COORDENADOR DO COLEGIADO DE PEDAGOGIA:
Marco Antonio Batista Carvalho
Programa Institucional de Ações Relativas às
Pessoas com Necessidades Especiais - PEE
EQUIPE:
Campus de Cascavel
Vera Lúcia Ruiz R. da Silva
(COORDENADORA DO PEE)
Jane Peruzo Iacono
(COORDENADORA DO PROJETO DO MEC)
Alfredo Roberto de Carvalho
Claudia Picolotto
Dorisvaldo Rodrigues da Silva
Enio Rodrigues da Rosa
Joice Maura Schwengber
Jomar Vieira da Rocha
José Roberto Carvalho
Luzia Alves da Silva
Maria Filomena Cardoso André
Patrícia da Silva Zanetti
Soelge Mendes da Silva
Vandiana Borba
Campus de Foz do Iguaçu
Cristiane Ferraro Gilabert da Silva
Ligia Angélica Radis Steinmetz
Campus de T Toledo oledo
Sandra Regina Belotto
Campus de Francisco Beltrão
Dejair Cardoso Baseggio
Adriana de Mello
Rosane Arruda
Campus de Marechal
Cândido Rondon
Zelina Berlatto Bonadiman

Programa Institucional de Ações Relativas às Pessoas
com Necessidades Especiais - PEE (Org.)
2006
PESSOA COM DEFICIÊNCIA NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA:
PROBLEMATIZANDO O DEBATE
© 2006, EDUNIOESTE
Editora e Gráfica Universitária - EDUNIOESTE
Rua Universitária, 1619 - Fone (45) 3220-3085 - Fax (45) 3324-4590
CEP 85819-110 - Cascavel, PR - Caixa Postal 701
end. eletrônico: www.unioeste.br/editora/ e-mail: editora@unioeste.br
Revisão gramatical: Raquel Ribeiro Moreira
Capa: Alexandre Mendes dos Reis
Núcleo de Inovações Tecnológicas - NIT/UNIOESTE
Projeto Gráfico e Diagramação: Rachel Cotrim
Ficha Catalográfica: Marilene de Fátima Donadel - CRB9/924
EQUIPE ORGANIZADORA:
Lúcia Terezinha Zanato Turek
Luzia Alves da Silva
Maria Filomena Cardoso André
Patricia da Silva Zanetti
Vandiana Borba
Vera Lúcia Ruiz Rodrigues da Silva
Alfredo Roberto de Carvalho
Dorisvaldo Rodrigues da Silva
Enio Rodrigues da Rosa
Elizabeth Rossetto
Jane Peruzo Iacono
Jomar Vieira Rocha
José Roberto Carvalho
Pessoa com deficiência na sociedade contemporânea : problematizando
P475 o debate / organização do Programa Institucional de Ações 
Relativas
às Pessoas com necessidades Especiais – PEE. – Cascavel :
EDUNIOESTE, 2006.
216 p.
ISBN: 85-7644-072-5
1. Educação especial 2. Deficiência – Aspectos sociais 3. Deficiência –
Legislação 4. Deficiência – Política governamental – Brasil 5. 
Deficiência
– Integração social 6. Pessoa com deficiência I. Programa Institucional 
de
Ações Relativa às Pessoas com Necessidades Especiais - PEE, Org.
CDD 20. ed. 371.9
362.4

Apresentação
A coletânea de artigos reunidos neste livro, juntamente com
o outro, “A Pessoa com Deficiência: aspectos teóricos e práticos”,
constitui-se na primeira publicação organizada pelo Programa
Institucional de Ações Relativas às Pessoas com Necessidades Especiais
da Unioeste, resumidamente chamado de Programa de
Educação Especial – PEE, criado em 1997. Este Programa se insere
num conjunto de conquistas obtidas pelo movimento organizado
das pessoas com deficiência do município de Cascavel, principalmente
após 1994, com a fundação do Fórum Municipal em Defesa
dos Direitos das Pessoas com Deficiência.
Característica marcante da equipe do PEE que merece consideração,
é o fato de a grande maioria dos seus integrantes serem
pessoas com deficiência formadas na própria UNIOESTE e militantes
do movimento social. A maioria participa do Fórum acima mencionado,
de entidades sindicais e das entidades de pessoas com
deficiência e/ou dos serviços que desenvolvem ações para promover
e atender às necessidades específicas de cada área das deficiências.
O Fórum foi criado no final de 1995, depois de amplo processo de
discussão iniciado um ano antes, no final de 1994, quando o Programa
de Apoio à Inserção da Pessoa com Deficiência no Mercado de
Trabalho, da Agência do Trabalhador / SINE de Cascavel, promoveu
o Seminário “A Pessoa com Deficiência e o Mundo do Trabalho”.
Página 6.
Neste Seminário, a partir de uma proposta aprovada na plenária
final, foi formada uma comissão representativa das entidades de ou
para pessoas com deficiência e dos programas e serviços afins, com o
objetivo de constituir-se como um espaço de reflexão, mobilização e
encaminhamento das reivindicações do movimento no município. Em
1995, a Comissão promoveu o Seminário “A Pessoa Portadora de 
Deficiência
e a Conquista da Cidadania”, do qual resultou um conjunto de
propostas, entre as quais a que propunha a criação do Fórum Municipal
em Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência. Com a finalidade
de efetivar a proposição, em dezembro do mesmo ano, a Comissão
realizou uma plenária com mais de 250 pessoas, em sua grande
maioria com deficiência, onde foi debatida e aprovada a constituição
do Fórum. Mesmo não sendo uma entidade com registro em cartório, o
Fórum não só se constituiu num importante espaço de discussão das
pessoas com deficiência, profissionais das áreas e outros interessados,
como também conquistou legitimidade e representatividade política e
social, no município de Cascavel e Região.
O movimento das pessoas com deficiência de Cascavel tem se
caracterizado, na região e no estado, pela postura firme e 
intransigente
na defesa dos direitos do segmento, denunciando a utilização
da imagem da pessoa com deficiência com fins caritativos, bem como
procurando desconstruir a idéia, ainda muito presente no imaginário
social, que só vê na pessoa com deficiência insuficiência e 
incapacidade.
Nos últimos dez anos, inúmeras propostas foram discutidas
pelo movimento e diversos encaminhamentos foram feitos para as
autoridades locais, estaduais e nacionais, algumas das quais se 
converteram
em importantes conquistas.
A criação, estruturação e consolidação do Programa de Educação
Especial da UNIOESTE – PEE, é mais um resultado do processo
Página 7.
de mobilização das pessoas com deficiência, particularmente daquelas
que ingressaram na universidade e tiveram de travar lutas, inclusive
com ameaça de greve de fome, quando praticamente nada
ainda existia em termos de atendimento às suas necessidades 
específicas.
Outra característica que o PEE trouxe do movimento organizado
desta região e tem procurado valorizar e conservar, é a prática da
discussão e decisão coletivas. Em razão disso, o PEE não só continua
mantendo uma estreita relação com o movimento das pessoas com
deficiência da região Oeste e Sudoeste, como também tem procurado
contribuir para seu fortalecimento.
O livro aqui apresentado constitui-se em mais um resultado, tanto
do trabalho coletivo produzido a partir dos estudos e dos debates
sobre os principais problemas enfrentados pelas pessoas com deficiência
na sociedade contemporânea, como do trabalho e da organização
social dessas pessoas, travados no conjunto da sociedade e no
Grupo de Pesquisa História, Educação e Sociedade - HISTEDOPR,
sub grupo da Educação da Pessoa com Deficiência. Apesar de os artigos
aqui reunidos, abordarem temas específicos ligados ao campo da
problemática social das pessoas com deficiência, do ponto de vista da
opção teórico-metodológica, o grupo tem se dedicado ao estudo da
obra “Fundamentos de Defectologia” (1997), de Vigotski.
A opção pela obra deste pesquisador surgiu após o contato com o
conteúdo do capítulo “A Criança Cega”, presente no livro acima 
referido,
trazido de Cuba e com tradução livre da professora Lucia Zanato Tureck.
Nesta obra, o autor desenvolve os princípios da teoria 
sócio-psicológica
alicerçada no método materialista histórico dialético, demonstrando que
a deficiência não só coloca dificuldades para aquele que a possui, mas
também se converte numa poderosíssima força motriz capaz de reorganizar
todo o organismo para a superação do defeito.
Página 8.
Assim, como forma de divulgar as importantes contribuições
deste pesquisador, no segundo capítulo desta coletânea, apresentase
já traduzido pelo grupo o primeiro capítulo da obra Fundamentos
de Defectologia: “O Defeito e a Compensação”, esperando que o
texto sirva de aporte teórico para subsidiar a prática pedagógica dos
professores, especializados ou não, que atuam nas escolas da rede
pública ou particular de ensino.
A decisão sobre esta publicação, a escolha das temáticas e as
pessoas responsáveis pela elaboração dos artigos, foram discutidas e
definidas pelo Colegiado do Programa de Educação Especial – PEE –
campus de Cascavel. Embora cada artigo represente a expressão política
e a compreensão teórica dos seus autores, em linhas gerais, o resultado
não deixa de ser uma espécie de síntese do pensamento do
grupo acerca dos diversos assuntos aqui abordados. O livro está 
organizado
em sete capítulos com as seguintes temáticas: capítulo I - Programa
Institucional de Ações Relativas às Pessoas com Necessidades
Especiais (Patrícia da Silva Zanetti e Elizabeth Rossetto); II - O 
Defeito
e a Compensação (Lev Semyonovich Vigotski); III – Algumas Reflexões
Sobre a Inclusão Escolar de Alunos com Deficiência (José Roberto
Carvalho e Lucia Terezinha Zanato Tureck); IV – Reflexões Sobre a
Política de Formação de Professores Especialistas em Educação Especial/
Educação Inclusiva (Luzia Alves da Silva e Jane Peruzo Iacono); V
- O uso da Informática como Instrumento de Apoio no Processo 
Educacional
de Pessoas com Deficiência (Dorisvaldo Rodrigues da Silva e
Vera Lucia Rruiz Rodrigues da Silva); VI - As Pessoas com Deficiência
e a Lógica da Organização do Trabalho na Sociedade Capitalista
(Alfredo Roberto de Carvalho e Paulino José Orso); e VII -Apontamentos
sobre o Movimento Social das Pessoas com Deficiência no Brasil
(Enio Rodrigues da Rosa e Vandiana Borba).
Página 9.
O livro é prefaciado pelo Professor Dr. José Geraldo Silveira
Bueno (PUC/SP), pesquisador com o qual o PEE tem mantido diálogo
desde 2001, quando participou pela primeira vez do V Seminário
de Cegos, promovido pela Associação Cascavelense de Pessoas com
Deficiência Visual (ACADEVI) e pela UNIOESTE.
Esta coletânea, juntamente com o livro “A Pessoa com Deficiência:
aspectos teóricos e práticos”, faz parte do projeto “Formação 
Continuada
em Educação Especial e Tecnologias nas Áreas das Deficiências
Física e Visual (2005-2007) para Professores do Ensino Básico”,
uma atividade de extensão proposta pelo Programa Institucional
de Ações Relativas às Pessoas com Necessidades Especiais (PEE), 
financiado
em parte pelo Ministério da Educação – MEC / Secretaria de
Ensino Superior - SESU. Participam do curso 60 professores, entre
especialistas em educação especial, membros das equipes pedagógicas
das escolas e professores do ensino regular, divididos em duas
turmas, escolhidos mediante critérios definidos pelo Programa de 
Educação
Especial da UNIOESTE, Núcleo Regional da Educação (NRE),
Associação dos Municípios da Região Oeste do Paraná (AMOP) e Secretaria
Municipal de Educação de Cascavel (SEMED).
Como parte das atividades, esses professores estão desenvolvendo
um projeto em suas respectivas escolas, com o objetivo de
socializar com os colegas os conhecimentos transmitidos pelo curso.
Além do livro “A Pessoa com Deficiência: aspectos teóricos e
práticos” - cujos textos foram elaborados com conteúdos para subsidiar
a formação - cada professor recebeu também um CD com textos de
leis e decretos nacionais e dezenas de documentos internacionais sobre
o assunto, monografias defendidas por membros do grupo, analisando
alguns problemas enfrentados pela pessoa com deficiência em
suas relações sociais, artigos específicos e recursos tecnológicos que
Página 10.
podem ser utilizados com e pelas pessoas com deficiência, tanto em
seu processo educacional, como em sua vida pessoal.
Iniciado no campus de Cascavel, em 1997, o PEE estendeu-se
aos outros quatro campi da Unioeste, primeiramente com as bancas
especiais no vestibular e demais concursos, depois no apoio à 
permanência
dos acadêmicos com deficiência na universidade, na realização
de projetos de extensão e eventos, integrando-se às demais
universidades paranaenses.
O ensino, a pesquisa e a extensão, tripé do fazer universitário,
integram as atividades do PEE e compõem a pauta do debate contínuo
em seu interior. Institucionalmente é vinculado à Pró-Reitoria de
Extensão (PROEX) e ao Centro de Educação, Comunicação e Artes
(CECA), do campus de Cascavel.
Os autores
Cascavel, inverno de 2006.
Página 11.
Prefácio
Desde que entrei em contato por telefone, se não me engano em
2001, com o Enio Rodrigues da Rosa que me convidava para o V Seminário
de Cegos, com a temática “ A inserção da pessoa cega na sociedade”,
organizado pela Associação Cascavelense de Deficientes Visuais
– ACADEVI, do qual participei com muito prazer, fui entrando em
contato com um grupo de acadêmicos, profissionais e pessoas com
deficiência atuante e comprometido com as questões da democratização
da educação no Brasil e, dentro dela, da educação especial.
De lá para cá, cada vez que tenho a possibilidade de entrar
em contato com esse grupo, mais me impressiono com o entusiasmo
e vigor de seus componentes, apesar das imensas dificuldades
que a escola brasileira vem enfrentando, a partir das reformas
que o neo-conservadorismo político vigente nos impingiu e que
tem acarretado funestas conseqüências, que se contrapõem a uma
efetiva democratização da escola básica brasileira e, conseqüentemente,
da educação das pessoas com deficiência.
Agora, sou convidado a prefaciar a coletânea por eles organizada,
que tem como eixo articulador das distintas contribuições
a questão da situação da pessoa com deficiência na sociedade
contemporânea, convite que muito me honra e que espero poder
corresponder às suas expectativas.
Página 12.
A primeira característica que ressalta da coletânea é a
heterogeneidade das contribuições dos diferentes autores, com histórias
de vida, aproximação e atuações distintas em relação à problemática da
deficiência, que redundaram em textos que vão desde a apresentação do
programa institucional, até discussões teóricas e históricas de fundo,
passando por questões de ordem pedagógica e de política educacional.
Esta heterogeneidade, no entanto, não se constitui em problema
mas, ao contrário, é nela que reside a riqueza da obra, pois que
espelho fiel das distintas inserções de cada um de seus autores, 
produzindo,
assim, uma “unidade na heterogeneidade”.
Uma segunda característica que merece ser realçada é a presença
marcante dos professores da UNIOESTE os quais, juntamente com 
acadêmicos,
educadores da rede e de militantes dos movimentos de e para 
deficientes,
produzem obra fora do eixo das grandes capitais produtoras de 
conhecimento,
demonstração clara de que condições para produção de conhecimento
são também criadas por aqueles que assumem esse compromisso.
Por fim, a terceira característica e, talvez, a mais importante, é a
do caráter crítico dos diferentes artigos da coletânea que, com 
certeza,
irá se somar a outras produções (embora não tantas como eu gostaria)
que têm procurado se contrapor a uma perspectiva a-crítica e a-social
de estudos sobre a educação especial e sobre as pessoas deficientes.
Nesse sentido, só cabe a este velho professor, sempre lembrado
por esses vigorosos jovens, louvar a iniciativa, parabenizar os seus
autores, bem como a UNIOESTE pela feliz e promissora iniciativa.
Que esta seja a primeira de uma série de publicações sobre
a educação e educação especial desse pessoal de Cascavel!
São Paulo, 30 de julho de 2006
Prof. Dr. José Geraldo Silveira Bueno
Página 13.
SUMÁRIO
CAPÍTULO I – PROGRAMA INSTITUCIONAL DE AÇÕES
RELATIVAS ÀS PESSOAS COM NECESSIDADES
ESPECIAIS – PEE: ROMPENDO BARREIRAS
FÍSICAS E ATITUDINAIS
Elisabeth Rossetto
Patricia da Silva Zanetti .............................. 15
CAPÍTULO II – O DEFEITO E A COMPENSAÇÃO
(Vigotski) Tradução .................................... 33
CAPÍTULO III – ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE A
INCLUSÃO ESCOLAR DE ALUNOS
COM DEFICIÊNCIA
José Roberto Carvalho
Lucia Terezinha Zanato Tureck ....................63
CAPÍTULO IV – REFLEXÕES SOBRE A POLÍTICA DE
FORMAÇÃO DE PROFESSORES PARA
A EDUCAÇÃO ESPECIAL / EDUCAÇÃO
INCLUSIVA
Jane Peruzo Iacono
Luzia Alves Silva ........................................ 91
Página 14.
CAPÍTULO V – O USO DA INFORMÁTICA COMO
UM INSTRUMENTO DE APOIO
NO PROCESSO EDUCACIONAL
DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA
Dorisvaldo Rodrigues da Silva
Vera Lucia Ruiz Rodrigues da Silva ............. 117
CAPÍTULO VI – AS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA E A
LÓGICA DA ORGANIZAÇÃO DO
TRABALHO NA SOCIEDADE CAPITALISTA
Alfredo Roberto de Carvalho
Paulino José Orso...................................... 155
CAPÍTULO VII – APONTAMENTOS SOBRE O
MOVIMENTO SOCIAL DAS PESSOAS
COM DEFICIÊNCIA NO BRASIL
Enio Rodrigues da Rosa
Vandiana Borba ........................................ 181
Página 15.
CAPÍTULO I
PROGRAMA INSTITUCIONAL DE AÇÕES
RELATIVAS ÀS PESSOAS COM NECESSIDADES
ESPECIAIS – PEE: ROMPENDO BARREIRAS
FÍSICAS E A ATITUDINAIS
Elisabeth Rossetto,1
Patricia da Silva Zanetti2
1 Professora da UNIOESTE e aluna do Programa de Pós-Graduação
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul/UFRGS – nível doutorado
em Educação, linha especifica em Processos de Exclusão e
Participação em Educação Especial e membro do NEPIE Núcleo de
Estudos em Política de Inclusão Escolar.
2 Pedagoga, especialista em Educação Especial, professora da Educação
Especial na rede Estadual de Ensino do Estado do Paraná; membro do
HISTEDOPR, membro do P.E.E e Coordenadora de Eventos da ACADEVI.
Página 16.
Resumo: Este trabalho apresenta o processo de constituição do Programa
Institucional de Ações Relativas às Pessoas com Necessidades Especiais
na UNIOESTE. Foi instituído em 1997, através da Resolução 323/97 –
CEPE e tem como objetivo principal, trabalhar com o ingresso e a 
permanência
do aluno com deficiência no ensino superior. Para tanto, produz
material didático adaptado para alunos cegos e com visão reduzida, 
garante
intérprete de LIBRAS em sala de aula e tem se consolidado por meio
da participação em discussões com outras entidades de pessoas com 
deficiência
e Universidades Estaduais do Paraná.
Palavras-chave: ensino superior, ingresso e permanência, necessidades
especiais.
O percurso profissional e acadêmico da maioria das pessoas com
deficiência, no município de Cascavel, deu-se inicialmente através do 
atendimento
de entidades particulares, com caráter filantrópico-assistencial.
No ano de 1972, é criada a Associação de Pais e Amigos dos
Excepcionais (APAE), sendo a única opção durante vários anos para
famílias que possuíam filhos com algum tipo de deficiência. A próxima
entidade, fundada em 1976, foi a Associação Cascavelense dos
Amigos de Surdos (ACAS), mantenedora da Escola Tia Amélia, hoje
Escola especializada de Ensino Fundamental.
Com a demanda de outras áreas de deficiência, nos anos de 1980,
foram fundadas outras entidades: a Sociedade Beneficente dos
Paraplégicos de Cascavel (SBPC), a Associação dos Portadores de
Fissura labiopalatal (APOFILAB), que é a mantenedora do CENTRINHO,
a Associação dos Pais e Amigos dos Deficientes Visuais (APADEVI).
Em 1975, dois anos após a criação do Centro Nacional de Educação
Especial (CENESP), embora já estivesse nos planos do governo
Página 17.
federal a instalação de uma rede de serviços especializados de
apoio às pessoas com deficiência visual nas escolas comuns
(VENTURINI, 1975). Pode-se dizer que a participação do Estado,
quanto a garantir a educação escolar a este segmento social, 
praticamente
não acontecia, isto é, até meados da década de 80 a presença
do Estado no município foi praticamente nula.
No inicio da década de 1980, com o objetivo de viabilizar a
formação de professores especializados para as diversas áreas de
deficiências, foi firmado um convênio entre o Departamento da Educação
Especial (DEE), da Secretaria de Estado da Educação (SEED)
e a Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), na época,
ainda Fecivel - Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Cascavel,
com o intuito de oferecer aos professores da região o Curso de
Estudos Adicionais em nível de 2º grau.
Com a formação de professores especializados, o Departamento
de Educação Especial (DEE), abre no município de Cascavel
dois programas de atendimento especializado, um na área da deficiência
visual e outro na área da deficiência auditiva. Decorrente desta
condição, em 1987, foi criado o Centro de Atendimento Especializado
para Deficientes Visuais (CAEDV), que se transformou num pólo
aglutinador de pessoas com deficiência visual. Da mesma maneira, o
Centro de Atendimento Especializado para Deficientes Auditivos
(CAEDA), também cumpre esta função com os surdos. Esses dois
programas marcaram o início da presença do Estado em termos de
atendimento, que permitiu implementar o ingresso de alunos com
deficiência na rede pública comum de ensino.
Percebe-se, no início dos anos 90, mudanças significativas no
movimento das pessoas com deficiência, na medida em que passam
a se organizar, fazendo cumprir seus direitos, influenciadas pelas
Página 18.
mobilizações que cresciam no país em torno da constituinte e da
consolidação de alguns direitos na Constituição Federal de 1988 e,
principalmente mobilizadas por um conjunto de orientações
estabelecidas por uma sociedade conduzida pela lógica do capital.
Neste sentido, surge em Cascavel, em 1994, o Fórum Municipal
em Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência, como resultado
de outra mobilização: a criação de entidades de pessoas com
deficiência, tais como, a Associação Cascavelense de Pessoas com
Deficiência Visual (ACADEVI); a Associação dos Surdos de Cascavel
(SURDOVEL); Associação de Deficientes Físicos de Cascavel
(ADEFICA) e o Centro de Vida Independente (CVI).
O Programa de Educação Especial, por sua vez, surgiu como resultado
de um movimento social externo à Universidade. Em 1997, observou-
se que, na medida em que as pessoas com deficiência foram aos
poucos vencendo fases do processo educacional, o ingresso na 
Universidade
despontou como um objetivo possível. Assim, procurando atender
a essa demanda a UNIOESTE foi obrigada a criar condições para assegurar
o acesso e a permanência desses alunos no ensino superior.
A luta pela criação e institucionalização do Programa Institucional
de Ações Relativas as Pessoas com Necessidades Especiais, demandou
ações necessárias e até então inéditas na Universidade. Estas diziam
respeito, além da produção de materiais adaptados aos alunos com
deficiência visual, outras, elaboradas a partir de princípios e 
concepções
que guiam ações políticas e valorativas do ser humano.
Historicamente, este trabalho teve início em 1995 quando uma
estudante com visão reduzida, que utilizava lupa manual para leitura
de textos, prestou vestibular para o curso de Pedagogia, tendo 
solicitado
prova ampliada o que não lhe foi concedido. No ano seguinte,
inscreveu-se novamente para o vestibular, solicitou prova ampliada,
Página 19.
mas somente foi atendida após intervenção de uma professora 
especialista
que atuava no curso de formação de professores para a Educação
Especial. Esta condição culminou com o ingresso da estudante
na instituição, garantindo-lhe o atendimento que necessitava para 
estudar
no decorrer do curso de graduação.
Em 1997, ingressou na Universidade um estudante cego, aprovado
em 1º lugar no concurso vestibular para o curso de Pedagogia.
No decorrer da primeira semana de aula, realizou-se uma manifestação
com a participação da Associação Cascavelense de Deficientes
Visuais (ACADEVI) junto ao chefe do Departamento de Educação,
ao Coordenador do Colegiado do curso de Pedagogia, ao Pró Reitor
de Graduação, ao Diretor do Campus e do Centro de Educação, Comunicação
e Artes (CECA), para reivindicar a estrutura necessária
para a produção dos materiais para esse acadêmico.
Embora todas as instâncias internas da Universidade citadas
acima, tivessem se comprometido com a viabilização da estrutura
necessária para atender o aluno no decorrer do seu curso, foi delegada
ao Centro Acadêmico de Pedagogia, de forma emergencial, a 
responsabilidade
pela adaptação dos textos. Fato este que não foi aceito
pelo aluno cego, uma vez que o mesmo tinha a clareza de que o
compromisso com o trabalho de adaptação dos materiais, não deveria
estar vinculado ao âmbito da caridade, da filantropia, mas deveria
ser de inteira responsabilidade da Universidade, de forma 
institucional.
Assim, a Pró-Reitoria de Graduação cedeu um funcionário duas
vezes por semana, para gravar os textos em fitas cassetes, “lidos” 
auditivamente
pelo aluno. Encaminhou-se ainda a compra de uma impressora
Braille, de um computador e do programa Dosvox - sintetizador
de voz que permite acesso à leitura de quaisquer textos e, a cedência
de uma pequena sala. Fato este que procurava garantir não somente o
acesso do aluno ao ensino superior, mas também sua permanência.
Página 20.
Em meados do ano de 1997, o funcionário recusou-se a continuar
a gravar os textos, provocando um acúmulo de leituras não efetuadas
pelo aluno, o que comprometia a qualidade de sua aprendizagem. Como
o problema não fora resolvido e, tendo-se esgotado todas as formas de
reivindicação internas, o aluno procurou os órgãos de comunicação,
ameaçando inclusive iniciar um processo de greve de fome.
A partir da explicitação pública da problemática, a Universidade
contratou um funcionário exclusivo para dar apoio ao acadêmico. Neste
sentido, a necessidade de criar um programa que atendesse a educação
especial, no âmbito da Universidade, estava cada vez mais evidente.
Assim, em 1997 foi instituído na UNIOESTE pelo Conselho de
Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPE) através da Resolução 323/97, o
Programa de Ações Relativas ás Pessoas com Necessidades Especiais
– P.E.E., fato que incluiu a Universidade entre as dez primeiras do 
Brasil
a oferecer e manter atividades desta natureza no ensino superior.
Desde então, diversas atividades são realizadas internamente e 
externamente
junto às associações de pessoas com deficiência e aos órgãos
públicos que atuam na área. Hoje é regulamentado pela Resolução 127/
2002 - CEPE, que aprovou o Regulamento dos Processos de Ingresso e
Permanência de Pessoas com Necessidades Especiais na UNIOESTE.
O Programa constitui o espaço de desenvolvimento de ações voltadas
as pessoas que necessitam de condições educacionais especificas, sejam
elas temporárias ou permanentes, e tem como objetivo principal 
viabilizar o
ingresso e a permanência destas pessoas no ensino superior. Atua junto 
aos
colegiados dos cursos de graduação por meio dos docentes, colaboradores
do programa, e de acadêmicos que utilizam seus serviços.
Através deste trabalho, a UNIOESTE integra o Fórum Nacional
de Educação Especial das Universidades Brasileiras, o Fórum
Paranaense das Universidades, e em Cascavel, o Fórum Municipal em
defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência.
Página 24.
Para garantir o acesso ao ensino superior público às pessoas com
deficiência, o P.E.E. é responsável pela instalação de bancas especiais
nos concursos vestibulares. Para cada área de deficiência existem
metodologias de trabalho e recursos específicos considerados e 
efetivados
no desenvolvimento deste trabalho. Tais como: organização de locais
e a disponibilidade de mobiliários adaptados, de provas ampliadas,
de bancas com ledor, de intérprete de LIBRAS, de gráficos em relevo, de
máquinas Perkins, do sistema Dosvox e do trabalho de fiscais com 
conhecimentos
específicos para atender as necessidades do candidato.
Com a aprovação do candidato no concurso vestibular, já na matrícula
são indicadas as necessidades para a permanência na graduação,
com condições que possibilitem a aprendizagem e a participação desses
alunos na vida acadêmica da Universidade. A figura 1 demonstra o 
resultado
estatístico das ações desenvolvidas pelo Programa de 1997 a 2005.
Figura 1 - Dados estatísticos do PEE referentes ao período de 1996 a 
2005.
23 alunos distribuídos em alunos matriculados + pós-graduados/ 
especializados
+ 03 alunos que adquiriram visão reduzida no decorrer da graduação.
Página 22.
Dentre as inúmeras ações desenvolvidas no decorrer desses anos,
merece destaque à acessibilidade, principalmente quanto à implantação
de linhas-guia para cegos, rampas e espaço reservado no estacionamento
para pessoas com deficiência física, na própria Universidade.
Outro elemento não menos importante a ser destacado, refere-se à
formação de professores que, em função do respaldo legal dado pela
Portaria 1793/97 - MEC, fez com que o curso de Pedagogia do Campus
de Cascavel e da Extensão, no município de Santa Helena, garantisse em
seu Projeto Político Pedagógico a disciplina de Fundamentos da Educação
Especial, com carga horária de 120 horas no último ano do curso.
O P.E.E., em anos anteriores teve atuação efetiva quanto ao acesso
de funcionários com deficiência para trabalhar na Universidade, 
observando
o cumprimento da legislação de reserva de vagas, a qual determina que
até 5% das vagas em concursos públicos sejam destinadas aos candidatos
com deficiência. Os resultados dessas medidas têm sido o ingresso de
servidores técnicos e de docentes com deficiência na instituição.
Cabe ressaltar ainda que as ações do Programa também estão
voltadas as atividades de extensão, objetivando o atendimento não só
da comunidade interna da Universidade, mas da comunidade externa.
No período de 1997 a 2006 foram promovidos os seguintes eventos:
• Curso de Extensão: Leitura e Escrita no Sistema Braille;
• Curso de Extensão: Sorobã;
• Curso de Extensão: Iniciação ao DOSVOX;
• I Encontro de Cegos do Ensino Superior;
• Oficina de Educação para Surdos;
• Seminário para Regulamentação dos Procedimentos de
Ingresso e Permanência de Pessoas com Necessidades
Especiais na Unioeste;
• Grupo de Estudos sobre Deficiência Visual;
• V Seminário de Cegos: A Inserção dos Cegos na Sociedade;
• Seminário “Princípios para a Educação Especial e a
Formação de Professores na Perspectiva da Inclusão”;
Página 23.
• Acessibilidade à Informática para as Pessoas com
Deficiência Visual;
• Capacitação na Área Visual;
• Projeto de Extensão “Trajetória escolar e terminalidade acadêmica
para alunos com deficiência mental: até onde eles podem chegar?”;
• Participação no curso “Desenvolvimento humano nas
organizações”, com um tópico denominado de: “Pessoa com
deficiência: conhecer para não discriminar”;
• Colaboração na organização do curso de formação de
dirigentes para o movimento de cegos, com a temática “O
cego enquanto agente político: necessidade e significado
de sua participação nos embates sociais”;
• II Seminário de Educação Especial “Educação Inclusiva:
concepções, perspectivas e desafios”;
• Projeto de extensão “Pessoa com deficiência: conhecendo
para não discriminar”, junto a associações comunitárias;
• Encontros com os calouros no campus de Cascavel (CECA e CCET)
sobre “ Pessoa com deficiência: conhecendo para não discriminar”;
• Seminário “Trabalho, Educação e Assistência Social em Debate”;
• Projeto de extensão “Ressignificação do Atendimento na
Área Visual - Avaliação da Pessoa com Deficiência Visual”;
• Curso de Aplicativos do Windows para as pessoas com
deficiência visual.
Pode-se destacar que um dos maiores desafios enfrentados pelo P.E.E,
desde a sua implantação, deu-se a partir de 2002, com o ingresso de uma
aluna surda no curso de Pedagogia. Assim, a contratação de uma 
professora
intérprete estabelece um avanço significativo nesse sentido, fato que 
coloca a
UNIOESTE como uma das primeiras Universidades a adotar efetivamente
esta prática para o atendimento de alunos surdos. No entanto, só a 
atuação
desse profissional não é suficiente para garantir a permanência dessa 
aluna
no ensino superior, outras ações neste sentido foram necessárias.
Neste mesmo ano, realizou-se a Oficina de Educação de Surdos. Essa
atividade foi destinada a professores, alunos e funcionários da 
Universidade,
Página 24.
objetivando trabalhar as questões de relacionamento com a pessoa surda.
No ano seguinte, foram realizadas duas palestras, uma com a Professora
Ronice Quadros Muller (UFSC-SC), e outra com o Professor José Geraldo
Silveira Bueno (PUC-SP), cuja finalidade foi buscar orientações de 
cunho
teórico-metodológico sobre a educação do surdo no ensino superior.
Além do acompanhamento a estes alunos e respectivos
colegiados, o P.E.E. conta com um grupo de estudos na área de educação
especial, envolvendo professores da própria UNIOESTE, professores
da rede municipal e estadual de ensino de Cascavel e acadêmicos
dos diferentes campi e cursos de graduação e pós graduação,
entre estes encontram-se pessoas com deficiência.
O presente grupo estuda a obra de Vigotski, intitulada Fundamentos
de defectologia. Foi formado a partir da necessidade de fomentar 
experiências
com pares que investigam, estudam e atuam na educação e que
acreditam ser imprescindível compreender a relação que o homem trava
com as dimensões educacionais, sociais, econômicas, históricas e 
culturais
para se constituir enquanto ser humano. Com isso, busca-se refletir os
pressupostos sócio-históricos que podem contribuir para a instalação de
um novo paradigma teórico-metodológico na educação das pessoas com
deficiência. Essa necessidade fez com que o grupo ampliasse seu 
universo
de pesquisa, complementando sua base epistemológica de estudos com a
inclusão desse outro componente investigativo.
É importante mencionar que o Programa de Educação Especial, encontra-
se estruturado no formato multi-campi, possuindo uma coordenação
geral em Cascavel, locus com o maior número de profissionais que
atuam tanto em atividades de ensino, pesquisa e extensão, com maior
participação de membros da comunidade externa nas atividades
extensionistas e, maior número de pessoas que utilizam os serviços 
oferecidos
pelo Programa. Os campi de Francisco Beltrão, Toledo, Foz do Iguaçu
e Marechal Cândido Rondon são atendidos por sub-coordenações.
No campus de Cascavel encontram-se matriculados alunos de
graduação e pós-graduação, e nos campi de Francisco Beltrão, Marechal
Página 25.
Cândido Rondon e Toledo encontram-se matriculados apenas
alunos em cursos de graduação. Já o campus de Foz do Iguaçu realiza
apenas atividades relacionadas ao concurso vestibular.
A figura 2 apresentada a seguir, demonstra os dados estatísticos 
referentes
a alunos que utilizam os serviços prestados pelo Programa em 2005.
Figura 2 - Estatística de pessoas com deficiência que usam os serviços 
do
PEE em 2005.
Fonte: Programa Institucional de Ações Relativas às Pessoas com 
Necessidades
Especiais - UNIOESTE/PR.
Página 26.
Observa-se que o campus de Cascavel possui maior concentração
de alunos graduandos e pós-graduandos que utilizam os serviços
do Programa. Fato este que pode ser decorrente do movimento social
organizado neste município atrelado ao compromisso de professores
da área de educação especial presentes desde a educação infantil
ao ensino superior.
Neste contexto a concepção de educação que o Programa de
Educação Especial, toma como princípio norteador de suas ações,
está pautada numa totalidade permeada por vários condicionantes
sociais, culturais e históricos. A educação, nessa concepção, tem a
função de buscar a tomada de consciência de uma nova forma de
organização social e, logo, de um modo de conceber a pessoa com
deficiência partindo de uma análise que leve em conta a totalidade
dos aspectos que envolvem a educação especial, no sentido de procurar
apreender o conjunto de suas determinações. Fundamentandose
na concepção materialista-histórica a equipe do Programa procura
desenvolver ações, com vistas a explicitar as contradições presentes
na educação e na sociedade, com o intuito de “superar” aspectos
postos no cotidiano que influenciam a vida acadêmica das pessoas
com deficiência. Compreende que a pessoa com deficiência é uma
pessoa concreta que está inserida num contexto sócio-histórico, logo
é resultante destes condicionantes sociais. Segundo Saviani (1983),
estes aspectos estão articulados num movimento dinâmico e recíproco,
num processo constante de transformação, onde as forças opostas,
numa relação contrária, trazem o novo, ou seja, o germe da sua
própria mudança, pelas contradições inerentes a ela mesma.
A fim de alcançar esses objetivos, a equipe tem participado do
Fórum Municipal em Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência,
da Comissão de Acessibilidade Municipal, da Associação Cascavelense
Página 27.
de Pessoas com Deficiência Visual. Também participa das discussões,
análises e ações que contribuem para garantir os direitos educacionais 
e
sociais desta demanda na sociedade regional, junto à Assessoria de 
Políticas
Públicas e Inclusão Social da Pessoa com Deficiência, Agência do
Trabalhador, Secretaria Municipal de Educação e Núcleo Regional de
Educação. Assim, suas ações extrapolam o locus universitário.
Para o ano de 2006 e subseqüentes, tem-se como metas as
seguintes ações:
1. Articulação com organizações para a viabilização de novos
projetos, realização de seminários, debates, palestras,
objetivando conscientizar sobre a importância da formação
escolar para a dignidade da pessoa com deficiência e
reflexões do significado de sua participação política.
2. Organizar e instalar as Bancas Especiais no concurso vestibular
nos campi da Unioeste através de: locais e mobiliário
adaptados, provas ampliadas, bancas com ledor, com
intérprete de LIBRAS e com outros apoios necessários,
materiais específicos como lupas, gráficos em relevo, máquina
PERKINS programa “Dosvox” e outros, além da divulgação
junto à comunidade externa sobre as Bancas Especiais.
3. Manutenção do programa de apoio a acadêmicos com
necessidades especiais na Universidade, por meio da
adaptação de material de estudo de acordo com as suas
necessidades, da promoção de ações de acessibilidade física
nas dependências da instituição e no seu entorno. Além de
orientações a professores e alunos no desenvolvimento do
processo de ensino-aprendizagem.
4. Criação de uma comissão para elaboração de um projeto
de acessibilidade para a UNIOESTE.
5. Rearticulação junto às IES do Paraná sobre a retomada do
Fórum de discussão das IES sobre a Educação Especial.
Página 28.
6. Apoio ao desenvolvimento de software educacional
juntamente com o Núcleo de Inovações Tecnológicas (NIT).
7. Elaboração de material informativo (panfletos, fôlders,
cartilhas, etc.) sobre a pessoa com deficiência.
8. Promoção de cursos de orientação sobre como relacionarse
com pessoas com deficiência junto a funcionários, alunos
e professores da instituição.
9. Apoiar o ingresso e permanência de professores e
funcionários com necessidades especiais na Universidade.
10. Assessoramento à comissão de avaliação de estágio
probatório relacionado aos funcionários com deficiência da
Universidade.
11. Contribuir para viabilizar ações para ingresso e permanência
de pessoas com deficiência no desenvolvimento de estágio
extra-curricular na Universidade.
12. Discutir a criação e reestruturação de cursos de graduação
e/ou pós-graduação com a finalidade de incluir disciplinas
ou tópicos de estudo sobre Educação Especial.
13. Organizar e cadastrar o acervo bibliográfico do PEE.
Cabe lembrar que todas essas ações objetivam dar apoio ao
ingresso e a permanência das pessoas com deficiência nos diversos
cursos de graduação e pós-graduação da Universidade Estadual do
Oeste do Paraná – UNIOESTE.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
No presente texto, tivemos como objetivo delimitar as ações
desenvolvidas e em desenvolvimento do Programa Institucional de
Ações Relativas às Pessoas com Necessidades Especiais – P.E.E., no
decorrer de seus quase dez anos de existência.
Página 29.
Neste contexto, pode-se afirmar que foi possível consolidar os
apoios oferecidos, com o ingresso de um número considerável de
alunos com deficiência, especialmente constituído de pessoas cegas
ou com visão reduzida. Neste momento, um desafio maior se impõe:
continuar despertando e atraindo o interesse das pessoas com 
deficiência
pela Universidade pública, gratuita e de qualidade.
O Programa de Educação Especial da UNIOESTE, só conseguiu
atingir o estágio em que se encontra, graças à sua articulação com os
movimentos sociais das próprias pessoas com deficiência, organizadas
por meio de suas diferentes associações representativas, no Fórum
Municipal em Defesa dos Direitos deste segmento. É fundamental que
os programas desta natureza, criados nas Universidades públicas ou
particulares, além de assegurarem o acesso e a permanência dos 
acadêmicos
na Universidade, possam também contribuir na formação de
sujeitos conscientes e comprometidos, rompendo com a idéia da sua
inutilidade ainda arraigada na sociedade, reforçada inclusive por 
setores
da educação especial e do ensino regular.
Mediante a todas estas atividades, vale considerar que quando
nos referimos a educação especial e ao trato com as pessoas com
deficiência, parte-se de uma concepção que busca superar os modelos
assistencialistas e clínico-terapêutico que historicamente têm 
prevalecido
em muitos ambientes. Trata-se de uma concepção que toma
como referência a compreensão de que o homem é um ser históricosocial
que se constitui enquanto determinado e determinante no âmbito
da vida coletiva e, cujo conhecimento é oriundo de ações socialmente
mediadas. Neste sentido, cabe ao programa desenvolver tarefas
que ampliem ainda mais a discussão sobre as pessoas com deficiência,
para que as concepções errôneas sobre as mesmas sejam questionadas
e debatidas para a sua superação.
Página 30.
A UNIOESTE não apresenta meios efetivos de intervir de imediato
e mudar a realidade da educação básica, inclusive e, principalmente
aquela ofertada às pessoas com deficiência. Talvez fosse necessário
pensar alguma alternativa de caráter suplementar, executada
na forma de cursos preparatórios ao vestibular, de modo a preparálas
para o desafio do exame. Tal encaminhamento demandará o
aprofundamento do P.E.E com os movimentos sociais das pessoas
com deficiência e com as escolas dos outros níveis de ensino,
objetivando despertar a consciência sobre a importância da educação
na vida dessas pessoas.
Neste contexto, pode-se dizer que atualmente a discussão sobre
o ingresso e permanência das pessoas com deficiência, torna-se
ainda mais relevante e necessária em função dos encaminhamentos e
orientações postos na legislação e documentos oficiais que tratam
acerca do assunto.
Uma análise mais cuidadosa, leva à conclusão de que a Universidade
não só se apropriou, como reforça e amplia o modelo da
educação especial herdado dos outros níveis de ensino, pois em suas
práticas continua se ressaltando a diferença, a característica do 
defeito
como justificativa para não considerar o aluno com deficiência
como parte da turma, como alguém que deve estar sob a responsabilidade
do professor e do conjunto da Universidade. Apesar do esforço
já empreendido, com o objetivo de desfazer este entendimento
ainda impregnado na consciência coletiva da Universidade, muito se
precisa avançar dentro da academia.
Nesse caso, um dos grandes desafios para o Programa de Educação
Especial, é trazer a tona elementos constituintes das condições
de vida das pessoas com deficiência, ou seja, estas apresentam
características relacionadas a aspectos físicos, sensoriais, de 
inteligencia,
Página 31.
de comportamento, mas não são esses elementos de forma
isolada que os definem como sujeitos. Por outro lado, não se trata de
negar as características individuais, no entanto, deve-se relacioná-las
a um conjunto de condições que fazem parte do ser humano, inserido
num determinado momento histórico, como pontua (JANNUZZI, 1997).
Cabe mencionar que a UNIOESTE sem dúvidas desenvolveu e
acumulou nos últimos anos, uma experiência significativa com relação
ao acesso e permanência de alunos com deficiência nos seus diversos
cursos e nos diferentes campi, a ponto de se tornar uma referência no
Estado. Isso, tem sido importante e necessário como forma de assegurar
às pessoas com deficiência o direito de cursar o ensino superior.
Na busca de avanços, o Programa intensifica seus esforços para se
constituir efetivamente num grupo de pesquisa. Nesse sentido, além das
diversas publicações nos eventos acadêmicos da área, realiza anualmente
seminários que buscam discutir questões relacionadas às pessoas com
deficiência. Seus membros se dedicam ao estudo da obra Fundamentos
de Defectologia (VIGOTSKI, 1997) e dispensam esforços na realização
de um projeto em parceira com o MEC, que prevê um curso para 
professores
na área da deficiência física e visual e a publicação do livro: A
Pessoa com Deficiência: aspectos teóricos e práticos.
REFERÊNCIAS
BIANCHETTI, L. . Aspectos históricos da apreensão e da educação
dos considerados deficientes. In: BIANCHETTI, L.; FREIRE, I. M. (Orgs).
Um olhar sobre a diferença: interação, trabalho e cidadania. Campinas,
São Paulo: Papirus, 1998.
BRASIL, Lei nº 9394/96 de 20/12/96- Lei de diretrizes e bases da 
educação
nacional -LDB LDB. Brasília: Diário Oficial da União, nº 248 de 
20/12/1996.
Página 32.
BRASIL . Ministério da Educação. Decreto Nº 3298, de 20 de dezembro
de 1999. Disponível em: http://www.mec.gov.br/seesp/pdf/dec3298.pdf,
Acesso em, 13 jun. 2005.
BUENO J. G. S. Educação especial brasileira: Integração/segregação
do aluno diferente . São Paulo: Educ, 1993.
JANNUZZI, G.M As políticas e os espaços para criança excepcional 
excepcional.
In: FREITAS, M C. (org) História social da infância no Brasil. São 
Paulo:
Cortez, 1997.
SAVIANI, D. Tendências e correntes da educação brasileira. In: MENDES,
D. T. (org.). Filosofia da educação brasileira. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1983.
VIGOTSKI, L. S. Fundamentos de defectologia. In: Obras completas.
V. 5. La Habana: Editorial Pueblo y Educación, 1995.
Página 33.
CAPÍTULO II
O DEFEITO O E A COMPENSAÇÃO
1 Tradução da obra de VIGOTSKI, L. S. Fundamentos de Defectologia. In: 
Obras completas.
O Defeito e a Compensação Tomo V. Havana: Editorial Pueblo y Educación, 
1997.
2 Fue elaborado en 1924. Sobre este tema Vigotski presentó una ponencia 
en el
Segundo Congreso de Protección Social y Jurídica de los Menores de Edad
(CPSJME). Fue publicado por primera vez en forma de artículo: “EI 
defecto y Ia
supercompensación”, en la colección Ymstvennaia otstalast, slienota i
glujaniemota (1927). Analizaba críticamente de un modo detallado el 
estado de
la diagnosis en aquel tiempo y trazaba las vías de su desarrollo. La 
variación dei
título al transformar el artículo en un capítulo del libro, reflejó la 
actitud crítica
creciente del autor hacia la teoría de Adler. En el capítulo se 
presenta en lo
fundamental una exposición y el análisis crítico de las fuentes 
literarias extranjeras
sobre el problema de la anormalidad. Los datos propios recopilados por 
el autor
en el curso del estudio clínico-psicológico de los niños anormales en 
el Instituto
Experimental de Defectología (IED) fueron reflejados en los trabajos 
más tardíos
(véase los trabajos del presente tomo).
Página 34.
Naqueles sistemas da psicologia que têm em seu centro o conceito
da personalidade integral, a idéia da supercompensação desempenha
um papel dominante. “O que não me destrói me faz mais
forte”. W. Stern formula esta idéia, indicando que da debilidade surge
a força e das insuficiências, as capacidades (W. Stern, 1923, p. 145).
A direção psicológica amplamente difundida e muito influente na
Europa e América, criada pela escola do psiquiatra austríaco Adler,
e que se nomina psicologia individual, ou seja, psicologia da 
personalidade,
tem desenvolvido esta idéia em um sistema integral, em
uma teoria acabada sobre a psique. A supercompensação não é fenômeno
raro ou exclusivo na vida do organismo. Podem-se citar infinidades
de exemplos. Isto é, melhor dizendo, em um grau superior,
um traço geral e muito amplamente difundido dos processos orgânicos
relacionados com as leis fundamentais da matéria viva. Em verdade,
não temos uma teoria biológica que engloba tudo acerca da
supercompensação, mas em uma série de esferas diferentes da vida
orgânica estes fenômenos têm sido estudados de um modo tão fundamentado
e sua utilização prática é tão importante que nós, com pleno
direito, podemos falar sobre a supercompensação como um feito 
fundamental,
cientificamente estabelecido na vida do organismo.
Nós inoculamos em um menino sadio o tóxico virulento. O
menino sofre uma leve doença e depois de se restabelecer e por muitos
anos permanece protegido contra a varíola. Seu organismo adquiriu
a imunidade, ou seja, não somente venceu esta leve doença
que provocamos com a vacina, senão que saiu dessa doença mais
saudável do que era antes. O organismo soube produzir o antídoto
em quantidade muito maior da que se requeria pela dose do tóxico
que se inoculou. Se agora comparamos nosso menino com outros
que não foram vacinados, veremos que ele, com respeito a esta terrível
Página 35.
doença, é super saudável: ele, além de não se adoecer agora como
os outros meninos saudáveis, tampouco pode adoecer-se, e permanece
sadio também quando o tóxico chega novamente ao seu sangue.
Este é um processo contraditório à primeira vista, que transforma
a doença em super saúde, a debilidade em força, a intoxicação
em imunidade e tem o nome de supercompensação. Sua essência se
reduz ao seguinte: qualquer dano ou influência prejudicial sobre o
organismo provoca, por parte deste último, reações de proteção muito
mais enérgicas e fortes que aquelas que são necessárias para paralisar
o perigo imediato. O organismo representa um sistema relativamente
fechado e vinculado, internamente de órgãos que possuem uma
grande reserva de energia potencial e de forças ocultas. Este atua nos
momentos de perigo como um todo único, mobilizando as reservas
ocultas das forças acumuladas e concentrando no lugar do perigo,
com grande abundância, doses de antídoto maiores que a dose de
tóxico que o ameaça. Desta maneira o organismo não somente compensa
o prejuízo causado a ele, mas também produz um excesso,
uma superioridade perante o perigo, que o leva a um estado mais alto
de proteção do que aquele que tinha antes do surgimento do perigo.
Para o lugar pelo qual penetrou a infecção se dirigem os
glóbulos brancos em uma quantidade muito maior que a necessária
para vencer a infecção. Isto, também é uma supercompensação. Se
cura o enfermo de tuberculose injetando-lhe tuberculina, ou seja, 
tóxico
tuberculoso, então se calcula uma dose para a supercompensação
do organismo. Esta falta de correspondência entre o estímulo e a
reação, a desigualdade da ação e a reação, o excesso de antídoto, a
aquisição da super saúde por meio da enfermidade inoculada e a
elevação a um nível superior mediante o vencimento do perigo, são
importantes para a medicina e a pedagogia, para o restabelecimento
Alguns autores utilizam neste sentido o termo recompensação.
Página 36.
da saúde e para a educação. Na psicologia este fenômeno se aplicou
amplamente quando se começou a estudar a psique não de um modo
isolado do organismo, como a alma separada do corpo, mas no sistema
do organismo, como sua função peculiar e superior. Resultou
que no sistema da personalidade, a supercompensação desempenha
um papel não menor. Basta recorrer à psicotecnia atual. De acordo
com seu ponto de vista, uma função tão importante no processo de
educação da personalidade como é a exercitação, se reduz, em essência,
aos fenômenos da supercompensação. Adler dirigiu a atenção
para o fato de que os órgãos deficientes, cujo funcionamento se
dificulta, ou tem sido alterada a causa dos defeitos, entram 
necessariamente
numa luta, em um conflito com o mundo exterior ao qual
eles devem se adaptar. Uma elevada morbilidade e a mortalidade
acompanham esta luta, mas a luta oculta em si elevadas possibilidades
para a supercompensação (A. Adler, 1927). Da mesma maneira
que em caso de enfermidade ou da extirpação de um dos órgãos
pares (os rins , o pulmão) o outro membro do par assume sua função
e se desenvolve de um modo compensador, da mesma forma o sistema
nervoso central assume a compensação do órgão deficiente ímpar,
precisando e aperfeiçoando o funcionamento do dito órgão. O
aparelho psíquico forma sobre este órgão uma superestrutura procedente
das funções superiores que facilitam e elevam a efetividade do
seu funcionamento. “Sentir a deficiência dos órgãos é para o indivíduo
um estímulo constante para o desenvolvimento de sua psique” -
cita Adler as -palavras de O. Rule4 (1926, p. 10).
Inicio de nota de rodapé.
(4) Rüle Otto (1874-1943), pedagogo alemán socialdemócrata. Criticó el 
sistema de
enseñanza y educación existente en la escuela alemana, por su carácter 
burgués
claramente manifiesto. Trató de demostrar la importancia educativa del 
trabajo. Fue
un resuelto adversario de Ia caracterología de S. Freud que opuso a 
ella la teoría de
A. Asler. Vigotski cita a Rüle en relación con el análisis del problema 
sobre la
formación del carácter como “un proceso socialmente dirigido”.
Fim de nota de rodapé.
Página 37.
O sentimento ou a consciência de inferioridade que surge no
indivíduo por causa do defeito, é a valoração de sua posição social,
e se converte na principal força motriz do desenvolvimento psíquico.
A supercompensação “ao desenvolver os fenômenos psíquicos
do pressentimento e da previsão, assim como seus fatores que
atuam à maneira de memória, intuição, atenção, sensibilidade, 
interesse,
em resumo, todos os momentos psíquicos em um grau
intensificado” (ibidem,p.11) conduz à formação de uma consciência
de super saúde no organismo enfermo, a formação da super suficiência
procedente da insuficiência, a transformação do defeito em
talento, capacidade e inteligência. Demóstenes, o qual padecia de
defeitos de linguagem se converteu em o grande orador da Grécia.
Sobre ele, se diz que dominou sua grande arte aumentando seu próprio
defeito natural, se esforçando e multiplicando os obstáculos.
Exercitou-se na pronunciação das palavras, enchendo a sua boca de
pedrinhas e tratando de vencer o som das ondas do mar que afogavam
sua voz. “Se non e vero, é ben trovato” (“se isto não é verdade,
está bem inventado”), como diz o provérbio italiano. O caminho
para o aperfeiçoamento se faz vencendo os obstáculos e a dificuldade
da função é o estimulo para sua elevação. L. V. Bethoven e A.
S. Suvorov também podem servir de exemplo. O tartamudo C.
Demoulins foi um destacado orador; a cega e surda5 H. Keller6 foi
uma prestigiosa escritora, predicadora do otimismo.
Inicio de nota de rodapé.
5 Em algumas passagens do texto em espanhol, o termo surdo é expresso 
como
surdo.
6 Keller Helen (1880-1968), ciega sordamuda norteamericana. Recibió la 
enseñanza
superior, llegó a ser escritora, doctora en filosofia y predicadora. 
Vigotski analiza la
bistoria de Helen Keller desde el punto de vista del proceso de 
supercompensación
en las condiciones sociales favorables creadas especialmente para ella.
Fim de nota de rodapé.
Página 38.
Duas circunstâncias nos obrigam a prestar especial atenção a esta
teoria. Em primeiro lugar, a vinculam freqüentemente e em particular, 
nos
círculos da social democracia alemã, com a teoria de K. Marx; em 
segundo
lugar, está relacionada internamente com a pedagogia, com a teoria e a
prática da educação. Deixaremos de lado a questão acerca de que, em que
medida, está vinculada a teoria da psicologia individual com o 
marxismo;
esta questão, requereria uma investigação especial. Assinalaremos 
somente
que a tentativa de síntese de Marx e Adler, assim como as tentativas de
inserir a teoria sobre a personalidade dentro do contexto do sistema 
filosófico
e social do materialismo dialético, se fizeram e tentaram compreender
quais as razões que levaram à aproximação das duas idéias.
Já o surgimento da nova direção que se separou da escola de S.
Freud(7), foi provocado pela diferença existente nos pontos de vista 
sociais
e políticos dos representantes da psicanálise. Pelo visto, o aspecto
político, aqui teve também importância, F. Vittells fala sobre a saída 
de
Inicio de nota de rodapé.
(7) Freud Sigmund (1856-1939), médico psiquiatra y psicólogo austriaco, 
creador de la
teoría del psicoanálisis. Después de haber trabajado en Ia 
neuropatología (la afasia
y las parálisis infantiles), desde 1895 pasa a la elaboración de la 
teoria del psicoanálisis.
En las primeras etapas de la fonnación de la teoría es característica 
la separación de
las particularidades de la conciencia y de la conducta del hombre, de 
su fundamento
biológico (principalmente del sexual). Este enfoque provocó la adopción 
de una
actitud negativa bacia las ideas de Freud por parte de los destacados 
psiquiatras y
neurólogos de su época. Sin embargo, en el futuro, la teoría del 
psicoanálisis
adquirió una gran influencia en la formación de las ideas científicas, 
psicológicas y
sociales, convirtiéndose en una concepción acabada del mundo, de tipo 
idealista y
reaccionario. En el trabajo de Vigotski se presenta una compleja 
actitud hacia las
ideas de Freud. Al valorar de un modo positivo la categoría central de 
lo inconsciente,
en la cual se apoyó Freud, Vigotski, sin embargo, adopta una actitud 
muy negativa
hacia la bioJogización de la naturaIeza del hombre (de Freud) 
mencionada con
anterioridad. No encontramos señalamientos directos de la importancia 
de los
procesos psíquicos inconscientes al analizar las leyes del desarrollo 
anormal.
Fim de nota de rodapé.
Página 39.
Adler e de uma parte de seus partidários, do circulo de psicanalistas.
Adler e seus amigos eram social democratas. Muitos de seus seguidores
gostam de destacar este momento. “Sigmund Freud até hoje tem
feito tudo com que o fim de sua teoria resulte útil para os interesses 
do
regime social dominante. Em contraposição a isto a psicologia 
individual
de A. Adler tem um caráter revolucionário e as conclusões desta
coincidem totalmente com as conclusões da sociologia revolucionária
de Marx” - expressa O. Rule (1926, p.5) -, o qual tenta sintetizar Marx 
e
Adler em seu trabalho sobre a psique do menino proletário.
Tudo isto, como já se expressou, é discutível, mas os dois momentos
que possibilitam semelhante aproximação desde o ponto de
vista psicológico atraem a atenção.
Em primeiro lugar o caráter dialético da nova teoria; em segundo
lugar, a base social da psicologia da personalidade. Adler pensa
dialeticamente: o desenvolvimento da personalidade se move por uma
contradição; o defeito, a inadaptação, a inferioridade, não somente é
uma deficiência, uma insuficiência, uma magnitude negativa, senão
que também um estímulo para a supercompensação. Adler deduz “a
lei psicológica fundamental sobre a transformação da deficiência 
orgânica
através do sentimento subjetivo de inferioridade na aspiração
psíquica à supercompensação” (A. Adler, 1927, p. 57). Com isto ele
permite incluir a psicologia dentro do contexto das amplas teorias
biológicas e sociais; em efeito, todo o pensamento verdadeiramente
científico se move mediante a dialética. C. Darwin(8) ensinou que a
Inicio de nota de rodapé.
(8) Darwin Charles (1809-1882), destacado naturalista inglés, creador 
de la teoría de la
evolución, que ejerció gran intluencia en el desarrollo de las 
disciplinas afines.
Vigotski, al replicar en contra de las afirmaciones de la 
caracterolbgía vieja y
contemporánea para él, señala que “ella recuerda el estado de las 
ciencias biológicas
antes de Darwin”. Vigotski también utiliza los postulados de la teoría 
de la
evolución de Darwin al criticar algunas ideas de S. Freud.
Fim de nota de rodapé.
Página 40.
adaptação surge da inadaptação, da luta, da morte e da seleção. E
Marx, diferentemente do socialismo utópico, ensinou que o 
desenvolvimento
do capitalismo conduz inevitavelmente ao comunismo
mediante o vencimento do capitalismo pela ditadura do proletariado
e não se separa disto, como poderia parecer de um ponto de vista
superficial. A teoria de Adler quer demonstrar também como o racional
e superior surge necessariamente do irracional e do inferior.
A psicologia da personalidade rompe definitivamente com “o
estatismo biológico no enfoque do caráter” - como assinala de um
modo correto A. B. Zalkind - e é “uma corrente caracterológica 
realmente
revolucionária” (1926, p. 177), já que em contraposição com a
teoria de Freud, no lugar da fatalidade biológica, coloca as forças 
formadoras
e motrizes da história e da vida social (ibidem). A teoria de
Adler se opõe não somente aos esquemas biológicos reacionários de
E. Kretschmer(9), para o qual a constituição inata determina a 
estrutura
Inicio de nota de rodapé.
(9) Kretschmer Ernst (1888-1964), psiquiatra alemán, uno de los 
fundadores de la
dirección constitucionalista en la psiquiatría. Vigotski se manifiesta 
resueltamente
en contra de la afirmación principal de Kretschmer acerca de que el 
carácter (el
tipo de la conducta del hombre) depende por entero y por completo de la
constitución congénita, de las particularidades de la estructura del 
cuerpo y del
sistema endocrino. Desarrolla un sistema multilateral de pruebas que 
refutan
este enfoque estático del carácter como una formación estable 
determinada
enteramente por el factor biológico. Al mismo tiempo Vigotski, en las
investigaciones de Kretschmer destaca una serie de postulados que salen 
de los
marcos de la caracterología, con los que él está enteramente de 
acuerdo. Estos
postulados son las conclusiones de Kretschmer, importantes para la 
defectología,
sobre las particularidades de la memo ria en los ciegos, los datos 
acerca de que las
complicaciones secundarias en el proceso del desarrollo del niño 
enfermo se
someten a la intluencia, etc. La actualidad y la importancia de la 
crítica hecha por
Vigotski y otros psicólogos, a la caracterología de Kretschmer, en la 
época temprana
del proceso de formación de la psicología soviética son indudables.
Fim de nota de rodapé.
ágina 41.
do corpo, o caráter e “ todo o desenvolvimento posterior do caráter
humano é somente o desenvolvimento passivo do tipo biológico 
fundamental
que é inerente de nascimento ao homem” (ibidem, p. 174). Mas
a teoria de Adler é oposicionista também com respeito à caracterologia
de Freud. Duas idéias o separam deste último: a idéia da base social
do desenvolvimento da personalidade e a idéia da tendência final deste
processo. A psicologia individual nega o vínculo obrigatório do caráter
e em geral do desenvolvimento psicológico da personalidade com o
substrato orgânico. Toda a vida psíquica do indivíduo é a substituição
das disposições combativas, dirigidas à solução da tarefa única: ocupar
uma posição determinada com respeito à lógica imanente da sociedade
humana, às exigências do ser social.
Em suma, o defeito por si mesmo não decide o destino da personalidade,
senão as conseqüências sociais e sua realização
sociopsicológica. Em relação a isto, para o psicólogo se faz 
indispensável
a compreensão de cada ato psicológico não somente em
relação com o passado, senão que também com o futuro da personalidade.
Isto se pode chamar também tendência final de nossa conduta.
Em essência, esta compreensão dos fenômenos psicológicos não
somente do passado, mas também do futuro, não significa nenhuma
outra coisa que a exigência dialética de compreender os fenômenos
em movimento eterno, descobrir suas tendências, seu futuro determinado
por seu presente. Na teoria da estrutura da personalidade e do
caráter, a nova compreensão introduz a perspectiva do futuro, 
extremamente
valiosa para a psicologia. Esta nos libera das teorias conservadoras,
de Freud e E. Kretschmer, que nos reduzem ao passado.
Da mesma maneira que a vida de qualquer organismo está dirigida
pela exigência biológica da adaptação, a vida da personalidade está
dirigida pelas exigências de seu ser social. “Não estamos em condições
de pensar, sentir, querer, e atuar sem que diante de nós haja algum 
objetivo"-
Página 42.
expressa Adler (A. Adler, 1927, p. 2). Tanto um ato isolado, como
o desenvolvimento da personalidade em geral pode ser compreendido a
partir das tendências dadas em direção ao futuro. Com outras palavras:
“A vida psíquica do homem tende, como o personagem criado por um
bom dramaturgo, em direção do seu V ato” (ibidem, p. 2-3).
A perspectiva do futuro introduzida por esta teoria na compreensão
dos processos psicológicos, nos leva à pedagogia psicológica
individual como um dos dois momentos que centra nossa atenção no
método de Adler. Vittells denomina a pedagogia como a esfera principal
da aplicação da psicologia de Adler. Na realidade, a pedagogia
para a direção da descrição psicológica, constitui o mesmo que a
medicina para as ciências biológicas, a técnica para as ciências
fisioquímicas e a política para as ciências sociais, a pedagogia é o
critério de veracidade superior, já que mediante a prática demonstra
o homem a verdade de seus pensamentos. Desde o mesmo início está
claro o porque precisamente esta corrente psicológica ajuda a 
compreender
o desenvolvimento infantil e a educação; por conseguinte,
na inadaptação da infância se encontra a fonte da supercompensação,
é dizer, o desenvolvimento superior das funções. Quanto mais
adaptada é a infância em algumas espécies de animais, menores são
as possibilidades potenciais do desenvolvimento e da educação. A
garantia da super valoração reside na presença da deficiência, por
isso a inadaptação e a supercompensação são as forças motrizes do
desenvolvimento da criança. Esta compreensão nos dá a clave para a
psicologia classista e a pedagogia. De igual forma que o curso da
corrente se determina pelos cantos e o leito, a linha principal 
psicológica,
o plano de vida do homem que se desenvolve e cresce estão
determinados, com a necessária objetividade, pelo leito social “e os
cantos sociais” da personalidade.
Página 43.
Para a teoria e a prática da educação da criança com defeito de audição
e de visão, a teoria da supercompensação tem uma importância 
fundamental
e serve de base psicológica. Que perspectiva tem ante si o pedagogo
quando conhece que o defeito não é somente uma deficiência, uma 
debilidade,
senão também a fonte das forças e das capacidades e que no defeito há
algum sentido positivo. Em essência, a psicologia há muito tempo 
estudou
isto, os pedagogos há muito tempo que conheciam isto, mas somente agora
se formulou com precisão científica a lei principal: a criança ira 
querer ver
tudo se é míope, ouvir tudo se apresenta uma anomalia auditiva, irá 
querer
falar se tem dificuldades na linguagem ou se é tartamudo. O desejo de 
voar
estará manifestado nas crianças que têm grandes dificuldades já para 
saltar
(A. Adler, 1927, p. 27). Nesta “oposição da deficiência orgânica e dos 
desejos,
as fantasias, os sonhos, é dizer, das aspirações psíquicas à 
compensação...”
(ibidem), se encontra o ponto de partida e as forças motrizes de
qualquer educação. A prática da educação confirma isto a cada passo. Se
nós ouvimos dizer: a criança manca e por isso corre melhor do que as 
demais,
entendemos que se trata da mesma lei. Se as investigações experimentais
demonstram que as reações podem ter lugar com maior velocidade e
força ante a presença de obstáculos em comparação com as máximas em
condições normais, temos ante si a mesma lei.
A representação elevada da personalidade humana e a compreensão
de sua fusão orgânica e da unidade devem constituir a base
da educação da criança anormal.
W. Stern, quem olhou a estrutura da personalidade com mais
profundidade que os demais psicólogos, supôs o seguinte: “não temos
nenhum direito de tirar conclusões acerca de que o portador de
uma anormalidade estabelecida de uma ou outra propriedade é anormal,
da mesma maneira que é impossível reduzir a anormalidade
Página 44.
estabelecida da personalidade a propriedades únicas como causa
primeira e única” (W. Stern, 1921, p. 163-164).
Aplicamos esta lei na somática e na psique, na medicina e na
pedagogia. Na medicina se fortalece cada vez mais a opinião de que o
funcionamento racional ou irracional do organismo íntegro é o único
critério da saúde ou da doença, e as anormalidades se valoram somente
na medida em que se compensam normalmente ou não se compensam
através de outras funções do organismo (ibidem, p. 164). Na psicologia
a análise microscópica das anormalidades conduz a sua
sobrevaloração e a sua análise como expressões da anormalidade geral
da personalidade. Se aplicamos estas idéias de Stern na educação,
haveremos de recusar o conceito e o termo “crianças com defeito”.
T. Lipps viu nisto a lei geral da atividade psíquica, a qual denominou
lei do dique ou da contenção. “Se o acontecimento psíquico
se interrompe ou se obstaculiza no seu curso natural, ou se neste
último se apresenta em algum ponto um elemento estranho, ali onde
começa a interrupção, a retenção, ou a revolta do curso do 
acontecimento
psíquico, ali tem lugar uma inundação” (T. Lipps, 1907, p. 127).
A energia se concentra nesse ponto, aumenta e pode vencer a retenção.
Pode avançar por uma via de rodeio, “Entre muitas outras coisas
mais, aqui se inclui a alta valoração do que se foi perdido ou 
inclusive
somente danificado”, (ibidem, p.128). Isto já contém toda a idéia
da supercompensação. Lipps concedia uma importância universal a
esta lei. Em geral, qualquer aspiração é considerada por ele um 
fenômeno
da inundação. Lipps explicou não somente a vivência do cômico
e do trágico, senão também os processos do pensamento mediante
a ação desta lei: “Qualquer atividade racional se realiza 
necessariamente
pelas vias de acontecimento anterior sem objetivo ou automático”,
quando se apresenta o obstáculo. À energia no lugar da conteção
Página 45.
é inerente a tendência a se mover em direção a um lado. O
objetivo que não se pode alcançar por via direta se alcança graças à
força da inundação por uma das vias indiretas” (ibidem, p. 274).
Somente devido à dificuldade, à retenção, ao obstáculo se faz
possível o objetivo para outros processos psíquicos. O ponto de 
interrupção,
é dizer, o transtorno de alguma função que atua automaticamente
se converte no “objetivo” para as outras funções dirigidas a este
ponto e por isso tem o aspecto de atividade racional. Eis aqui o porquê
o defeito e os transtornos originados por ele no funcionamento da 
personalidade,
chegam a ser o ponto especial e final para o desenvolvimento
de todas as forças psíquicas do indivíduo; eis aqui o porquê
Adler denomina ao defeito a força motriz fundamental do desenvolvimento
e o ponto final especial do plano da vida. A linha 
“defeito-supercompensação”
é a linha principal do desenvolvimento da criança com
defeito de alguma função ou órgão. Deste modo o “objetivo” se assinalou
com anterioridade e, em essência, somente é evidentemente um
objetivo, de fato é a causa primeira do desenvolvimento.
A educação da criança com diferentes defeitos deve basear-se
no fato de que simultaneamente com o defeito estão dadas também
as tendências psicológicas de uma direção oposta; estão dadas as
possibilidades de compensação para vencer o defeito e de que 
precisamente
essas possibilidades se apresentam em primeiro plano
no desenvolvimento da criança e devem ser incluídas no processo
educacional como sua força motriz. Estruturar todo o processo
educativo segundo a linha das tendências naturais à supercompensação,
significa não atenuar as dificuldades que surgem do defeito, mas 
tensionar
todas as forças para sua compensação, apresentar somente as tarefas e
em uma ordem que respondam ao caráter gradual do processo de formação
de toda a personalidade sob um novo ponto de vista.
Página 46.
Que verdade libertadora para o pedagogo: o cego desenvolve a
superestrutura psíquica sobre as funções que têm desaparecido, que
tem uma tarefa, substituir a visão; o surdo por todas as vias cria os
meios para vencer o isolamento e a separação da mudez! Até o momento,
não temos utilizado estas forças psíquicas, não as temos levado
em consideração; estas são a vontade para recuperar a saúde e a validez
social, que ferem como um punhal esta criança. O defeito se considera
estaticamente somente como um defeito, como menos. As forças positivas
colocadas em ação pelo defeito estavam ao lado da educação. Os
psicólogos e os pedagogos não conheciam a lei de Adler sobre a
contraposição da deficiência orgânica dada e das tendências 
psicológicas
em direção à compensação; levavam em conta somente o primeiro,
a deficiência. Não conheciam que o defeito não somente é uma
pobreza psíquica, senão que também uma fonte de riqueza; não somente
uma debilidade, senão que também uma fonte de força. Pensavam
que o desenvolvimento da criança cega estava dirigido à cegueira,
mas o resultado está dirigido ao vencimento da cegueira. A psicologia
da cegueira é, em essência, a psicologia do vencimento da cegueira.
A compreensão incorreta da psicologia do defeito tem sido a causa
do fracasso da educação tradicional dos cegos e dos surdos. A 
compreensão
antiga do defeito somente como uma deficiência se parece
com o fato de que, como se seguisse o exemplo da vacinação da criança
saudável, resultará que lhe inoculam a doença. De fato lhe inoculam a
super saúde. O mais importante é que a educação se apóia não somente
nas forças naturais do desenvolvimento, senão também no ponto especial
e final ao qual deve se orientar. A validez social é o ponto especial e
final da educação, já que todos os processos da supercompensação estão
dirigidos à conquista da posição social. A compensação se dirige
não em direção a um desvio posterior da norma, ainda que seja no 
sentido
Página 47.
positivo, senão em direção ao desenvolvimento super normal, deforma
unilateralmente o hipertrofiado da personalidade em alguns aspectos,
mas no sentido da norma, no sentido da aproximação a um determinado
tipo social. Um determinado tipo social da sociedade é a norma da
supercompensação. Na criança surda, aparentemente separado do mundo,
separado de todas as relações sociais, encontramos não a redução
senão o aumento do instinto social, da vontade para a vida social e da
ânsia de comunicação. Sua capacidade psicológica para a linguagem é
inversamente proporcional a sua capacidade física para falar. Ainda que
pareça paradoxal, a criança surda mais que a normal quer falar e tem
tendência a falar. Nosso ensino tem passado por isto sem se deter e os
surdos sem nenhuma educação, que atendesse as suas necessidades,
desenvolveram e criaram sua linguagem, a qual surgiu desta tendência.
Aqui o psicólogo tem em que pensar. Aqui se encontra a causa de nosso
fracasso no desenvolvimento da linguagem oral nos surdos. Da mesma
forma também o menino cego possui uma elevada capacidade para dominar
o espaço, uma inclinação maior em comparação com a criança
vidente, em relação ao mundo, que se apresenta para esta última sem
trabalho graças à visão. O defeito não é somente debilidade, senão que
também força. Nesta verdade psicológica se encontra o alfa e o ômega
da educação social das crianças com defeitos.
O mais progressista e correto da psicologia da educação das
crianças com defeitos está contido nas idéias de T. Lipps, W. Stern e 
de
A. Adler. Porém estas idéias estão cobertas de certa falta de claridade
e para dominá-las totalmente é necessário aclarar com precisão em
que relação se encontram com respeito às outras teorias e pontos de
vista psicológicos, parecidos a elas enquanto a forma e a essência.
Em primeiro lugar, surge com facilidade a suspeita de que estas
idéias não tem sido criadas pelo otimismo científico. Se junto com o
defeito estão dadas também as forças para seu vencimento, qualquer
Página 48.
defeito tem seu bem. Por acaso, não é assim? Mas a supercompensação
é somente o ponto extremo de uma das duas saídas possíveis
deste processo, de um dos dois pólos deste defeito complicado do
desenvolvimento. O outro pólo é o fracasso da compensação, a evasão
da doença, a neurose e o caráter associal total da posição psicológica.
A compensação que não se conseguiu se transforma em uma
luta de defesa com ajuda da doença, em um objetivo fictício que
dirige todo o plano da vida por uma via falsa. Entre estes dois pólos,
como casos extremos, estão dispostos todos os graus possíveis de
compensação, desde os mínimos até os máximos.
Em segundo lugar, estas idéias resultam fácil confundi-las com
as diretamente opostas enquanto ao sentido e é possível ver nelas um
profundo retorno ao passado, à valoração mística-cristã do defeito e
do padecimento. Não penetra também junto com as idéias assinaladas
e a alta valoração da doença em detrimento da saúde, o reconhecimento
da utilidade do padecimento, em geral, o cultivo das formas impotentes,
débeis e pobres da vida em prejuízo das fortes, valiosas e poderosas?
Não, a nova teoria valora de um modo positivo não o padecimento
por si mesmo, senão seu vencimento; não a resignação ante o
defeito, senão a rebelião contra ele; não a debilidade por si mesma,
senão os impulsos e as fontes de força contidas nela. De maneira que
esta teoria se opõe diametralmente às idéias cristãs sobre as doenças.
Aqui se denomina o bem não como pobreza, senão riqueza potencial
de espírito, e pobreza como um impulso para seu vencimento, para a
acumulação. O ideal da força e da potência aproxima Adler e
Nietzsche(10), no qual a psicologia individual se mostra como a vontade
para o poder, para a potencia, como uma tendência primária. A teoria
sobre a validez social como o ponto final da supercompensação, separa,
Inicio de nota de rodapé.
(10) Nietzsche Friedrich (1844-1900), filósofo reaccionario alemán, 
representante del
irracionalismo y del voluntarismo; uno de los fundadores de “la 
filosofia della vida”.
Fim de nota de rodapé.
Página 49.
tanto a psicologia, com igual precisão do ideal cristão da debilidade
como do culto nietzscheniano da força individual.
Em terceiro lugar, é necessário traçar os limites entre a teoria da
supercompensação do defeito e a antiga teoria biológica ingênua, ou
senão, a teoria do substituto dos órgãos dos sentidos. É induvidável
que esta última já continha o primeiro pressentimento científico da 
verdade
de que a declinação da função proporciona um impulso para o
desenvolvimento das outras funções substitutas que ocupam seu lugar.
Mas este pressentimento está expressado de um modo ingênuo e 
transformado.
As relações entre os órgãos dos sentidos se equiparam diretamente
com as relações entre os órgãos pares; o tato e a audição
compensam aparentemente de forma direta a visão que há declinado,
como o rim são compensa o doente; o menos orgânico se cobre 
mecanicamente
com o mais orgânico e continua sendo confuso com este
salto através de todas as instâncias sócio-psicológicas, o que estimula
a audição e a pele a realizar a compensação: em efeito, a declinação
da visão não afeta as atividades vitais necessárias. A prática e a 
ciência
faz tempo desmascararam a falta de fundamento desta teoria. Uma 
investigação
baseada em fatos tem demonstrado que na criança cega não
há o aumento automático do tato ou da audição devido à visão que lhe
falta (K. Bürklen, 1924). Pelo contrário, a visão por si mesma não se
substitui, senão que as dificuldades que surgem devido à sua falta se
solucionam mediante o desenvolvimento da superestrutura psíquica.
Deste modo, nos encontramos com a opinião sobre a memória elevada,
a atenção elevada e as capacidades articulatórias elevadas dos
cegos. Precisamente nisto A. Petzeld(11), a quem pertence o melhor 
trabalho
Inicio de nota de rodapé.
(11) Petzeld A. (?). Vigotski compartía enteramente la idea de Petzeld 
sobre las amplísimas
posibilidades del desarrollo de la persona ciega en las condiciones de 
la educación correcta.
Al valorar el libro de Petzeld “como el mejor trabajo sobre la 
psicología de los ciegos”, él
compartió su opinión de que el dominio dellenguaje, de la comunicación 
social es la
dirección fundamental y decisiva de la compensación de la ceguera (“de 
su vencimiento”).
Fim de nota de rodapé.
Página 50.
sobre a psicologia dos cegos vê o traço fundamental da supercompensação
(A. Petzeld, 1925). O mais característico da personalidade
do cego - supõe - é a possibilidade de assimilar a experiência social
dos videntes com ajuda da linguagem. H. Grizbach demonstrou que o
dogma da substituição dos sentidos não resistiu às críticas e “o cego
tem estado tão perto da sociedade dos videntes, como distante tem
estado sua teoria do substituto” (ibidem, p. 30-31).
Na realidade, nesta teoria há um grau de verdade, contido na 
compreensão
de que qualquer defeito não está limitado à declinação isolada
da função, senão que traz consigo a reorganização radical de toda a
personalidade, reanima novas forças psíquicas e ainda lhes dá uma nova
orientação. Somente a idéia ingênua sobre a natureza puramente orgânica
da compensação, somente a ignorância do momento sóciopsicológico
neste processo e somente o desconhecimento da direção final e da 
natureza
geral da supercompensação separam a teoria velha, da nova.
Por último, em quarto lugar, é necessário determinar a relação
verdadeira da teoria de Adler com a pedagogia social terapêutica
soviética que foi criada nos últimos anos, elaborada sobre a base dos
dados da reflexologia. A delimitação destes dois grupos de idéias se
reduz a que a teoria dos reflexos condicionados proporciona a base
científica para a elaboração do próprio mecanismo do processo
educativo e a teoria da supercompensação e para a compreensão do
próprio processo de desenvolvimento da criança. Muitos autores, 
incluindo
a mim, têm analisado o ensino dos cegos ou dos surdos,
desde o ponto de vista dos fatores condicionados e têm chegado a
uma conclusão importante muito profunda: não existe nenhuma diferença
de princípio entre a educação da criança vidente e da criança
cega, as novas relações condicionadas se estabelecem da mesma
maneira com qualquer analisador e o efeito das influências externas
Página 51.
organizadas é a força determinante da educação. A escola sob a direção
de I. A. Sokolianski(12) elabora uma nova metodologia para o
ensino da linguagem aos surdos sobre a base desta teoria, e neste
caso, alcança resultados práticos surpreendentes e implanta postulados
teóricos superiores às teorias da surdopedagogia européia mais
progressista. Mas é impossível limitar-se a isto. Não se pode supor
que se elimina teoricamente qualquer diferença entre a educação do
cego, do surdo e da criança normal, não se pode porque, de fato,
esta diferença existe e se dá a conhecer. Toda a experiência histórica
da surdopedagogia e a tiflopedagogia demonstra isto. Também é preciso
considerar as particularidades do desenvolvimento da criança
com defeito. O educador deve conhecer em que se afirma a peculiaridade
da pedagogia especial, que fatores no desenvolvimento da
criança respondem a esta peculiaridade e a exigem. É verdade que a
criança cega ou surda deste ponto de vista da pedagogia pode, em
Inicio de nota de rodapé.
(12) Sokolianski Ivan Afanasevich (1889-1960), pedagogo-defectólogo 
soviético, especialista
en la esfera de la surdopedagogía y la titlopedagogía. Una especial 
importancia
científica y práctica tiene el sistema original de educación y 
ensenanza de los
ciegos sordomudos creado por él. Además, elaboró el método de ensenar a 
hablar
a los niños sordomudos sobre la base de la percepción visual íntegra de 
las formas
de las palabras y de las frases a través de la lectura por el 
movimiento de los labios,
y de las sensaciones motoras “procedentes del trabajo de la mano al 
escribir”.
Vigotski consideró el carácter reflejo del proceso y también el orden 
lógico elaborado
de las instrucciones como el mérito de este método. Destacó que este 
método,
en resumidas cuentas, conduce al desarrollo dellenguaje coherente dei 
niño
sordomudo, lo que constituye una de las tareas principales de la 
surdopedagogía.
Sokolianski también estudió los problemas de la titlopedagogía. Por su 
iniciativa, en
Jarkov fue creada la única institución científico-pedagógica existente 
en el mundo,
la escuela clínica para los ciegos sordomudos (1923). De acuerdo con 
sus
elaboraciones fueron creadas diferentes adaptaciones técnicas 
utilizadas en la
enseñanza de los ciegos sordomudos; por este trabajo a Sokolianski le 
fue otorgado
postumamente el Premio Estatal.
Fim de nota de rodapé.
Página 52.
princípio, ser igualada à criança normal; mas ela alcança tudo o que
alcança uma criança normal por outra via, de outra maneira, por outros
meios. Para o pedagogo resulta muito importante conhecer precisamente
essa peculiaridade da via pela qual é necessário conduzir
esta criança. A biografia do cego não se parece com a biografia do
vidente; é impossível admitir que a cegueira não provoca uma profunda
peculiaridade de toda a linha de desenvolvimento.
Em essência , o caráter final dos atos psicológicos, sua tendência
em relação ao futuro se apresentam já nas próprias formas elementares
da conduta. Já nas formas mais simples da conduta com as
que têm relação a escola de I.P. Pavlov no estudo do mecanismo dos
reflexos condicionados, se assinala a orientação em direção a um
objetivo da conduta. Entre os reflexos inatos, Pavlov diferencia o 
reflexo
especial do objetivo. Com este nome contraditório ele indica
provavelmente dois momentos: 1) que também estamos frente a um
mecanismo reflexo; 2) que este mecanismo toma a aparência da atividade
racional, é dizer, se faz compreensível em relação com o futuro.
“Toda a vida é a realização de um objetivo - expressa Pavlov - e
precisamente esse objetivo é a conservação da própria vida...” (1951,
p. 308). Pavlov chama este reflexo de reflexo da vida. “Toda a vida,
todas as suas melhorias e toda sua cultura são o reflexo do objetivo e
tudo isto somente o podem conseguir os homens que aspiram alcançar
um ou outro objetivo que se estabelecem na vida” (ibidem, p.
310). Pavlov formula diretamente a importância deste reflexo para a
educação e suas idéias coincidem com a teoria da compensação.
“Para a manifestação completa , correta e frutífera do reflexo do 
objetivo
- expressa ele - se requer certa tensão. O anglo-saxão, a representação
superior deste reflexo, conhece bem isto e eis aqui o porquê
ante a pergunta qual é a condição principal para conseguir o
Página 53.
objetivo, ele responde de um modo inesperado e incrível para a visão
e o ouvido russos: a existência de obstáculos”. Ele parece dizer: “
Que aumente meu reflexo do objetivo em resposta aos obstáculos e
então alcançarei o objetivo como se não fosse difícil alcançá-lo”.
Resulta interessante que na resposta se ignore totalmente a 
impossibilidade
de alcançar o “objetivo” (ibidem, p. 311). Pavlov lamentou
que “ não tivéssemos informações práticas com respeito a este 
importantíssimo
fator da vida como é o reflexo do objetivo. E estas
informações são tão necessárias em todas as esferas da vida, começando
pela esfera capital, a educação” (ibidem, p. 311-312).
Ch. Sherrington(13) expressa o mesmo acerca do reflexo. Segundo
sua opinião, a reação reflexa não pode ser compreendida realmente
pelo fisiólogo sem conhecer seu objetivo, e ele pode conhecer
seu objetivo analisando a reação à luz de qualquer complexo orgânico
das funções normais como um todo. Isto também dá direito à síntese
de ambas as teorias psicológicas. “A orientação estratégica dos 
partidários
de Adler - expressa A. B. Zalkind - é a mesma idéia dominante, mas
não nas formulações fisiológicas gerais, senão clínicas, 
psicoterapêuticas”
(citado do livro: Novoie y reflexologui...1925, p. VI). O autor vê na 
coincidência
teórica e prática destas duas teorias a confirmação de que a via
fundamental pela que ambas marcham “é correta” (ibidem).
As investigações experimentais a que nos remetemos com anterioridade
e que demonstraram que a reação pode ganhar força e
velocidade ante a presença de estímulos obstaculizadores e
opositores, podem se considerar como fenômenos da idéia dominante
e como fenômenos da supercompensação. L. L. Vasiliev e eu
descrevemos estes fenômenos com o nome de processos dominantes
Inicio de nota de rodapé.
(13) Sherrington Charles Skott (1859-1952), fisiólogo inglés, fundador 
de la
escuelacientífica. Autor de descubrimientos fundamentales en la esfera 
de la
neurofisiología. Creador de la teoria de los campos receptivos.
Fim de nota de rodapé.
Página 54.
(V. M. Bejterev(14) e L. L. Vasiliev, 1926; L.S. Vigotski, 1982). V. P.
Protopopov(15) demonstrou que as concentrações “somático-defeituosas
superam as normais” no que diz respeito a maior estabilidade e
intensidade da reação (1925, p. 26); ele explica isto mediante as 
particularidades
do processo dominante. Isto também significa que o
potencial da supercompensação nas pessoas com defeito é mais alto.
Não se pode analisar as questões da educação sem a perspectiva
do futuro. Isto o demonstram as conclusões a que nos leva 
inevitavelmente
semelhante análise. Deste modo, I. A. Sokolianski chega a uma conclusão
paradoxal: a educação dos cegos surdos é mais fácil que a educação
dos surdos; e a educação dos surdos é mais fácil que a educação
dos cegos; a dos cegos é mais fácil que a das crianças normais. Esta
ordem lógica se estabelece precisamente atendendo ao grau de 
complexidade
e de dificuldade do processo pedagógico. Nisto ele vê uma conseqüência
direta da aplicação da reflexologia à revisão dos pontos de
vista sobre a anormalidade. “Isto não é um paradoxo, mas uma conclusão
natural dos novos pontos de vista sobre a natureza do homem e sobre a
essência da linguagem - expressa Sokolianski” (citado do 
livro:Ukrainskii
Vicnik refleksologuii..., 1926). Partindo destas investigações, 
Protopopov
chega também à conclusão de que no cego surdo” se estabelece com
extraordinária facilidade a possibilidade da relação social” (1925, 
p.10).
Inicio de nota de rodapé.
(14) Bejterev Vladimir Mijailovich (1857-1927), fisiólogo 
ruso-soviético, neurólogo y
psicólogo. Investigador de Ia personalidad sobre la base del estudio 
integral del
cerebro, mediante métodos fisiológicos, anatómicos y psicológicos. 
Fundador de la
reflexología. Vigotski utiliza el concepto de Bejterev, actividad 
correlativa, al analizar
el sistema alterado de las relaciones sociales del niño anormal, así 
como al intentar
dar una fundamentación reflexo lógica a los procesos de la lectura, la 
escritura y la
percepción del lenguaje en los niños ciegos y sordos.
(15) Protopopov Víctor Pavlovich (1880-1957), psiquiatra soviético, 
contribuyó a la
introducción en la psiquiatria de la teoría de L. P. Pavlov sobre los 
reflejos condicionados.
Al investigar a los ciegos sordomudos Protopopov llegó a la conclusión
sobre la posibilidad de instaurar en ellos la comunicación social.
Fim de nota de rodapé.
Página 55.
Que podem oferecer à pedagogia semelhantes postulados psicológicos?
Está totalmente claro que qualquer comparação da educação
do cego surdo e da criança normal, com respeito à dificuldade
e à complexidade somente é conveniente quando levamos em consideração
as tarefas pedagógicas iguais cumpridas em diferentes condições
(a criança normal, e a criança com defeito); somente uma
tarefa geral e um nível único das conquistas pedagógicas podem servir
de medida geral da dificuldade da educação em ambos os casos.
É absurdo perguntar o que é mais difícil: ensinar a uma criança apta
de oito anos a tabuada de multiplicar, ou a um estudante com atraso
mental, a matemática superior. Aqui a possibilidade no primeiro caso
está condicionada não pelas capacidades, senão pela facilidade da
tarefa. Resulta mais fácil ensinar o cego surdo, porque o nível de seu
desenvolvimento, as exigências dispostas ao seu desenvolvimento e
as tarefas da educação que se querem alcançar são mínimas. Se nós
quiséssemos ensinar à criança normal isto mesmo, é pouco provável
que alguém comece a afirmar que isto exigirá um maior trabalho.
Pelo contrário, se dispuzéssemos ao educador do cego surdo as
mesmas tarefas enormes, quanto ao volume, que se dispõem ao educador
da criança normal, é pouco provável que alguém possa realizar
isto com menos trabalho, ou que possa realizá-la em geral.
Com quem é mais fácil trabalhar para formar a unidade social
determinada do operário, do balconista e do jornalista. Com uma
criança normal ou com um cego surdo? É pouco provável que esta
pergunta tenha mais de uma resposta. No cego surdo se estabelece
com extraordinária facilidade a possibilidade da relação social - como
expressa Protopopov - não somente em dimensões mínimas. O clube
dos surdos e o internato dos cegos surdos nunca se converteram no
centro da vida social. Ou que demonstrem primeiro que ao cego surdo
Página 56.
é mais fácil ensinar a ler o jornal e a estabelecer relações sociais
que à criança normal. Chegaríamos a estas conclusões seguramente
se analisássemos somente a mecânica da educação sem ter em conta
a linha do desenvolvimento da própria criança e suas perspectivas.
O trabalho da supercompensação está determinado por dois
momentos: a amplitude, a dimensão da inadaptação da criança, o ângulo
de divergência de sua conduta e dos requisitos sociais colocados
para a sua educação, por um lado, e o fundo de compensação, a riqueza
e a diversidade de funções, por outro lado. Este fundo é extremamente
pobre nas crianças cegas surdas; sua inadaptabilidade é muito
grande. Por isso não tem resultado fácil, senão incomensuravelmente
mais difícil a educação do cego surdo que a da criança normal, se com
a educação se quiser obter o mesmo resultado. Mas o que fica e tem
uma importância decisiva como resultado de todas essas delimitações
para a educação, é a possibilidade da validez social e da super 
validação
para as crianças que possuem defeitos. Isto se alcança com muito
pouca freqüência, mas a própria possibilidade desta feliz 
supercompensação
assinala como um farol no caminho de nossa educação.
Pensar que qualquer defeito será de um modo indispensável
compensado felizmente é tão ingênuo, como pensar que qualquer
doença termina indispensavelmente com o restabelecimento. Necessitamos,
diante de tudo, a sensatez da opinião e o realismo da
valoração; conhecemos que as tarefas da supercompensação de defeitos,
tais como a cegueira e a surdez, são enormes e o fundo de
compensação é pobre e insuficiente; o caminho do desenvolvimento
é excessivamente difícil, porém é mais importante conhecer a direção
correta. Também Sokolianski tem em consideração isto na prática
e está comprometido com isto pelos grandes êxitos de seu sistema.
Para seu método não é tão importante seu paradoxo teórico,
Página 57.
como sua excelente orientação prática condicional na educação. Em
seu método - expressa ele - não somente a mímica se converte em
algo totalmente inútil, senão que as próprias crianças não a utilizam
por iniciativa própria. Pelo contrário, a linguagem oral chega a ser
para eles uma necessidade fisiológica invencível (no livro: Ukrainskii
Vicnik reflexologuii..., 1926). Nenhuma metodologia no mundo pode
vangloriar-se disto e aqui se encontra precisamente a chave da educação
dos surdos. Se a linguagem oral se converte em uma necessidade
e substitui a mímica nas crianças, significa que o ensino está
dirigido pela linha da supercompensação natural da surdez; está
dirigida pela linha dos interesses da criança e não contra eles.
A educação tradicional da linguagem oral, como uma engrenagem
desgastada, não abarcou todo o mecanismo das forças naturais
e dos impulsos da criança, não foi colocada em movimento a atividade
compensadora interna e tem girado sem resultados úteis. A linguagem
oral instaurada nos alunos com uma rigidez clássica, se converte
na língua oficial para os surdos; todos os esforços da técnica se
dedicaram inteiramente à mímica. Mas a tarefa da educação somente
se reduziu a dominar estas forças internas do desenvolvimento. Se o
método de cadeia de Sokolianski fez isto, ele, na realidade, considera
as forças da supercompensação e as domina. Os êxitos alcançados
não são ao princípio um indicador justo da utilidade do método,
esta é uma questão de técnica e do aperfeiçoamento do método, por
último, é uma questão de êxito prático. Somente uma coisa tem 
importância
desde o princípio: a necessidade fisiológica da linguagem.
Se foi encontrado o segredo de criar a necessidade, quer dizer, de
incutir o objetivo, este será a própria linguagem.
Para a tiflopedagogia o mesmo sentido e valor têm o postulado
colocado por Petzeld: A possibilidade do conhecimento para o cego é a
Página 58.
possibilidade do conhecimento completo de tudo, e sua compreensão é,
na base, a possibilidade de compreender tudo totalmente (A. Petzeld,
1925). O autor vê a particularidade caracterológica da psicologia do
cego e da estrutura de sua personalidade, não somente na limitação 
especial
incomum, senão que também no domínio completo da linguagem.
A personalidade do cego se forma da luta destas duas forças. Em que
medida este postulado será levado à prática, em que dimensões e em
que período será realizado; estas são questões de desenvolvimento 
prático
da pedagogia, a qual depende de muitas circunstâncias. Em efeito,
também as crianças normais com muita freqüência não colocam em prática
durante a educação todas ou uma grande parte de suas possibilidades.
Por acaso a criança proletária alcança o grau de desenvolvimento
que poderia alcançar? Assim acontece também com os cegos. Mas para
a confecção correta, inclusive de um plano educativo simples, é 
necessário
eliminar os limites que demarcam o horizonte, os que ao parecer, têm
sido colocados pela própria natureza ao desenvolvimento social desta
criança. É importante que a educação tome o rumo da validez social,
considerando-a um ponto real e determinante e não sustente a idéia de
que o cego está condenado à inferioridade.
Ao efetuar o resumo, atentaremos para um exemplo. Mesmo
que nos últimos tempos a crítica científica tenha realizado um trabalho
dirigido a destruir a lenda de Helen Keller, no entanto, seu destino
esclarece muito bem todo o desenvolvimento das idéias defendidas
aqui. Um dos psicólogos assinalou de um modo totalmente correto
que se Keller não houvesse sido cega surda-muda, nunca haveria 
alcançado
o desenvolvimento, a influencia e a notoriedade de que foi
objeto. Como entender isto? Em primeiro lugar, isto significa que seus
sérios defeitos fizeram reviver as enormes forças da supercompensação.
Mas isto não é tudo: na verdade, seu fundo de compensação era
pobre em excesso. Em segundo lugar, isto significa que ao não haver
Página 59.
uma coincidência extremamente feliz das circunstâncias, converteria
seu defeito em uma vantagem social, ela continuaria sendo uma habitante
subdesenvolvida e pouco destacada da América do Norte. Mas
H. Keller se tornou uma sensação, chegou a ser o centro da atenção
pública, se transformou em celebridade, em uma heroína nacional,
em um prodígio divino para o habitante multimilionário norte-americano;
ela se converteu no orgulho do povo, em um fetiche. Seu defeito
chegou a ser para ela algo socialmente vantajoso, não lhe criou o
sentimento de inferioridade. A rodearam de luxo e glória, inclusive
barcos eram oferecidos para suas excursões instrutivas. Seus
ensinamentos se converteu em tarefa de todo o país. Incutiram-lhe
enormes exigências sociais: a queriam ver o médico, a escritora, a
pregadora e foi transformada por eles. Agora quase não se pode
diferenciar o que pertence realmente a ela e o que foi feito a ela pela
ação do setor multimilionário. Este feito demonstra muito claramente
que papel desempenhou a demanda social em sua educação. A própria
Keller escreve que se houvesse nascido em outro meio, teria permanecido
eternamente na escuridão e sua vida teria sido como um
monastério isolado de qualquer relação com o mundo exterior (1910).
Em sua história todos viram uma prova evidente da força independente
e da vida do espírito preso em um calabouço corporal. Inclusive com
“as influencias externas ideais sobre Helen - escreve o autor(16) - não
Inicio de nota de rodapé.
(16) Se tiene en cuenta a Bogdanov-Berezovski Mijail Valerianovich 
(1867-1921),
otorrinolaringólogo ruso. Trabajó como médico en la escuela de 
sordomudos de
Petersburgo, participó activamente en la lucha por la ensefíanza de los 
sordomudos
y por el mejoramiento de su posición en Rusia. Desde el momento de la 
creación
del patronazgo de niños sordomudos se incorporó como miembro del 
comité,
redactó la revista Viestnik Popechitelstva o glujoniemij. Sus trabajos 
principales
son: “Vosstanovlenie sluja u glujoniemij”. San Petersburgo, 1901; 
“Poloschenie
glujoniemij v Rossii”.San Petersburgo, 1901. Autor dei prólogo a la 
traducción rusa
del libra de H. KelIer Optimizm.
Fim de nota de rodapé.
Página 60.
teríamos conhecido seu raro livro, seu espírito vivo, poderoso, mesmo
que estivesse como escondido, não teria sido arrancado de um modo
incontido ao encontro da influencia procedente do exterior” (H. Keller,
1910, p.8). O autor que compreende que a surdo-cegueira é não somente
a soma de dois somandos e que “a essência do conceito de surdocegueira
é muito mais profunda” (ibidem. p. 6), seguindo a tradição vê
esta essência na compreensão religioso-espiritualista de sua história.
Entretanto a vida de H. keller não encerra em si nada enigmático. Ela
demonstra de um modo evidente que o processo de supercompensação
está determinado por duas forças: as exigências sociais colocadas
em direção ao desenvolvimento e a educação e às forças integras da
psique. A demanda extremamente alta estabelecida ao desenvolvimento
de H. Keller e sua feliz realização social, nas condições do defeito,
determinaram seu destino. Seu defeito, além de não ser um obstáculo,
se converteu em um impulso e garantiu o desenvolvimento. Por esta
razão Adler está certo quando aconselha analisar qualquer ato em sua
relação com o plano único da vida com seu objetivo final (A. Adler,
1927). I. Kant supôs - expressa A. Neier - que nós compreenderíamos
o organismo se o considerássemos como uma máquina construída de
um modo racional; Adler aconselha o considerar o individuo como
uma tendência realizada em direção ao desenvolvimento.

Na educação tradicional das crianças com defeitos da psique,
não há nenhum ápice de estoicismo. Neste caso, a educação está
debilitada pelas tendências da lastima e da filantropia, está 
envenenada
com o tóxico do estado doente e da debilidade. Nossa educação
é doce; ela não toca no vivo ao aluno; na educação não há sal.
Necessitamos idéias audazes e formadoras. Nosso ideal não é rodear
de algodão o lugar do enfermo e cuidar dele, por todos os meios,
das contusões, senão descobrir as vias mais amplas de sua super-
Página 61.
compensação. Para isto necessitamos assimilar a tendência social
deste processo. Mas na fundamentação psicológica da educação começamos
a perder o limite entre a educação do filho do homem e do
animal, entre a educação verdadeira e do adestramento. Voltaire,
colocou, de brincadeira, que depois de ler J. J. Rousseau17, ele 
gostaria
de andar gatinhando. Este mesmo sentimento desperta quase toda
nossa nova ciência sobre a criança: esta estuda com freqüência a
criança que anda gatinhando. É curioso o que P. P. Blonski confessa:
“Gosto muito de colocar a criança inofensiva na pose do animal de
quatro patas; para mim, pessoalmente, isto sempre significa muito”
(1925, p. 97). Na realidade, a ciência sobre a criança ele somente a
conhece nesta postura. A. B. Zalkind denomina isto como aproximação
zoológica à infância (1926). Não há discussão: este enfoque é
muito importante; estudar o homem como uma das espécies de animais,
como um mamífero superior, é muito importante. Mas isto não
é tudo e, inclusive, tampouco o principal para a teoria e a prática da
educação. S. L. Frank18, continuando a brincadeira simbólica de
Voltaire, expressa que em oposição a Rousseau, a natureza em Goethe
“não nega, senão que exige diretamente a posição vertical do homem;
ela não chama a pessoa atrás em direção à simplificação e ao estado
primitivo, senão que para frente, em direção ao desenvolvimento e à
complexidade da humanidade “ (1910, p. 358). As idéias desenvolvidas
Inicio de nota de rodapé.
(17) Rousseau Juan Jacobo (1712-1778), gran escritor francés, filósofo 
sensualista, que
ejerció gran influencia en el desarrolIo de la filosofía burguesa, de 
la sociología y de la
pedagogía. Al concluir el análisis del problema de la compensación y de 
la
supercompensación, a la luz de las exigencias sociales planteadas al 
desarroIlo, Vigotski
se manifiesta en contra de la posición de Rousseau “que borra el límite 
entre la
educación del animal pequeño y del niño; entre el amaestramiento y la 
educación”.
(18) Frank Semion Liudvigovich (1877-1950), filósofo religioso ruso. 
Pasó del “marxismo
legal” al idealismo.
Fim de nota de rodapé.
Página 62.
aqui sobre estes pólos se aproximam a Goethe e não a Rousseau.
Se a teoria dos reflexos condicionados traça a horizontal do homem,
a teoria da supercompensação oferece sua vertical.
REFERÊNCIAS
VIGOTSKI, L. S. Fundamentos de Defectologia. In: Obras completas 
completas.
Tomo V. Havana: Editorial Pueblo y Educación, 1997.
Página 63.
CAPÍTULO III
ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE A INCLUSÃO ESCOLAR DE
ALUNOS COM DEFICIÊNCIA
José Roberto Carvalho1
Lucia Terezinha Zanato Tureck2
1 Licenciado em Pedagogia pela Unioeste e mestrando em Educação na
UFPr, Conselheiro da Associação Cascavelense da Pessoa com Deficiência
Visual (ACADEVI), membro do Grupo de Pesquisa História,
Educação e Sociedade - HISTEDOPR, Sub Grupo da Educação da
Pessoa com Deficiência, da Unioeste, campus de Cascavel, Paraná.
2 Docente da UNIOESTE, mestre em Educação pela UEM, membro do
Grupo de Pesquisa História, Educação e Sociedade - HISTEDOPR,
Sub Grupo da Educação da Pessoa com Deficiência, da Unioeste,
campus de Cascavel, Paraná.
Página 64.
Os escritos que seguem buscam discutir alguns elementos afetos à
política educacional de inclusão escolar das pessoas com deficiência, 
numa
perspectiva de análise das problemáticas envolvidas neste processo.
Discutir educação, políticas educacionais e mesmo elementos
ligados mais diretamente às questões pedagógicas requer um tratamento
aprofundado a fim de tornar visíveis as determinações históricas
/ sociais que as gestaram e as condicionam ainda na
contemporaneidade. É importante uma análise desses elementos e
suas relações, ainda que não se aprofundem aqui as questões históricas,
às quais se recomenda um estudo mais radical e conseqüente em
bibliografias pertinentes, dentre as quais tangencialmente se 
apresentam
no decorrer deste texto, a exemplo das referências oportunizadas
nos demais capítulos deste livro.
É preciso compreender que as situações sociais vividas pelo segmento
de pessoas com deficiência não se determinam apenas pelos
fatos mais recentes, mas, sim, são determinações históricas concretas,
que imputam a respeito destas pessoas compreensões agregadas de
elementos pouco científicos, com resultados negativos para estes. 
Também
são condições históricas e materiais que continuam a determinar a
atual realidade das pessoas com deficiência, podendo, inclusive, 
constituírem-
se em marcos históricos de emancipação humana de fato. Neste
sentido, os posicionamentos dos organismos internacionais, em suas
Conferências e Declarações, como também a luta do movimento das
pessoas com deficiência por um pleno acesso à escola regular, assim
como as teorias científicas bastante sólidas, como as de Vigotsky, vêm
fomentando atualmente o debate da intitulada inclusão escolar.
Assim, perceber como se davam as condições de existência das pessoas
com deficiência desde os antropomorfos constituem subsídios valiosos
nesta análise, pois esses fatos traduzem a trajetória deste segmento de 
pessoas.
Página 65.
Faz-se necessário observar que nos primórdios, mais especificamente
no período histórico conhecido como sociedade comunal, as
condições de existência da raça humana davam-se de maneira bastante
selvagem. Apesar das condições de existência serem bastante brutas,
somente caracterizava-se enquanto pessoa com deficiência o indivíduo
que não fosse capaz de garantir sua sobrevivência face aos perigos
que a própria natureza potencializava, ou indivíduo com aparência
considerada anormal, se é que se pode utilizar este termo para a 
referida
periodicidade. Contudo, os apontamentos de Silva (1986), tendem
a traduzir o momento na história: “a maioria dos povos primitivos, 
(...)
indicava o extermínio como solução para o problema de crianças ou
adultos com deficiências físicas ou mentais” (p.43). Este autor 
demonstra,
também, que entre culturas primitivas sedentárias e nômades era
diverso o tratamento a essas pessoas:
na abalizada opinião de antropólogos e mesmo de historiadores da
medicina, pode-se observar basicamente dois tipos de atitudes para
com pessoas doentes ou portadoras de deficiências: uma atitude de
aceitação, tolerância, apoio e assimilação e uma outra, de eliminação,
menosprezo ou destruição (SILVA, 1986, p.39).
Outras reflexões também podem colaborar na compreensão de
que esta prática não foi imperativa apenas da comuna primitiva:
Moreira Alves afirma que a solução dada pelas leis romanas, que àquelas
épocas não contavam com a medicina ao seu lado ou com mais sólidos
princípios de defesa da incipiente vida humana, advinha especificamente
de uma lei régia atribuída a Rômulo nos primórdios da vida formal de
Roma. De acordo com ela, estava proibida a morte intencional de 
qualquer
criança abaixo de três anos de idade, exceto no caso de a criança ter
nascido mutilada, ou se fosse considerada como monstruosa. Para casos
dessa natureza a lei previa a morte ao nascer (SILVA, 1986, p. 128).
Página 66.
Com o exposto, adiantam-se algumas discussões propostas por
este texto, presentes também nos estudos históricos de Bianchetti
(1998), Carvalho (2003) e, por que não, do próprio Engels (1984), que
oferecem base para observar-se a sociedade da época, enquanto não
desumanizada apesar do incipiente desenvolvimento das forças 
produtivas.
Não se constitui verdade a afirmação positivista de que a
partir do advento do catolicismo, na idade média, e em seguida o
capitalismo, com ações ‘benfeitoras’ e tecnologias ‘humanizadoras’,
que constituem os marcos dessas épocas, observa-se um espaço social
humanizador para com o segmento de pessoas com deficiência,
apesar do aparato tecnológico possibilitar fenômenos importantes,
os quais todavia não são determinantes para este segmento como um
todo e, sim, para uma pequena fração.
No entanto, quanto ao avanço linear, positivo e idealista da
história, as observações de Silveira Bueno (1993) tendem a ser 
importantes,
pois este autor de forma crítica indica que
muito pouco tem sido escrito sobre a história da educação especial e
o material bibliográfico disponível a apresenta como decorrência da
evolução das civilizações, iniciando com a morte dos anormais na
pré-história e culminando com o esforço para integração do excepcional
na época contemporânea (p. 55).
Cabe observar que, mesmo na sociedade comunal, pode-se
ponderar não de forma explícita, e, sim, implicitamente, que apesar
de deixarem bastante claro que as pessoas com deficiência eram 
eliminadas
ao nascer ou deixadas à própria sorte, por outro lado, há de
se considerar também que não existiam desenvolvidos os instrumentos
tão requeridos pela área da educação contemporânea, que são os
métodos de diagnóstico e prognósticos tão comuns na sociedade dita
Página 67.
do conhecimento.(3) Parece ser correto ponderar que diversas pessoas,
as quais ao longo da história humana e na contemporaneidade
passam a ser consideradas pessoas “deficientes”, “portadoras de 
necessidades
especiais”, ou ainda, “receptáculos dos pecados” como
na idade média, e outras tantas nomenclaturas que atualmente se 
conhece,
esses ditos deficientes, apesar de também terem vivido nos
primórdios, apesar das brutas condições de existência naquele momento
histórico bastante adverso, não tinham cerceada sua legitimidade
à vida, pois diversas condições que atualmente são caracterizadas
por deficiência não ocorriam.
Para chegar a esta conclusão é possível pensar-se que, nos
primórdios, onde os hominídeos ainda não haviam desenvolvido a
linguagem e se comunicavam por gestos e grunhidos, uma pessoa surda,
por exemplo, não teria impeditivos velados para viver e, certamente,
não lhe seria atribuído o rótulo de deficiente. Esse exemplo
parece ser significante para apontar e justificar o exposto, 
entretanto,
visando colaborar para uma melhor compreensão da hipótese, postula-
se também que no período em que nossos ancestrais ainda andavam
de forma bastante semelhante aos antropóides (quatro patas),
sendo que as dianteiras tocavam o solo e as traseiras serviam como
impulso, uma pessoa com deficiência física, com algum tipo de de-
Inicio de nota de rodapé.
(3) A educação tradicional seria resultante de sociedades estáticas, 
nas quais a transmissão
dos conhecimentos e tradições produzidos pelas gerações passadas era
suficiente para assegurar a formação das novas gerações, a nova 
educação deve
pautar-se no fato de que vivemos em uma sociedade dinâmica, na qual as 
transformações
em ritmo acelerado tomam os conhecimentos cada vez mais provisórios,
pois um conhecimento que hoje é tido como verdadeiro pode ser superado 
em
poucos anos ou mesmo alguns meses. O indivíduo que não aprender a se 
atualizar
estará condenado ao eterno anacronismo, à eterna defasagem de seus 
conhecimentos.
Uma versão contemporânea desse posicionamento aparece no livro do autor
português Vitor da Fonseca, intitulado ‘Aprender a aprender: a 
educabilidade
cognitiva’ (Duarte, 2003, p. 10).
Fim de nota de rodapé.
Página 68.
feito na parte das costelas, ou a coluna demasiadamente curvada 
(corcunda),
ou, ainda, aquelas com defeito nos membros inferiores, mas
com a possibilidade de utilizá-los para o impulso citado, certamente
estariam na mesma condição apontada no que se refere aos surdos. E
o que dizer quanto às pessoas com visão reduzida naqueles tempos
primários, tendo em vista que, desde que não tivessem olhos alterados
radicalmente quanto ao padrão de normalidade, indubitavelmente
também não teriam embargadas suas condições de demonstrar sua
capacidade de viver, sendo que, caso o indivíduo possivelmente fosse
consumido por algum animal em face de sua visão ter diminuído, o
fato tenderia a ser visto pela tribo ou grupo de maneira comum, pois
esta situação era bastante razoável naquele período histórico.
É fundamental compreender essa contradição, ou seja, o porquê
do atual dilema em torno da inclusão, uma vez que muitas das pessoas
ditas deficientes de alguma forma viveram durante os primórdios e, 
certamente,
recebiam instrução educacional (não formal), ainda que não se
possa comparar essa pedagogia com a instrução ofertada na sociedade
contemporânea (formal). Algumas interrogações podem ser postas quanto
ao que teria ocorrido na história para possibilitar os debates e as 
discussões
atuais, tornando o tema da chamada educação especial com 
características
de um vasto filão de mercado para especialistas e consultores,
que recorrem muitas vezes a recursos pouco científicos, bastante 
danosos
para o segmento de pessoas com deficiência.
Para colaborar no desvelar desse emaranhado de situações é
recomendável compreender as alterações ocorridas com o final da
comuna primitiva, levando-se em consideração para tanto os escritos
de Silveira Bueno (1993), onde este, referindo-se à tese de Leontiev,
pontua elementos teóricos indispensáveis, que também podem ser
observados implicitamente nos escritos de Silva (1986), e diretamente
Página 69.
nas análises de Bianchetti (1998), quanto às alterações seguidas à
comuna, quando do surgimento da sociedade de classes.
Na sociedade de classes, a expropriação de uma classe pela outra se
configura como ponto central desse processo, estabelecer uma relação
entre excepcionalidade e normalidade que abstraia essa dominação é
contribuir para a permanência da sua condição de marginalizado
(Leontiev apud SILVEIRA BUENO, 1993, p. 53).
O pensador soviético ainda aponta: “em suma, a conceituação
da excepcionalidade só pode se contrapor a uma visão abstrata se a
ela estiver incorporado o processo pelo qual esses indivíduos constroem
suas vidas” (Leontiev apud SILVEIRA BUENO, 1993, p. 53).
Com o surgimento da sociedade de classes, passam a existir
outros elementos interessantes para reflexão do tema proposto, como
o surgimento dos proprietários dos meios de produção e proprietários
de sua força de trabalho, considerando que no escravismo, feudalismo
e capitalismo estes conceitos necessitem ser observados em
seus aspectos específicos referentes a cada modo de produção 
Entretanto,
o essencial para os objetivos deste texto consiste na questão
de que, a partir da sociedade de classes, as pessoas com uma 
deficiência
não tão aparente, as quais juntamente com o restante de sua
espécie, passam da realidade da comuna (comunismo primitivo) a
uma existência oprimida (escravos, servos e proletariado), passando
a vivenciar o fenômeno da exclusão social.
É relevante evidenciar que, apesar das pessoas com deficiência
serem, assim como os demais trabalhadores, condicionados ao
interesse da classe dominante, os trabalhadores com algum tipo de
defeito (físico, sensorial, mental) subsistem em condições extremamente
mais danosas que os escravos, servos e proletariado, ainda que se 
reconheça
que as condições destes, em geral, constituem-se em insalubridade
Página 70.
social plena. E, para justificar o não aproveitamento laboral
das pessoas com deficiência, erguem-se na história verdadeiros arautos
da discriminação e rotulação para nomear e tratar este segmento de
pessoas, fatos estes que mesmo na contemporaneidade convivem na
sociedade, por desconhecimento ou por interesse alheios aos anseios
deste segmento de pessoas e aos da classe trabalhadora mais ampla.
No decorrer desse processo histórico, ocorre também o fenômeno
contraditório, muito bem exposto por Silveira Bueno (1993),
que foram as pessoas com deficiência pertencentes à classe dominante,
as quais no capitalismo conseguem uma vida bastante próxima
da definição de normalidade, participando inclusive no mercado 
produtivo
como demonstra o autor:
John Metcalf, nascido em 1717, no norte da Inglaterra, tornou-se cego
aos seis anos, tendo tido anteriormente alguma escolaridade elementar.
Seja qual for a causa de sua cegueira, parece não ter interrompido, em
grande extensão, o curso normal de seu desenvolvimento físico. Em
contraste com muitas crianças cegas, gozava de perfeita saúde. Aprendeu
a cavalgar e nadar. Circulava com tanta naturalidade que não era
visto como cego. Uma inclinação para o comércio e astúcia nos negócios
levou-o a estabelecer transações de sucesso, que exigiam viagens
consideráveis. Ao redor de sua casa, no norte da Inglaterra, as 
estradas
estavam em condições tão miseráveis que Metcalf elaborou plano para
melhorias. Estradas que eram ruins para pessoas de visão normal eram,
é claro, muito piores para um viajante cego. Metcalf começou a fazer
contratos para a construção de estradas e logo ganhou reputação como
engenheiro. Também planejou e construiu pontes (French, 1932, p. 68
apud SILVEIRA BUENO, 1993, p. 62).
Dessa forma, com o surgimento da classe dominante é possibilitada
a existência de seres humanos com deficiência, que até então consistia
enquanto sorte ao nascer a própria morte (comuna - escravismo),
Página 71.
ou o isolamento social (feudalismo - capitalismo). Ou seja, este 
segmento
de pessoas passa de um período onde a maioria era eliminada,
mas onde também alguns defeitos acabavam por não cercear a busca
pela sobrevivência para, contraditoriamente, com o desenvolvimento
dos meios de produção e o surgimento do escravismo / feudalismo e o
capitalismo, acabarem sendo diluídos na segregação por completo
quanto ao provimento de sua subsistência, condicionando-os na história
ao conceito de “coitadinhos”, ainda presente na atualidade.
Com os elementos históricos brevemente elencados, seguidos
do adicionamento de que historicamente, com o fim da sociedade
comunal, as pessoas com deficiência vêm sendo marginalizadas de
forma cada vez maior, ora alvos de eliminação, comoção social, exemplo
de pecadores ou referência para comoção fraterna e teológica, e,
no capitalismo, com exceção dos pertencentes à classe dominante
(burguesia) - ainda que se tenha de reconhecer situações de exclusão
social dentre as pessoas com deficiência mesmo dentre a referida
classe, contudo, a regra é que a parte dos defeituosos oriundos da
classe proletária é mantida à margem da sociedade.
Assim, apesar de toda a tecnologia desenvolvida desde os
primórdios, que poderia potencializar a solução das problemáticas
em torno da inclusão social das pessoas com deficiência juntamente
com a massa trabalhadora e explorada, o seu potencial é fragilizado,
frente à filosofia de existência do atual modo de produção. Pois, em
um mundo que produz alimentos e bens de consumo dos mais diversos
como nunca houvera na história, e também a desigualdade e a
fome em maiores proporções ainda, como pensar o fenômeno da
inclusão? Neste sentido, como falar ou acreditar em possibilidades de
inclusão nas especificidades deste modo de produção? Há quem afirme
que esta é uma luta em vão, que isto não passa de uma alucinação e,
Página 72.
é bem verdade que este feito - qualidade de vida digna - de fato, para
todas as pessoas, com deficiência ou não, na sociedade capitalista
não se vislumbrará. Entretanto, para além dos idealismos e prognósticos
tão óbvios, o embate se dará na materialidade social, com suas
contradições, compreendendo que “no capitalismo, todas as formas de
inclusão são sempre subordinadas, concedidas, atendem às demandas
do processo de acumulação; e a relação educação e trabalho só pode
ser compreendida ao longo das cadeias produtivas através das quais se
dá o consumo predatório da força de trabalho” (KUENZER, 2006, s/p).
Neste sentido, pode-se em analogia comparar a luta das pessoas
com deficiência com o enfrentamento dos trabalhadores em
prol de uma escola de qualidade, uma alimentação saudável, um
sistema de saúde que garanta a qualquer ser humano um atendimento
que venha a suprir as suas necessidades.
Com o exposto, pode parecer que estes escritos tendem de forma
desacreditada a observar as mazelas sociais que acometem a classe 
trabalhadora,
em especial a do segmento de pessoas com deficiência (de “terceira
categoria”, conforme Silveira Bueno (1993, p. 139), por possuírem a
marca da excepcionalidade: os de primeira categoria seriam os membros
dos extratos sociais superiores e os de segunda são os membros das 
classes
subalternas). Entretanto, não se trata disso, mas, sim, demonstrar as
contradições que a sociedade de classes possibilita e a atual 
(capitalista)
aprofunda. Pois, a sociedade atual, apesar de toda a tecnologia herdada 
e
aprimorada desde os primórdios, exclui das condições de garantir sua
própria subsistência um número muitíssimo maior de pessoas com 
deficiência
do que ocorria na comuna primitiva.
Em meio aos avanços dos meios de produção, em especial os
marcados pela égide do capital, desemboca no final do século XVIII a
defesa, pela burguesia, da bandeira proletária da escola para a classe
Página 73.
trabalhadora, obviamente que não nos termos da segunda, e, sim, em
atendimento às necessidades produtivas da primeira. Apesar desta 
contradição,
muitos defensores da escola pública levantam esta bandeira,
mesmo sabendo que esta escola não é pública e, sim, estatal, 
pertencente
a um Estado que não visa em última análise o atendimento da
população em geral, mas a uma parcela desta, na verdade, uma pequena
fração, a classe dominante. Contudo, nem por isso deixa-se de lutar
por esta bandeira, muitas vezes furtando ou omitindo elementos que
envolvem esta realidade, ou será que se encontrará algum intelectual
que recomende aos trabalhadores que não enviem seus filhos à escola
burguesa, por constituir-se em elemento danoso para sua classe por
não deter de forma plena os fundamentos para a educação de interesse
do proletariado? Certamente não, e por que não? Porque se trabalha no
espaço da contradição, e é exatamente com isso que o segmento de
pessoas com deficiência convive, ou seja, uma luta, um enfrentamento,
para ter atendidas suas condições básicas de existência, para que 
possam
constituir-se neste processo de embates sociais em sujeitos de fato
e não mais em reféns da filantropia.
E uma vez que os escravos / servos e proletários defeituosos não
interessavam para o desenvolvimento dos respectivos modos de produção,
estes foram, quando do avanço cientifico extremamente desenvolvido
com o cair dos séquitos feudais, condicionados praticamente à
filantropia e à ciência “neutra” que detinham e ainda detêm forte 
influência
para com o referido segmento, o que obstaculiza a superação de
lacunas importantes numa discussão mais profunda a respeito do 
desenvolvimento
destas pessoas ditas deficientes. Tem-se que reconhecer o
desenvolvimento de algumas tecnologias e teorias relevantes para este
segmento, como foram o surgimento do debate do oralismo x gestualismo
(deficiência auditiva), o desenvolvimento do sistema Braille (código de
leitura para cegos), ou a importante pesquisa realizada por Itard na 
área
Página 74.
da deficiência mental, apontamento teórico este que se encontra na tese
de Pessoti (1984) de forma bastante consubstanciada.
Contudo, esses elementos, por razões de compreensão de mundo e
mesmo limites históricos, não se constituíram de maneira concreta num
entendimento científico social emancipador para os indivíduos com 
deficiência,
apesar de sua relevante importância neste processo, o que a citação
de Vigotsky (1997), ao referir-se às pesquisas da área da medicina em 
relação
à pessoa cega, tende a retratar:
Se esta concepção biológica ingênua resultou ser incorreta e se viu
obrigada a ceder seu lugar a outra teoria, não obstante deu um
grande passo de avanço pelo caminho da conquista até à verdade
científica sobre a cegueira. Pela primeira vez, partindo da observação
científica e com o critério da experiência, abordou-se o fato de
que a cegueira não é só um defeito, uma deficiência, senão também
que incorpora novas forças, e novas funções à vida e à atividade e
motiva certo trabalho criador orgânico, ainda que esta teoria não
pode indicar em que consiste precisamente este trabalho. Pode-se
julgar em que medida é grande a importância prática deste passo
para a verdade, pelo fato de que nesta época criou-se a educação e
o ensino dos cegos. Um ponto do sistema braile tem feito mais
pelos cegos que milhares de filantropos; a possibilidade de ler e
escrever tem resultado ser mais importante que o “sexto sentido” e
a agudeza do tato e da audição (p.77 – grifos do autor).
Apesar desse autor ter vivido no cinqüentenário anterior à segunda
metade do século XX, a pesquisa que vem sendo realizada pelos membros
do Programa de Educação Especial e do grupo de pesquisa História,
Educação e Sociedade - HISTEDOPR, sub-grupo Educação da Pessoa
com Deficiência, da Unioeste, campus de Cascavel, Paraná, demonstra
que sua tese continua com atualidade vigorosa e tende a ser o que há de
mais avançado para discutir a inclusão escolar das crianças, jovens e
Página 75.
adultos com algum tipo de defeito e, principalmente, debater as
intencionalidades da propalada inclusão na sala de aula comum do ensino
regular. Ainda que Vigotsky (1997) não tenha se detido a esta 
problemática
em específico, sua tese constitui fundamento para a discussão,
como o trecho a seguir indica:
Ao entrar em contato com o meio externo, surge o conflito provocado
pela falta de correspondência do órgão, a função deficiente com suas
tarefas, o que conduz a que exista uma possibilidade elevada para a
morbilidade e a mortalidade. Este conflito origina grandes 
possibilidades
e estímulos para a supercompensação. O defeito se converte, desta
maneira, no ponto de partida e na força motriz principal do 
desenvolvimento
psíquico da personalidade. Se a luta conclui com a vitória para
o organismo, então, não somente vencem as dificuldades originadas
pelo defeito, senão se eleva em seu próprio desenvolvimento a um nível
superior, criando do defeito uma capacidade; da debilidade, a força; da
menos-valia a super-valia. (p. 77).
Esta tese se soma a de um dos companheiros de pesquisa de
Vigotsky, Leontiev (1978), o qual já assinalamos anteriormente a 
respeito
das condicionalidades de classe, quanto à relevância e significado de
uma legitima pedagogia: ”O processo principal que caracteriza o 
desenvolvimento
psíquico da criança é um processo específico de apropriação
das aquisições do desenvolvimento das gerações humanas precedentes”
(p. 323). Estes conhecimentos, no entanto, não se fixam
morfologicamente e não se transmitem por hereditariedade, “este 
processo
realiza-se na atividade que a criança emprega relativamente aos
objetos e fenômenos do mundo circundante, nos quais se concretizam
estes legados da humanidade” (p. 323).
Este pesquisador também remete a análises criteriosas para conceber
a potencialidade da educação de crianças com defeito: “A criança
não nasce com órgãos preparados para cumprir funções que representam
Página 76.
o produto do desenvolvimento histórico do homem; estes órgãos
desenvolvem-se durante a vida da criança, derivam da sua apropriação
da experiência histórica” (LEONTIEV, 1977, p. 113).
Desta forma, a necessidade de acesso das crianças, jovens e
adultos com algum tipo de deficiência à educação formal e, 
preferencialmente
na escola comum, tende a se reforçar. Entretanto, estas teses,
ao que parece, não circulam em defesas populistas ou meramente de
direito, mas, sim, se materializam no aspecto científico, pois como
Vigotsky aponta, o desenvolvimento psíquico destas pessoas apesar de
poder desenvolver-se de maneira ‘não igual’ às crianças ditas normais,
pode desenvolver-se de maneira plenamente satisfatória - elementos
teóricos que se encontram dispostos num dos capítulos deste livro,
para uma aproximação da psicologia soviética.
Cabe acrescentar a estes elementos que a luta pela educação
formal destas pessoas, assim como para outras condicionalidades
sociais, passa a ser reivindicada maciçamente, em especial após a
segunda guerra mundial, ainda alheia às teses de Vigotsky, quando o
segmento de pessoas com deficiência compõe-se também por pessoas
que em função das disputas bélicas passam à condição de deficientes
perante a sociedade (soldados / vitimados civis). Este momento
coincide com a movimentação da classe trabalhadora para a
supressão / melhoria das condições de vida, em especial, pelo fomento
ideológico decorrente da guerra fria (capitalismo x socialismo),
luta que no Brasil, nas décadas de 60/70/80, contou com uma
ampla organização da classe trabalhadora, a qual foi, através do
uso da força, nas duas primeiras décadas, massacrada pela repressão
das forças armadas ao mando do capital nacional e estrangeiro.
Os resultados destes enfrentamentos foram a formação / mutilação
de muitos militantes de esquerda, além da experiência histórica
de luta, fatos que se fundem reciprocamente. Apesar de inúmeras
página 77.
observações requeridas para a análise desse embate, houve um resultado
formal - não o mais importante – que é a consolidação dos
direitos da classe trabalhadora nos parâmetros do direito burguês
(Constituição Federal de 1988), e as pessoas com deficiência estavam
também presentes, lutando por suas especificidades.
Outro elemento relevante a considerar é o que representaram
algumas Conferências Mundiais e o próprio Ano Internacional da Pessoa
com Deficiência (1981), na sedimentação da luta das pessoas com
deficiência, por se tratarem de ações de Estado, do conjunto de nações
fortemente marcadas ideologicamente pelos anseios do liberalismo /
neoliberalismo, e que acabam por macular a luta, por não vir em 
essência
embasando-se em teorias científicas consistentes, como as dos 
pensadores
soviéticos citados acima, pautando-se, isto sim, em acenos de
tratados semi legais, que dificilmente superam a esfera da especulação
ideológica e alienante. Nas assembléias e declarações realizadas pelos
organismos internacionais(4), ainda que contenham a possibilidade
de germes de consciência, que podem revoltar-se contra as reais
intencionalidades por trás de uma preocupação fetichizada de resolver
as problemáticas sociais, encontram-se encarnadas perspectivas 
altamente
conservadoras do status social vigente.
No âmbito social e educacional no Brasil, ecoam por este país
continente defesas de conceitos de inclusão escolar e justificativas 
supostamente
pautadas nas problemáticas educacionais, tentando desviar
4 Declaração de Cuenca (1981) - (UNESCO/OREALC); Declaração de 
Sunderberg,
Torremolinos - Espanha (1981); Resoluções da XXIII Conferência 
Sanitária
Panamericana, Washingtom (1990) - (OPS/OMS); Declaração Mundial de 
Educação
para Todos, JOMTIEN - Tailândia (1990) (UNICEF/PNUD); Seminário da 
UNESCO,
Caracas (1992); Declaração de Santiago (1993 - (UNESCO/OREALC)); Normas 
Uniformes
sobre a Igualdade de Oportunidades para Pessoas com Incapacidades 
(Aprovadas
em Assembléia Geral das Nações Unidas (1993) - (ONU); Declaração de
Salamanca, Salamanca - Espanha (1994) - (UNESCO) (CARVALHO, 1997).
Página 78.
o foco das atenções centrais das problemáticas desse processo as quais,
no caso das pessoas com deficiência, constituem-se em não adaptações
arquitetônicas, não adaptação do livro didático e dos instrumentos 
pedagógicos,
ausência da necessária formação continuada de professores,
etc. Os órgãos responsáveis pelos sistemas de ensino, no âmbito 
nacional
e estadual, na contramão de proporcionar as ações concretas essenciais
para o processo de inclusão escolar, preferem estrategicamente
arrolar suas responsabilidades, chegando ao ponto de fomentar reduzidas
discussões que não conseguem ultrapassar os limites fundamentais
na discussão das condicionalidades de inclusão escolar das pessoas com
deficiência. Estimula-se a rasa discussão em torno de compreensões a
respeito da inclusão das pessoas com deficiência, em edições de 
idealismos,
que fogem totalmente às esferas da realidade, estacionando-se no
porto seguro do senso comum, como o que apresenta o texto base para
reflexão e discussão dos professores, intitulado “Inclusão e 
diversidade:
reflexões para a construção do projeto político-pedagógico”, da 
Secretaria
Estadual de Educação do Paraná (SEED), através de seu Departamento
de Educação Especial (DEE):
(...) fica claro que políticas e práticas de inclusão não têm um 
significado
único e consensual, já que são determinadas por múltiplos
fatores. Esses fatores incluem uma ampla rede de significações no
entrecruzamento de diferentes olhares e formas de se efetivar esse
processo; é na inter-relação de como eu, os outros e as instituições
sociais definem e praticam a inclusão é que ela pode, ou não, tornar-
se realidade (PARANÁ, 2006, p. 01).
E, ainda:
Temos a esperança de que, no próximo milênio, e, definitivamente,
ocorra o corte epistemológico em torno da deficiência, substituindo-
se a percepção social do aluno deficiente, como doente e limitado
Página 79.
para nele antever-se o adulto feliz e contributivo (o que vai
depender da qualidade das oportunidades que lhes forem apresentadas)
(EDLER, 2004 apud PARANÁ, 2006, p. 09).
Estas práticas vêm se tornando cotidianas no cenário nacional, onde
intelectuais com duvidoso compromisso com os reais anseios e 
necessidades
do segmento de pessoas com deficiência, e outras personalidades
que se colocam ou são colocadas como representantes de filosofias 
distintas
de inclusão desses ditos ‘alunos especiais’, editando uma situação
que não é nova na história da humanidade, ou seja, atrelar a solução 
dos
problemas sociais no campo das idéias, omitindo a relação visceral de
tais problemáticas com a materialidade social e, no caso em especifico,
as ausências do Estado no cumprimento de suas atribuições. Inclusive,
assim continua o documento citado:
que não há consenso sobre o que seja o processo de inclusão. Em nível
nacional, há diferentes formas de implementar esse processo, a depender
da percepção dos dirigentes governamentais sobre seu significado.
Poderíamos considerar a existência de, ao menos, três tendências sobre
o modo de se pensar e praticar o processo de inclusão, atualmente,
nos sistemas educacionais que diferem em natureza, princípios e formas
de concretização em sala de aula (PARANÁ, 2006, p. 05).
Dessas três tendências, a primeira é denominada de inclusão
condicional; o título de inclusão total ou radical segue para
postulações onde se incluem as de Maria Tereza Egler Mantoam e,
ainda, uma terceira via, bem própria para os reais anseios da
minimização da ação do Estado em respeito aos mandamentos do
Banco Mundial, tendo em vista o equilíbrio econômico: “diante desses
dois extremos, a SEED situa sua política em uma terceira posição,
que tem sido denominada inclusão r responsáv esponsáv esponsável” el” 
(PARANÁ,
2006, p. 06 – grifos do autor).
Página 80.
Diante dessa situação desafiadora, primeiramente cabe denunciar
o caráter anestésico das postulações neoliberais, pois o Estado
brasileiro, ao não cumprir as suas responsabilidades no que
tange à garantia dos aspectos estruturantes para a educação das pessoas
com deficiência, aliena o debate, como já o faz nos diversos
níveis da educação, e como a educação especial está contemplada
em todos os níveis de ensino, obviamente não foge destas precárias
situações, sendo alocada em andares infinitamente subterrâneos na
prioridade de ações materiais, ainda que aparentemente transpareça
o contrário nas exposições nos meios de comunicação. E isto é notório,
conforme apresenta Matiskei (2006), ao analisar dados atualizados
da Educação Especial do Estado do Paraná – janeiro de 2004:
Os dados denunciam uma situação histórica, que se acentuou na
última década, por ausência de ações efetivas do Estado em assumir
suas responsabilidades quanto ao atendimento educacional especializado,
preferencialmente, na Rede Pública de Ensino, delegando
a oferta à rede conveniada. A inexistência de apoios e serviços 
especializados
em todo o fluxo da escolarização (com destaque ao
segundo segmento do Ensino Fundamental), a política inconsistente
de formação continuada de professores do ensino regular e a
ausência de equipes multiprofissionais para prestar apoio à
escolarização dos alunos com necessidades educacionais especiais
foram, entre outros fatores, elementos que contribuíram para a exclusão
do aluno da rede pública (p. 10).
A intenção deste artigo não se iguala a uma crítica à inclusão
escolar das pessoas com deficiência e, sim, à tentativa de uma leitura
bastante criteriosa da sua atual situação no Paraná, a exemplo da 
realidade
educacional como um todo. Considerando que a luta e a legitimidade
do acesso à educação tende a ser indubitável, esta análise pretende
constituir-se em instrumento para que as pessoas com deficiência se
Página 81.
organizem ainda mais para reclamar esse acesso, qualitativamente de
forma mais eficaz e menos discursiva. Pois, por outro lado, a situação
atual não oferece margem para um olhar pouco crítico, mas, sim, exige
a discussão das políticas educacionais para este segmento de pessoas
com crítica contundente aos posicionamentos dicotômicos e aos discursos
rasos dos elementos ligados a essa política. Também porque
discussões esvaziadas ou ambíguas tendem a fragilizar a já febril 
organização
do segmento de pessoas com deficiência.
Na tentativa de se aproximar da realidade que envolve a problemática
da inclusão escolar das pessoas com deficiência, é preciso
caminhar para além do analisar as postulações pouco conclusivas,
enfocando o cotidiano destas pessoas no ambiente educacional. E
não é necessária uma pesquisa empírica para tanto, analisando-se os
posicionamentos de organizações de pessoas com deficiência que
em debates nos seus eventos demonstram o caos e descaso por parte
do MEC e SEED para com essa modalidade educacional.
O VI Seminário de Cegos da Associação Cascavelense das Pessoas
com Deficiência Visual - ACADEVI, com o tema: “Trabalho, educação e
assistência social em debate”, ocorrido nos dias 03, 04 e 05 de 
novembro
de 2005, na cidade de Cascavel, Paraná, ilustra este descaso, onde seus
participantes denunciaram perante autoridades do Ministério Público, 
MEC
e CORDE, as mazelas a que as crianças, jovens e adultos com algum tipo
de deficiência visual vêm sendo submetidos em seu percurso educacional.
Estas posições puderam ser percebidas nas moções de repúdio e 
reivindicações
aprovadas na plenária final do referido evento. Estas situações também
foram alvo dos debates no II Fórum Municipal em Defesa dos Direitos
da Pessoa com Deficiência, junto com a 1ª Conferência Regional dos
Direitos das Pessoas com Deficiência, realizados na mesma cidade, ao
final de outubro de 2005, eventos estes que abarcaram todas as áreas de
Página 82.
deficiência, elegeram delegados regionais e aprovaram documentos para
a 1ª Conferência Estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência do
Paraná, realizada no mês de dezembro de 2005, na cidade de Curitiba.
Ali também ficou evidente que as mazelas educacionais discutidas no VI
Seminário de Cegos não se restringem a problemáticas regionais e também
não afetam apenas as pessoas cegas ou com visão reduzida, mas,
sim, a uma realidade mais ampla, como já apresentaram os
posicionamentos dos participantes do referido Seminário, oriundos dos
estados de Santa Catarina e São Paulo, além do estado sede, Paraná.
Segundo discussões realizadas nesses mesmos eventos, as situações
educacionais não constituem privilégio destas unidades federativas,
e, sim, retratam a realidade nacional, isto para ficar apenas
nas especificidades da educação, uma vez que estes eventos abordaram
assuntos como trabalho, assistência social, transporte, acessibilidade,
etc. Quanto à acessibilidade, foi radicalmente repudiada a
forma pela qual a CORDE conduziu o processo, ao intitular as 
Conferências
com um chavão contextualizador de viés ideológico: “Acessibilidade:
você também tem compromisso”.
É possível afirmar, portanto, que a realidade educacional das
pessoas com deficiência no Brasil se diferencia bastante dos
posicionamentos de alguns oradores do MEC e de intelectuais com
pouca atenção ao fator pedagógico. Trata-se, ainda, de destacar que
os participantes dos eventos citados não são pessoas desavisadas,
com parcas condições de discussão destas problemáticas porque,
além de serem pessoas com deficiência, o que lhes outorga certa
legitimidade para tecer críticas, vários são profissionais da educação,
organizados em entidades sérias e politizadas e também se constituem
em estudiosos da área educacional, o que não permite qualificar
essas críticas enquanto resultado de um vácuo perceptivo.
Página 83.
Quanto mais elementos são trazidos para a discussão e compreensão
das problemáticas referentes à inclusão social e, obviamente,
educacional deste segmento de pessoas, cabe espaço para alusões a
outras questões, como a necessidade de descortinar falsas ou frágeis
teses quanto a esta luta ser uma luta que tem sua raiz no
neoliberalismo. Inocência esta que nega o percurso histórico, não
vislumbrando o segmento de pessoas com deficiência para períodos
anteriores à década de setenta do século vinte, e mesmo uma compreensão
radical dos fatos ocorridos no último quarto de século.
É extremamente relevante, ao refletir-se quanto à possibilidade
de inclusão das pessoas com deficiência na sociedade de forma
geral, compreender que sua inclusão é irrestrita, uma vez que todos
estes, de uma forma ou de outra, subsistem nesta sociedade e sua
condição de inclusão plena no mercado produtivo não é
potencializada por não interessarem enquanto mão-de-obra para
extração da mais valia. Apesar de em alguns casos, em áreas específicas
da produção industrial, essas pessoas serem muito bem aproveitados,
como por exemplo, a área da deficiência auditiva, havendo
uma verticalização do aproveitamento destes em atribuições que
necessitam da utilização das mãos, como nas linhas de produção
dos frigoríficos, obviamente com demérito para as demais áreas de
deficiências (visual, física e mental). Este fenômeno não existe face
à bondade de empresários, assim como a exclusão de maneira geral
não ocorre por posturas diabólicas, e sim, pela busca da maior
extração de mais valia, isenta de qualquer emoção.
Quanto à inclusão escolar, esta parece não carecer de maiores
superações da atual situação de classes, uma vez que esta bandeira da
necessidade de escolaridade é uma das bandeiras centrais da burguesia,
para justificar a condição paupérrima da grande maioria das pessoas.
Página 84.
Evidentemente, que as condições para a escolarização deste
alunado, ditas pessoas com necessidades educacionais especiais, não
estão presentes de maneira geral, e não seria motivo de espanto, caso
em um futuro próximo, estas condições materiais, ou melhor, 
instrumentos
pedagógicos estejam presentes no ambiente escolar, com exceção
de um quesito, o essencial, o conteúdo significativo, que deveria
representar os conhecimentos historicamente produzidos e sistematizados
pelo homem ao longo da história. Alterações macro econômicas,
em respostas à crise do capital, requerem uma formação escolar
que vise à cimentação de uma falsa consciência na classe trabalhadora,
que a conduza como a um animal, dócil e plenamente obediente às
empreitadas de trabalho e do alto desemprego, promulgadas pela ‘nova’
forma de produção, como as ponderações críticas de Duarte (2003)
parecem remeter com bastante eficácia:
Ao abordar as mudanças na economia global e suas implicações
para uma forma que esteja à altura dos desafios do século XXI
(...), a miopia gerencial e arrogante e a resistência à mudança, que
paira em grande parte no sistema produtivo, devem dar lugar à
aprendizagem, ao conhecimento, ao pensar, ao refletir e ao resolver
novos desafios da atividade dinâmica que caracteriza a economia
global dos tempos modernos. Tal mundialização da economia só se
identifica com uma gestão do imprevisível e da excelência, gestão
essa contra a rotina, contra a mera redução de custos e contra a
simples manutenção. Em vez de se situarem numa perspectiva de
trabalho seguro e estático, durante toda a vida, os empresários e os
trabalhadores devem cada vez mais investir no desenvolvimento do
seu potencial de adaptatividade e de empregabilidade (p. 10 - 11).
Para alcançar o acesso de forma radical à educação para as
pessoas com deficiência será preciso refletir e indagar o quanto 
influentes
são os horizontes instrucionais da educação brasileira na
Página 85.
atualidade, como trechos dos Parâmetros Curriculares Nacionais parecem
representar de forma bastante líquida:
[...] As considerações gerais sobre a lei [9.394/96] indicam a 
necessidade
de construir novas alternativas de organização curricular
comprometidas, de um lado, com o novo significado do trabalho no
contexto da globalização econômica e, de outro, com o sujeito ativo
que se apropriará desses conhecimentos, aprimorando-se, como
tal, no mundo do trabalho e na prática social (BRASIL, 1999, p.12).
Perante tais fatos, a educação e o debate em torno da inclusão
escolar das pessoas com deficiência se atrela à classe trabalhadora
mais ampla, na tentativa de formação de candidatos a exploração,
proletariado passivo e empreendedor, altamente adaptável às inovações
tecnológicas na produção, e recrudescimento dos postos de
trabalho e ampliação do abismo social, onde estes indivíduos são
conclamados a uma luta, na contra mão do que prega o Manifesto
Comunista (Marx e Engels, 2001), ou seja, “sujeitai-vos, trabalhadores
de todos os países, e preferencialmente de forma passiva, subsumindo
todas suas forças em ações participativas” – lembrando, entretanto,
que propositivas e construtivas.
Com o exposto, ciente dos limites no que se refere ao espaço para
uma maior discussão que atenda ao tema da inclusão, parece evidente a
legitimidade quanto à luta pela inclusão escolar deste segmento de 
pessoas,
sendo relevante compreender que é em função da forma de organização
do modo de produção capitalista que ocorre a exclusão em porcentagens
extremamente mais altas que das demais pessoas, ditas normais, e não
por sua condição de deficiência ou capacidade cognitiva inferior.
Entende-se, assim, que a solução dos problemas sociais que
agridem toda a raça humana, com exceção da burguesia, segundo Marx
e Engels (1984, p. 47-49), somente serão superados em face da
Página 86.
suplantação radical do capitalismo. E como este não é de forma 
determinante
o papel da escola e, muito menos pode-se esperar os desdobramentos
históricos da luta de classes para que estas pessoas postulem
sua condição de existência, resta para estes indivíduos lutarem e,
nesse processo, constituírem-se enquanto sujeitos e, juntamente com
seus pares (membros da classe dominada / proletariado) enfrentarem
a realidade, realizando o embate social mais amplo para a suplantação
das mazelas sociais de forma integral.
Assim, é neste contexto que o acesso do segmento de pessoas com
deficiência à escola comum é legitimo, ou seja, compreendendo que esta
pedagogia, ainda que liberal e conservadora, traz em suas entranhas a 
possibilidade
do desenvolvimento do germe da contradição, que é o espaço
onde o proletariado pode também aprender a se instrumentalizar. 
Sabedores
que a escola notadamente detém uma ação bastante inoperante nesse
processo, constituindo-se, contudo, enquanto um espaço a ser ocupado e
representado pela classe trabalhadora, é neste processo que a pessoa 
com
deficiência tem de necessariamente estar sujeitada, ou seja, 
participante
destes embates, destas lutas, e neste sentido, ocupar o espaço muita 
vezes
ímpar para exercício intelectual dessa referida classe, com todas as 
problemáticas
que a educação formal detém.
Desta forma, assim como representou um avanço para a classe
trabalhadora a conquista do ensino estatal, é tão legitimo, ou ainda
mais, o acesso das pessoas com deficiência à escola, sabendo, 
entretanto
que este acesso, desqualificado como vem sendo ofertado,
minimiza extremamente as rasas possibilidades de meio pedagógico
humanizador para os trabalhadores, sendo necessário uma organização
desta classe para o enfrentamento das ementas educacionais que a
sociedade liberal, ou em seu novo codinome (neoliberal) vem 
subordinando
o proletariado. Ensinamentos estes, aliás, que atingem profundamente
Página 87.
o ambiente escolar, encontrando-se também presentes nas mais
diversas ações ideológicas da classe dominante, a exemplo da intitulada
participação social responsável, onde esta classe e seus 
representantes,
tentam justificar as mazelas sociais. O Estado acaba por legitimar
tais paradigmas, como demonstra postulações da SEED/DEE, 
responsabilizando
o que estes parecem conceituar de elementos chave:
[...] essa é uma tarefa que não depende apenas da convicção e do
compromisso técnico e político dos governos, mas de pais, familiares,
professores, profissionais, enfim, de todos os membros da
sociedade, sob o risco de termos apenas o efeito de seus benefícios
para os alunos “no discurso” e nenhuma ação concreta e
transformadora da realidade em que se encontram (PARANÁ , 2006,
p. 7 – grifos do autor).
Enfim, existe uma enorme lacuna entre as pretensões ideológicas
do liberalismo, as ações do Estado e o conhecimento científico a
respeito da educação das pessoas com deficiência, cabendo a estas
pessoas por meio de suas organizações, com o apoio de profissionais
da educação e entidades de classe comprometidas com a construção
de uma sociedade radicalmente justa, realizar seus embates,
a fim de derrubar os falsos e nebulosos entendimentos teóricos a
respeito deste segmento de pessoas.
Para conquistar uma educação de qualidade desejável e legítima,
as pessoas com deficiência terão necessariamente de tornaremse
sujeitos de sua história, e como parece um absurdo de conceito
referir-se à história dos deficientes, não lhes cabe outro caminho 
senão
somar-se à classe trabalhadora de forma mais ampla e, essa também,
conscientizar-se de que a pedagogia que recebem se distingue
vertiginosamente de uma educação razoável. Ou seja, para aqueles
desavisados, que insistem em dizer que é uma exclusão introduzir ou
Página 88.
manter as pessoas com deficiência na escola comum, estas mesmas
exigem seu espaço de presença no ensino regular comum, salvaguardando
os casos específicos que requerem um estudo mais criterioso.
Esta postulação não esta embebida em ilusões, aliás, este segmento
é sabedor das problemáticas que envolvem a educação contemporânea,
estão cientes de que não são problemas que atingem ou atingirão
apenas ao alunado com algum tipo de defeito, mas, sim, são
derivativos da escola burguesa e suas contradições que, em função
do aprofundamento das desigualdades sociais, vêm se revestindo de
elementos ainda mais concretos e danosos à classe trabalhadora.
A luta para a superação destes obstáculos pedagógicos nem
mesmo passa pela questão da educação formal, ainda que a requeira
no processo, e face à historicidade das pessoas com deficiência, é
que parece, o acesso à escola laica, universal e gratuita, esteja 
marcado
por um período onde os conhecimentos encontram-se ainda
mais secundarizados, no intuito de embrutecer a classe trabalhadora
no sentido não humano, e não por um envolvimento ideológico, ainda
que inegavelmente este exista e necessite ser combatido. A classe
trabalhadora, com ou sem deficiência, precisa de forma cabal combater
seu real opressor - a classe dominante (burguesia), mesmo que
para isto necessite utilizar de diversas armas até a ferramenta 
realmente
eficaz, a qual poderá realmente estabelecer uma ruptura com a
organização social em vigor; e como este não parece ser o cenário
mais avançado no processo de luta, são necessárias análises criteriosas
de movimentação da classe trabalhadora, para não retroceder-se neste
processo ou mesmo atuar na sua contramão.
Ao finalizar este texto, reafirma-se a importância da análise da
nuclear relação entre a situação do segmento de pessoas com deficiencia
na história e o seu percurso até a contemporaneidade, buscando agregar
Página 89.
sua relação aos determinantes sociais mais amplos que forjam a
classe trabalhadora desde então e, como exposto, a própria personagem
social das pessoas com deficiência, enfatizando a importância
cabal do conhecimento produzido e acumulado historicamente pela
humanidade na constituição do ser humano, num processo onde a educação
escolar tem sua função preponderante.
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Página 91.
CAPÍTULO IV
REFLEXÕES SOBRE A POLÍTICA
DE FORMAÇÃO DE PR PROFESSORES OFESSORES P PARA ARA A
EDUCAÇÃO ESPECIAL / EDUCAÇÃO INCLUSIV INCLUSIVA
Jane Peruzo Iacono1
Luzia Alves Silva2
1 Docente do Curso de Pedagogia da UNIOESTE – Universidade Estadual
do Oeste do Paraná; Mestre em Educação pela UEM – Universidade
Estadual de Maringá; membro do GPAAD – Grupo de Pesquisa
Aprendizagem e Ação Docente e colaboradora do PEE.
2 Professora das redes Estadual e Municipal de Ensino de Cascavel –
PR e colaboradora do PEE. Membro colaboradora do grupo
HISTEDOPR, subgrupo Educação da Pessoa com Deficiência.
Página 92.
RESUMO: A história das pessoas com deficiência tem sido marcada por 
morte e
assistencialismo e só recentemente vem apresentando modificações em 
relação a seu
atendimento, especialmente quanto à sua inserção e participação social. 
A defesa do
direito à educação das pessoas com deficiência, é atitude muito recente 
em nossa
sociedade e constitui a chamada Educação Especial. Os enfoques sob os 
quais a
Educação Especial - considerada modalidade de educação escolar (LDB nº 
9394/06)
- vem sendo analisada, vão do modelo beneficente-assistencial, 
médico-terapêutico e
hoje, o modelo educativo. Certamente, numa sociedade em que a Educação 
Especial
vem fortemente marcada pela concepção organicista, transita-se o tempo 
todo pelos
três enfoques, principalmente quando se vai implementá-la como prática 
social dos
homens. Neste sentido, a formação de professores para esta modalidade 
educacional,
tem sido tema extremamente complexo, na medida em que, a despeito da 
premência
com que se faz necessária, é relegada e protelada como política 
pública. O Estado
brasileiro não assumiu esta formação como de sua responsabilidade; 
desde o ano de
2002 tramita no CNE - Conselho Nacional de Educação um documento que 
seria
norteador de políticas para formar professores para esta modalidade 
educacional,
mas a sociedade ainda não foi chamada para discutir a temática e a 
formação do
professor especialista em Educação Especial segue acontecendo sem um 
norte.Tal
formação é hoje requerida, tanto na perspectiva da Educação Inclusiva - 
processo que
vem sendo gradativa, mas efetivamente implementado nas escolas 
regulares das diferentes
regiões deste país continental - como numa abordagem que dê conta de 
explicar
a realidade social no sentido de seu desvelamento. Assim, este trabalho 
aborda a
urgência com que se requer a formação de professores para a Educação 
Especial/
Educação Inclusiva explicitando ainda, as diferenças entre os conceitos 
de integração
e inclusão. Aborda a situação da formação de professores no Brasil e a 
forma como
vem sendo encaminhada pois, por não ter sido assumida como política 
pública, tem
sido objeto de formações em nível de pós-graduação lato-sensu 
realizadas, muitas
vezes, de forma aligeirada, sem a devida preocupação com a 
consistência, a qualidade
e o sentido generalista que, em tempos de educação inclusiva se requer 
dos futuros
professores especialistas. Aborda a questão dessa formação hoje, a 
partir principalmente
do documento do MEC (2002), intitulado “A Formação do Professor para a
Educação Especial”, que trata das Diretrizes Nacionais para a formação 
de professores
para esta modalidade educacional.
Página 93.
INTRODUÇÃO
A formação de professores constitui-se num dos temas de
grande relevância na conjuntura atual e, portanto, necessita ser
amplamente estudado e discutido.
Ressalta-se que a referência à conjuntura atual, faz-se necessária
para identificar o modelo de educação vigente e para contextualizá-lo
socialmente. Esse modelo, coerente com a lógica da sociedade 
capitalista,
é o modelo neoliberal que, fundamentado nos princípios do liberalismo
- individualismo, democracia, propriedade, igualdade e liberdade
- norteia a prática social dos homens, de forma deliberada ou não, na
medida de seus interesses, intencionalidades e/ou possibilidades.
Na sociedade capitalista, excludente, a educação tem sido oferecida
de maneira diferenciada, de acordo com a classe social a que o
indivíduo pertença. Portanto, nesse contexto, para os indivíduos 
pertencentes
à classe detentora do poder, a educação tem tido a função de
transmitir conhecimentos e de oferecer os subsídios necessários ao
desenvolvimento pessoal do indivíduo, para que ele assuma as funções
de liderança, de poder, visando à reprodução do status quo.
Para os indivíduos pertencentes à classe trabalhadora, a educação
também tem como objetivo reproduzir o modelo de sociedade
vigente, efetivando-se, no entanto, no sentido de somente repassar os
parcos conhecimentos necessários para que o indivíduo possa bem
desempenhar suas atividades laborais.
Diante disso, baseadas nessa concepção de educação como
reprodução, as políticas que visam formar professores, não objetivam
necessariamente sua formação, mas sua capacitação, profissionalização,
treinamento e reciclagem já que, o que importa não é uma
sólida formação integral, mas apenas um treinamento para que o
professor possa desempenhar sua função.
Página 94.
Em contraposição a essa concepção de formação docente, procurou-
se buscar fundamentação nos princípios do materialismo-histórico
dialético, considerando-se que o homem se desenvolveu ao
longo da história e que, portanto, os conhecimentos hoje existentes
foram produzidos e acumulados historicamente.
O fato de essa linha teórica só ter aparecido no Brasil após 1985,
retardou a compreensão de que o desenvolvimento do indivíduo é 
socialmente
determinado, na medida em que se desconsiderava a ligação
do indivíduo com seu contexto sócio-histórico e que a aprendizagem e
desenvolvimento humanos se dão de forma global, dinâmica e crítica e
que, portanto, a formação de professores deve se efetivar, apontando
para o desvelamento da realidade social no sentido de sua superação.
Retardou assim, a compreensão de que o real significado da formação
de professores, é possibilitar meios e/ou subsídios para que o futuro
professor possa se apropriar dos conhecimentos e das habilidades 
pedagógicas
necessárias a uma qualificação que lhe permita ainda, ter clareza
de que todos os sujeitos são possuidores de capacidades, as quais são
determinadas pela quantidade e pela qualidade das experiências 
adquiridas
ao longo de sua existência. Assim, o indivíduo se apropriará dos 
conhecimentos
produzidos e acumulados historicamente, bem como terá
condição de contribuir para a transformação do meio onde está inserido.
Desde as sociedades primitivas, antigüidade clássica, sociedades
medieval e moderna, a vida das pessoas com deficiência tem
sido marcada por morte e assistencialismo. Apenas em anos mais
recentes, inaugura-se um período em que estas pessoas são vistas
como detentoras de direitos que, num sentido ideológico, se proclama
serem iguais aos das demais pessoas, devendo diferenciar-se quando
necessário. Esta busca histórica pela preservação da dignidade
humana, nos faz refletir com Bobbio (1992, p.5), quando afirma, “Os
Página 95.
direitos humanos são direitos históricos que emergem gradualmente
das lutas que o homem trava por sua própria emancipação e das
transformações das condições de vida que essas lutas produzem”.
No entanto, é importante lembrar que a propalada igualdade
de direitos na sociedade capitalista burguesa, não significa direitos
iguais para todos, já que as diferenças de classe social - mais que
outras diferenças, como a própria deficiência - determinam o papel
que cada indivíduo poderá desempenhar na sociedade.
Dentre os direitos fundamentais buscados pelas pessoas com deficiência,
está o direito à educação, considerada como o caminho fundamental
que abre as portas para novas conquistas por parte desta população.
Mas essa educação hoje pensada, não pode mais se restringir
como outrora o foi, a mera aplicação de técnicas especiais para se
ensinar esta ou aquela habilidade aos alunos com deficiência. Ao se
buscar compreender a educação especial na perspectiva sócio-histórica,
é importante adotar o princípio de que o defeito orgânico não
implica necessariamente numa deficiência e que esta só se manifesta
nas relações sociais. O defeito deve ser entendido como uma força
motriz capaz de reorganizar todo o organismo, pois se algum órgão,
devido à deficiência morfológica ou funcional, não consegue cumprir
inteiramente seu trabalho, então o sistema nervoso central e o aparato
psíquico assumem a tarefa de compensar o funcionamento insuficiente
do órgão, criando sobre este ou sobre a função, uma superestrutura
psíquica que tende a garantir o funcionamento do organismo
no ponto fraco ameaçado (Vygotski, 1997, p. 58).
Tem-se a clareza, portanto, da importância da abordagem sócio-
histórica como fundamento das práticas pedagógicas a serem
implementadas pela educação especial considerada modalidade de
educação escolar que perpassa transversalmente todos os níveis de
Página 96.
ensino (LDB nº 9394/96). Assim, a educação especial necessita passar
por modificações quanto à sua concepção e formas de
implementação; atualmente há um processo de transição em curso,
quanto ao modelo de atendimento educativo a ser implementado com
os alunos com deficiência/necessidades especiais.
Segundo Mantoan, (1997, p.145), o primeiro é o modelo integrador,
cujo princípio - a integração - pressupõe que a pessoa com deficiência/
necessidades especiais deve ser preparada e educada para ser
inserida na escola, na sociedade; sua metáfora é o Sistema de Cascatas
com sua grande variedade de programas educativos, nos quais o aluno
vai transitando, subindo ou descendo, na medida de suas capacidades.
O segundo, e hoje objeto de discussões acaloradas, é o modelo
inclusivo, cujo princípio - a inclusão - pressupõe que a pessoa com 
deficiência/
necessidades especiais, deve ser aceita, acolhida, como ela é -
com suas dificuldades e potencialidades - pela escola, pela sociedade e
que estas é que devem adaptar-se a ela, ao contrário do que preceituava
a integração; sua metáfora é o caleidoscópio, instrumento multiforme e
multicor, que para funcionar adequadamente, deve ser composto de uma
ampla variedade de formas e cores; a analogia com a inclusão dá-se ao
se relacionar as variadas formas e cores às diferentes necessidades 
especiais,
às diferentes pessoas com deficiência, que se conviverem mais
proximamente com as demais pessoas, poderão enriquecer sempre e
reciprocamente os grupos sociais - dentre eles as salas de aula - a que
pertencerem. A despeito da visão romântica e idealista que permeia os
referidos enfoques - integração e inclusão - o fato é que o processo de
“educação inclusiva” vem sendo gradativa e efetivamente implementado,
fundamentado numa legislação bastante ampla.
A Educação Inclusiva é uma temática tão relevante quanto polêmica,
pois se trata de pretender incluir - na escola, na sociedade de uma
forma geral - pessoas que historicamente foram excluídas; mesmo hoje,
Página 97.
nos primeiros anos do século XXI, com todos os recursos tecnológicos
existentes e toda a riqueza produzida, a inclusão na escola, tanto 
quanto
o acesso a essa riqueza, não acontece para todos, de forma eqüitativa,
simplesmente porque vivemos numa sociedade dividida em classes sociais.
No entanto, não se pode mais ignorar que o processo de inclusão
veio para ficar e a luta deve ser para que não seja um arremedo de 
inclusão,
da forma como é explicitada por CORREIA (1997), ao citar uma nota
do editor, da revista Excepcional Parent, de Setembro de 1993,
A inclusão, tal qual é discutida por vários autores, não é uma 
realidade
em muitas comunidades. Estes autores argumentam que uma verdadeira
inclusão deve considerar um conjunto de serviços de apoio,
não só para a criança com necessidades educativas especiais, mas
também para todos aqueles envolvidos na sua educação. Quando a
criança com necessidades educativas especiais é meramente colocada
na classe regular sem os serviços de apoio de que necessita e/ou
quando se espera que o professor do ensino regular responda a todas
as necessidades dessa mesma criança sem o apoio de especialistas
ou terapeutas, isto não é inclusão. Nem é educação especial ou educação
regular apropriada – é educação irresponsável. Todos nós devemos
estar preparados para denunciar situações em que a criança é
“atirada” para a classe regular sem apoios apropriados. Infelizmente,
em muitas comunidades, alguns administradores estão a tentar promover
estes “despejos” chamando-lhes inclusão (p.24).
A inclusão não deve ser implementada sem o devido atendimento
às necessidades/particularidades dos alunos com deficiência.
Assim, para que,
a integração / inclusão da criança com NEE - necessidades educacionais
especiais – seja bem sucedida, a escola regular deve dispor
de recursos humanos e materiais necessários para uma boa prestação
Página 98.
de serviços. Neste sentido, há um conjunto de pressupostos a
ter em conta, sem os quais a integração / inclusão pode não passar
de um processo de “lançamento” da criança com necessidades educacionais
especiais nas classes regulares, vindo estas a transformarem-
se em meros “depósitos” onde essa mesma criança se sentirá
frustrada, acadêmica e pessoalmente (Correia, 1997, p.161).
Dentre estes pressupostos, o tema Formação de Professores para
a Educação Especial/Educação Inclusiva, é um dos mais relevantes,
pois há uma fala recorrente entre os professores, de que estes não se
encontram preparados para receber os alunos com 
deficiência/necessidades
especiais. Certamente que os milhares de alunos brasileiros
nessa condição, que têm chegado às escolas, não podem esperar que
todos os professores sejam “preparados”, para depois requererem suas
matrículas. Assim, o tempo urge! No entanto, esta temática não tem
sido objeto de preocupação e de responsabilização por parte do Estado
brasileiro, que a tem relegado para segundo plano, desconsiderando
sua complexidade e abrangência e as inúmeras dúvidas que existem
quanto às definições de conceitos que com ela se interrelacionam. Tem
se questionado de forma muito salutar, os termos com os quais se 
denomina
esta população de pessoas. Seria mais adequado dizer “pessoa
com deficiência”, “pessoa deficiente” ou ainda “pessoa com necessidades
especiais”? Há diferenças entre esses conceitos? Elas têm realmente
razão de ser? O que significa Educação Especial em tempos de
inclusão? Até quando haveria necessidade de se falar em duas formas
de educação para a população de alunos que apresenta deficiências/
necessidades especiais – uma educação denominada Especial e outra
Regular? Esta dicotomia durará até quando? As sociedades têm
construído realmente as condições para esta superação e isto vem se
dando da mesma forma nas diferentes organizações sociais? É possível,
na sociedade capitalista, esta superação?
Página 99.
Embora estas questões não sejam o objeto principal deste trabalho,
é importante considerar que o Parecer nº 17/2001, da CEB/
CNE – Câmara de Educação Básica/Conselho Nacional de Educação,
ao explicitar o termo Educação Especial, afirma:
Tradicionalmente, a educação especial tem sido concebida como destinada
apenas ao atendimento de alunos que apresentam deficiências (mental,
visual, auditiva, física/motora e múltiplas); condutas típicas de 
síndromes e
quadros psicológicos, neurológicos ou psiquiátricos, bem como de alunos
que apresentam altas habilidades/superdotação. Hoje, com a adoção do
conceito de necessidades educacionais especiais afirma-se o compromisso
com uma nova abordagem que tem como novo horizonte a Inclusão. Dentro
dessa visão, a ação da educação especial amplia-se, passando a abranger
não apenas as dificuldades de aprendizagem relacionadas a condições,
disfunções, limitações e deficiências, mas também aquelas não 
vinculadas
a uma causa orgânica específica, considerando que, por dificuldades
cognitivas, psicomotoras e de comportamento, alunos são freqüentemente
negligenciados ou mesmo excluídos dos apoios escolares.
Assim, a modalidade Educação Especial constitui-se num amplo
guarda-chuva onde cabem todos os alunos que se encontram fora do
quadro de alunos idealizados pelo professor, pela escola e pela maioria
das instituições formadoras de professores, que ainda não discutem 
sobre
populações diferenciadas de alunos, em seus cursos de formação.
Formação de Professores para a Educação Especial no
Brasil
A história da formação de professores para a Educação Especial
no Brasil, teve início em instituições federais como o Instituto
Nacional de Educação de Surdos, INES – RJ e Instituto Pestalozzi de
Belo Horizonte – MG, ou ainda através de cursos promovidos pelas
Secretarias de Educação, ou por estabelecimentos de ensino.
Página 100.
Apenas no final dos anos 60 esta formação foi requerida como
de nível superior, por conta da necessidade de uma maior especialização
exigida para a Educação Especial. O parecer nº 295/69 do CFE
– Conselho Federal de Educação, de autoria do Conselheiro Clóvis
Salgado assim a justifica:
Até aqui, o ensino de excepcionais se tem limitado, como especialidade,
ao nível primário, nos estabelecimentos federais. Por isso, os
professores são, geralmente, normalistas especializados na prática
ou em cursos promovidos pelos próprios estabelecimentos. É claro
que devemos evoluir, preparando a professora primária em nível 
superior,
no âmbito das Faculdades de Educação. Enquanto não for isso
possível, de um modo geral, é bom que façamos experiência em áreas
limitadas. Comecemos com o professor primário de excepcionais. A
própria deficiência dos alunos, dificultando a tarefa, está a indicar a
necessidade de professores altamente preparados, menos para emprego
de técnicas especiais de que para as tarefas de orientação,
supervisão e pesquisas nos campos específicos.
Juntamente com o Parecer 252/69 (BRASIL, 2002), que regulamentou
o Curso de Pedagogia, o Parecer acima citado determinava
que a formação de professores para a Educação Especial passasse a
ser incumbência do ensino superior. Ora, se na década de 60, o 
Conselheiro
sabiamente indicava que os professores da Educação Especial
deveriam ser “altamente preparados” para exercer tarefas que
não se restringissem a mero emprego de “técnicas especiais”, mas
que abrangessem orientação, supervisão e pesquisas nos “campos
específicos” (leia-se áreas de deficiências: DM - deficiência mental,
DA - Deficiência Auditiva, DV - Deficiência visual e DF - Deficiência
Física), indicava-se realmente uma formação bastante ampla - embora
mais tarde viesse a reduzir-se ao tecnicismo imposto pelas reformas
Página 101.
educacionais consubstanciadas na Lei 5692/71 - e, portanto, causa
estranheza o fato de que essa formação voltasse a ser incumbência
do Ensino Médio, a partir da LDB nº 9394/96.
O que isto significa? Teria vindo para atender as diferentes realidades
regionais deste país continental, ou é mais um
descomprometimento com esta modalidade educativa – a educação
especial – para a qual tanto faz esta ou aquela formação?
É importante ressaltar que uma sólida formação docente para o
professor especialista atuar com alunos com deficiência/necessidades
especiais deve ter a docência nas séries iniciais como base para a
formação especializada e, muito importante, ambas as formações devem
ser consistentes no sentido de apropriação de sólidos conhecimentos
e devem pressupor tempo para reflexão teórico-prática. Esta
preocupação deve ser aqui reiterada, na medida em que a observação
empírica tem permitido constatar o mercantilismo em que se transformou
a formação de professores especialistas em Educação Especial
em algumas regiões do Brasil, como a região oeste do Paraná.
A Formação de Professores para a Educação Especial hoje
As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores
da Educação Básica em nível superior (BRASIL, 2001), prevêem
a inclusão de conhecimentos acerca de alunos com necessidades
especiais. Como se trata de diretrizes gerais para a formação de 
professores
da educação básica em nível superior, numa perspectiva mais
ampla, o documento não faz referência sobre a formação do professor
para atuar nos serviços da educação especial, embora esses professores
devam estar à disposição da escola e dos alunos em todas as outras
modalidades e em todas as etapas da educação escolar.
Página 102.
O inciso III do art. 59 da LDB 9.394/96, refere-se a dois tipos
de professores para a atuação com alunos que apresentem necessidades
educacionais especiais:
• professores com especialização adequada em nível médio
ou superior, para o atendimento especializado; e
• professores capacitados, para viabilizar a integração/
inclusão desses educandos em classe comum.
A expressão “professores com especialização adequada”, referese
a todos aqueles que obtiveram certificação em cursos de Educação
Especial ou em uma de suas áreas, para atuar na educação de alunos que
apresentam necessidades educacionais especiais. É importante essa 
diferenciação
porque anteriormente se denominava aos egressos dos cursos
de Pedagogia, dos cursos de licenciaturas, dos cursos específicos de
Educação Especial, de “especialistas em educação” e não somente aos
egressos dos cursos de pós-graduação, como acontece hoje.
Quanto à questão dos professores capacitados, a resolução
02/2001 que institui as Diretrizes Nacionais para a Educação Especial
na Educação Básica, em seu Art. 18, parágrafo 1º, estabelece:
São considerados professores capacitados para atuar em classes
comuns com alunos que apresentam necessidades educacionais especiais
aqueles que comprovem que, em sua formação, de nível
médio ou superior, foram incluídos conteúdos sobre educação especial
adequados ao desenvolvimento de competências e valores
para: 1. perceber as necessidades educacionais especiais dos alunos
e valorizar a educação inclusiva; 2. flexibilizar a ação pedagógica
nas diferentes áreas de conhecimento de modo adequado às
necessidades especiais de aprendizagem; 3. avaliar continuamente
a eficácia do processo educativo para o atendimento de necessidades
educacionais especiais; 4. atuar em equipe, inclusive com professores
especializados em educação especial.
Página 103.
Em 2002, na esteira da LDB nº 9394/96, da Resolução 02/01 do
CNE e da necessidade de viabilizar efetivamente as políticas de 
inclusão,
o MEC/SEESP – Ministério da Educação e Cultura/Secretaria
de Educação Especial divulgou o documento “A Formação do Professor
para a Educação Especial”, em que se afirma:
A partir da política de inclusão escolar de alunos com necessidades
educacionais especiais, a formação de educadores para atender às
necessidades da área, deve ocorrer em três âmbitos:
1. Na formação inicial de todos os professores, em nível médio ou 
superior,
incluindo teoria e prática acerca de necessidades educacionais
especiais de alunos, que lhes possibilitem desenvolver processos
de ensino e aprendizagem, em classes comuns de educação básica.
Esta formação que trata também de alunos com necessidades especiais
deve ser de caráter generalista, isto é, deve contemplar as
diferenças, as deficiências, a superdotação, na perspectiva de o 
professor
saber reconhecer a existência de necessidades educacionais
especiais, e saber dar respostas educativas e buscar implementar os
apoios pedagógicos demandados (BRASIL, 2002, p. 4-5);
2. Na formação de professores de educação especial, em curso de
licenciatura em nível superior, orientados para o atendimento a uma
categoria específica de necessidades; para apoio pedagógico 
especializado
à escola, ao docente da classe comum, ao processo pedagógico
e aos alunos que apresentam necessidades educacionais
especiais (quer sejam elas temporárias ou permanentes), matriculados
em escola de ensino regular; ou para docência em classes e
escolas especiais da educação básica. Esta formação deve ocorrer
preferencialmente associada ao processo de formação inicial dos
professores de educação infantil e dos anos iniciais do ensino 
fundamental;
ou em forma de complementação de estudos, para qualquer
professor da educação básica (Idem, p.5);
Página 104.
3. Na formação de professor dos professores e de outros profissionais
especialistas no planejamento, na gestão e na supervisão da
educação, em nível de pós-graduação, desenvolvendo estudos sobre
as diversas áreas da educação especial, com a incumbência de
atuar nos sistemas de ensino e de formar novos professores para o
atendimento educacional aos alunos com necessidades educacionais
especiais, em todos os níveis de educação e particularmente,
para atuação na educação superior (Idem, p.5).
Formação inicial de todos os professores
Esta fase da formação, que deveria ter caráter generalista e tratar
“também de alunos com necessidades especiais” (BRASIL, 2002, p. 4-
5), traz explicitada na introdução do documento acima referido, a 
ênfase
na questão da qualidade como fator determinante do sucesso do
trabalho pedagógico realizado com a população de alunos com 
necessidades
educacionais especiais, que possui evidentes traços que a diferenciam
da população em geral, embora os mesmos não sejam os
maiores determinantes de seu sucesso ou fracasso escolar. O documento
traz ainda que, se se objetiva oferecer ensino de qualidade, o
sistema educacional deve investir com seriedade na formação inicial e
continuada dos profissionais da educação e especialmente na formação
do professor para todos os níveis e modalidades de ensino.
Trata também das dificuldades escolares - matéria-prima do fracasso
escolar – que, em contraposição à qualidade, emergem num espaço
que traz subjacente uma falsa cultura homogênea, em que as diferenças
- dentre elas aquelas das pessoas com necessidades educacionais
especiais - compõem de fato o espectro cultural. Afirma então,
que se não há uma cultura única e global, o trabalho pedagógico a ser
realizado deve ser diversificado para atender a uma diversidade 
cultural
Página 105.
real, expressa por determinações de classe social, raça e gênero,
mas não na perspectiva de suprir carências das minorias culturais.
O documento aborda também, a questão da formação e “competências”
necessárias aos professores que atuarão na educação básica,
com alunos que apresentam necessidades educacionais especiais,
que deve incluir, além de conhecimentos sobre as especificidades
dos referidos alunos, aspectos do “saber”, do “saber fazer”, do “saber
conviver” e do “saber ser” – referência aos quatro pilares da educação
propostos por Jacques Delors, no Relatório para a UNESCO
sobre a educação do século XXI, para os países em desenvolvimento,
em que ele utiliza-se dos seguintes termos: “aprender a conhecer”,
“aprender a fazer”, “aprender a viver juntos” e “aprender a ser” (1999,
p. 90). Os referidos aspectos constituir-se-iam, dentre outras, em
condições para que “o educando tenha acesso, permanência e sucesso
na escola” (BRASIL, 2002, p.6). É importante ressaltar que esses
“pilares” foram formulados de forma intencional, visando a que os
países do terceiro mundo se adequem a um modelo de educação
domesticadora, apaziguadora, que dê conta deste homem que tem
que ser conformado, adaptado à sua realidade, já que cada vez mais,
ele não consegue conter-se ante a ganância predatória e expropriadora
que lhe é imposta pelo modelo cruel de sociedade no qual vivemos.
Sobre esta abordagem, destaca-se o aspecto do “saber ser”, cuja
explicitação do conceito encontra-se revestida de uma concepção
mecanicista, positivista, ao sugerir que “os professores conheçam e
eliminem as barreiras atitudinais, de comunicação e curriculares, para
que modifiquem sua interação com o aluno no processo 
ensino-aprendizagem”.
(idem, p.7), como se esta relação acontecesse de forma
simplista e pudesse ser efetivada num passe de mágica,
desconsiderando as contradições que são evidenciadas todos os dias
Página 106.
numa sala de aula, em que convivem alunos com diferentes concepções
de mundo e atitudes diante de seus pares; então, não será apenas
porque o professor desvelará estas barreiras atitudinais (se puder
fazê-lo), que ele poderá eliminá-las, de forma mecânica.
Quando se refere às licenciaturas envolvendo as faculdades de
educação e os demais cursos de graduação que formam os professores
de educação básica, o documento diz que esses cursos “que hoje
transmitem conhecimento propedêutico, precisam incluir projetos em
Educação Especial, atualizar os conhecimentos acerca das necessidades
educativas especiais dos alunos, realizar pesquisas sobre essa
área e, sobretudo, possibilitar o saber fazer pedagógico, como 
exercício
crítico” (BRASIL, 2002, p.8).
É necessário considerar que embora a portaria 1793/94 recomende
a inclusão de uma disciplina ou conteúdos sobre a Educação
Especial nos cursos de licenciatura, após mais de uma década de sua
publicação, isto não tem se efetivado na prática, pois a grande maioria
desses cursos, inclusive os das instituições públicas, continua 
formando
professores de Língua Portuguesa, Matemática, História, Ciências,
Geografia, Educação Física, Educação Artística, etc., sem qualquer
conhecimento sobre pessoas com deficiência/necessidades especiais.
Quanto à avaliação, o documento recomenda que ela “deve ter
como referência os progressos do aluno, considerando seu modo de
ultrapassar as dificuldades, construir seus conhecimentos, progredir e
avançar. Sua avaliação deve considerar o que o aluno era capaz de
realizar antes e o que consegue no momento” (idem, p.8).
Segundo Bueno (1999, p.6), o que parece caracterizar a trajetória
da escola fundamental brasileira, entre ela e o ensino especial, é a 
perda
de qualquer controle dos resultados efetivos ou seja, controle da 
efetiva
aprendizagem dos alunos, que ficam por anos a fio na educação especial,
Página 107.
atingindo muitas vezes os anos finais do primeiro segmento do
ensino fundamental, mas não resistem a uma avaliação “um pouco mais
refinada”, que comprovaria que essas crianças não conseguiram 
incorporar
um mínimo de conteúdo correspondente ao nível atingido. Segundo
o autor acima referido, o que tem aproximado a educação especial
do ensino regular, é a falta absoluta de acompanhamento, avaliação e
aprimoramento da qualidade do ensino. Tal problemática tem se agravado
a partir da instituição da educação de massas nas décadas de 60 e 70,
quando houve uma ampliação do acesso à educação e de desqualificação
do processo pedagógico, historicamente marcados, de forma 
contraditória,
tanto pela escola regular, como pela educação especial.
Embora o ensino regular, no tocante à avaliação escolar na educação
básica, venha sendo sistematicamente avaliado por órgãos como
o SAEB - Sistema de Avaliação da Educação Básica e o ENEM - Exame
Nacional do Ensino Médio - exigência das agências financiadoras 
internacionais
- tal avaliação não tem se traduzido em melhoria da qualidade
de ensino, já que as questões estruturais não foram modificadas.
Ainda com referência à formação inicial de todos os professores
da educação básica do país, no tocante à educação especial, o documento
prevê – por conta da premência com que se requer essa formação
- que em caráter emergencial, sejam intensificados “os cursos de 
extensão
que se voltem, prioritariamente, para a atualização de docentes sobre
questões relativas à educação inclusiva de alunos com necessidades
educativas especiais, tendo em vista a situação atualmente enfrentada
por eles” (BRASIL, 2002, p.53), esclarecendo também, que não se deve
confundir “Cursos de extensão”, com as atividades de extensão das 
universidades,
abertas às diversas instâncias da sociedade. Em uma pesquisa
de 1998 com 58 universidades, evidenciou-se que 31 ofereciam algum
tipo de curso de extensão sobre temas de educação especial, 
principalmente
nas regiões sudeste e nordeste (Bueno, 2002, p. 57).
Página 108.
Formação de professores especialistas em educação especial
A Resolução 02/2001 (Art. 18, parágrafo 2º) define, no que se
refere à formação de professores especialistas em educação especial:
São considerados professores especializados em Educação Especial,
aqueles que desenvolveram competências para identificar as necessidades
educacionais especiais, para definir, implementar, liderar
e apoiar a implementação de estratégias de flexibilização, adaptação
curricular, procedimentos didático-pedagógicos e práticas
alternativas, adequados ao atendimento das mesmas, bem como trabalhar
em equipe, assistindo o professor de classe comum nas práticas
que são necessárias para promover a inclusão dos alunos com
necessidades educacionais especiais.
Esses professores deverão atuar nos serviços de Educação Especial,
na Educação Básica, desenvolvendo ou apoiando diretamente a
docência: em classes comuns, em classes especiais, ou em classes
de uma escola especial; no serviço de apoio pedagógico especializado
(regência das salas de recursos, dos serviços de itinerância,
e de outras atividades de suporte pedagógico especializado direto
com o aluno numa dada etapa de ensino e modalidade educacional).
O parágrafo 3º, do Art. 18, da mesma resolução, afirma:
Os professores especializados em educação especial deverão comprovar:
1. formação em cursos de licenciatura em educação especial ou em
uma de suas áreas, preferencialmente de modo concomitante e associado
à licenciatura para a educação infantil ou para os anos
iniciais do ensino fundamental;
2. complementação de estudos ou pós-graduação em áreas específicas
da educação especial, posterior à licenciatura nas diferentes áreas
do conhecimento, para atuação nos anos finais do ensino fundamental
e no ensino médio.
Página 109.
Para atender ao disposto acima, o MEC elaborou propostas de
Diretrizes Curriculares para os Cursos de Educação Especial, 
denominadas:
Licenciatura em Educação Especial e Complementação de Estudos
em Educação Especial, que contemplam: o perfil comum do egresso;
competências e habilidades; estrutura dos cursos; conteúdos 
curriculares;
estágios e atividades complementares; duração dos cursos; conexão com
a avaliação institucional; formação continuada e comentários gerais.
Segundo o documento do MEC (2002, p.23), os cursos de educação
especial devem ser organizados,
Com base na legislação em vigor e se estruturarem associados à
licenciatura para a educação infantil e/ou anos iniciais do ensino
fundamental, acrescentando-lhes um aprofundamento teóricometodológico
acerca das características diferenciadas de alunos,
cuidando, no entanto, em não transformar tais conhecimentos no
fio condutor do projeto curricular de formação. Antes de tudo o
profissional deverá ser um professor da educação básica cujo 
compromisso
é com o desenvolvimento escolar dos alunos e com a
necessária despatologização desses educandos.
Este profissional deverá ser,
Licenciado para atuar com alunos que apresentam necessidades
educacionais especiais (na organização e gestão do sistema), na
organização de unidades e projetos educacionais e na produção e
difusão de conhecimentos, em uma determinada área da educação
especial, em diferentes contextos, tendo a docência como base 
obrigatória
de sua formação e identidade profissional (idem, p.23) .
Uma das inovações do documento é a reiteração acentuada de
que o professor da Educação Especial deve ter a docência como
fundamento de sua formação e que esta deve voltar-se também para a
aquisição de conhecimentos sobre a educação infantil e anos iniciais
do ensino fundamental, e não apenas da educação especial. Ao afirmar
Página 110.
a docência como fundamento da formação do professor da educação
especial, necessário se faz definir sobre que docência estamos
falando. Concordamos com o documento intitulado Posicionamento
conjunto das entidades ANPED, ANFOPE, ANPAE, FORUNDIR, CEDES
e FÓRUM NACIONAL EM DEFESA DA FORMAÇÃO DO PROFESSOR,
na reunião de consulta com o setor acadêmico, no âmbito
do programa especial “MOBILIZAÇÃO NACIONAL POR UMA NOVA
EDUCAÇÃO BÁSICA”, instituído pelo CNE – Conselho Nacional de
Educação, de 07/11/2001, em Brasília/DF, quando explica:
A base dessa formação, portanto, é a docência (...) considerada em
seu sentido amplo, enquanto trabalho e processo pedagógico
construído no conjunto das relações sociais e produtivas, e, em sentido
estrito, como expressão multideterminada de procedimentos didático-
pedagógicos intencionais, passíveis de uma abordagem
transdisciplinar. Assume-se, assim, a docência no interior de um 
projeto
formativo e não numa visão reducionista de um conjunto de métodos
e técnicas neutros descolado de uma dada realidade histórica.
Uma docência que contribui para a instituição de sujeitos. É importante
ressaltar ainda que a docência constitui o elo articulador entre
os pedagogos e os licenciados das áreas de conhecimentos específicos
abrindo espaço para se pensar/propor uma concepção de formação
articulada e integrada entre professores.
Certamente a recuperação dessa formação global do professor 
especializado
da Educação Especial, constituir-se-á extremamente salutar, na
medida em que ele terá a docência como base de sua formação e 
apropriar-
se-á dos conhecimentos gerais destinados à formação de todos os outros
professores (Educação Infantil e anos iniciais do Ensino Fundamental),
pois como dizia MARX (1984, p. 401) “depois de desenvolver até atingir 
a
virtuosidade, uma única especialidade limitada, sacrificando a 
capacidade
total de trabalho do ser humano, põe-se a manufatura a transformar numa
especialidade a ausência de qualquer formação”.
Página 111.
Formação do Professor dos professores e de outros
profissionais especialistas (professor universitário)
Este professor deverá ter curso de pós-graduação, em um dos
seguintes níveis:
Especialização “ lato sensu” - cursos que têm tido “muito menos o
caráter de especialização e muito mais o de cursos iniciais para 
profissionais
que não tiveram qualquer formação anterior” (BRASIL, 2002, p.49).
São abertos também a outros profissionais como psicólogos, assistentes
sociais, fisioterapeutas, fonoaudiólogos e especialistas em educação 
como
administradores, supervisores e coordenadores escolares.
Mestrado e doutorado - Pós-graduação “ stricto sensu” - O documento
menciona que existe apenas uma universidade no Brasil que
mantém mestrado específico em educação especial: a UFSCAR -
Universidade Federal de São Carlos - embora dos 25 cursos hoje
existentes que possuem mestrado em educação, dois terços aceitam
alunos nas linhas de pesquisa que desenvolvem e um terço possui
linha de pesquisa específica em educação especial, observando que
“na região norte não há um curso sequer” (BRASIL, 2002, p.51). 
Recomenda
que sejam implantadas políticas de incentivo à disseminação
da educação especial nestes cursos e esclarece que o profissional
com esta formação é, “antes de mais nada, um pesquisador e por
natureza ocupacional, um professor de nível superior.” (Idem, p.51).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Na esteira da Declaração de Salamanca (1994), da Constituição
Federal de 1988, da Lei 7853/89, posteriormente regulamentada
pelo Decreto 3298/99, da LDB nº 9394/96 e do decreto nº 5296/04, o
Brasil vem passando por um profícuo e apaixonado processo de discussões
Página 112.
são sobre a população de pessoas com deficiência/necessidades 
(educacionais
quando se refere à sua educação) especiais, principalmente
quando a temática de tal discussão é onde ela deve estudar. Junto
com todos os outros alunos, ou em classes ou escolas separadas?
Embora o locus dessa educação seja hoje no Brasil, um tema polarizado
entre os defensores e os opositores da inclusão, há um consenso
geral sobre a necessidade de se dar conta da formação de professores
para a Educação Especial, tarefa historicamente desconsiderada
como relevante e hoje colocada como um dos maiores desafios dos
sistemas de ensino e das instituições formadoras.
Atualmente há inúmeros fatores que limitam e condicionam a
efetivação de uma política ampla, gratuita e democrática de formação
de professores para a Educação Especial/Educação Inclusiva. A
resolução 02/2001 previa um prazo de dois anos para que os cursos
de formação de professores existentes se adequassem, no sentido de
oferecer conhecimentos sobre as especificidades dos alunos com 
necessidades
educacionais especiais, bem como o Plano Nacional de
Educação (BRASIL, 2001), previa a garantia de que, em cinco anos,
houvesse pelo menos um curso de formação de professores para a
Educação Especial, em cada unidade da Federação.
Para um país que teve o percentual de pessoas com deficiências,
ampliado de 10% (segundo estimativa da OMS – Organização Mundial
da Saúde, para os países em desenvolvimento), para 14,5% segundo o
Censo Demográfico 2000, esta é uma questão no mínimo preocupante,
pois se a educação é direito de todos, constitucionalmente garantida,
dever-se-ia ampliar e impor metas, para dar conta da formação de 
professores
que considerasse essa população de alunos. No entanto, o
que ainda tem sido constatado na realidade concreta, é que:
No que tange a uma política de formação docente, estamos longe de
alcançar níveis qualitativos mínimos para a consecução de uma educação
Página 113.
inclusiva. Não por “genérica falta de condições”, mas por absoluta
falta de vontade política, tanto por parte dos órgãos governamentais
como pelas instituições de formação, em especial as universidades
(Bueno, 1999, p. 11).
Acrescentaríamos também, que a formação de professores para
esta área, da forma como vem sendo proposta pelo MEC/SEESP, constitui-
se num apetitoso filão para as instituições formadoras privadas,
especialmente porque há uma esmagadora demanda reprimida. Algumas
dessas instituições têm realizado cursos de pós-graduação lato
sensu aligeirados, o que pode comprometer a qualidade da formação.
Estes cursos têm cumprido o papel de rapidamente certificar e
disponibilizar para o mercado de trabalho, um contingente de 
professores
especialistas em educação especial que, muitas vezes, os
procuram para, na esteira da chamada empregabilidade, na lógica da
sociedade capitalista, terem maiores chances na busca por um emprego.
Assim, é fundamental que as instituições de ensino superior
públicas, busquem alternativas para oferecer de forma gratuita esta
formação, que é aguardada tanto pelos docentes em sua formação
inicial ou continuada, como pela imensa população de pessoas com
deficiência/necessidades educacionais especiais, que espera uma vaga
na escola brasileira. Assim, deve ser uma formação eminentemente
fundamentada em pressupostos científicos e pedagógicos, desprovida
do cunho idealista com que muitas vezes tem sido enfocada; fundamentos
estes baseados no materialismo histórico-dialético, pois
esta é a teoria que melhor explica a realidade histórica.
A reflexão crítica sobre a formação de professores e as políticas
de inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais no ensino
regular, apontam assim, para novas exigências com relação à formação
do professor para a educação especial e oferecem possibilidades
para uma revisão crítica de seus princípios, fundamentos e práticas.
Página 114.
Inicialmente é preciso refletir no sentido da superação da dicotomia
entre as funções docentes do professor da classe comum e as do 
professor
da educação especial, pois se a educação inclusiva exige que o 
professor
do ensino regular adquira conhecimentos acerca das necessidades
educacionais especiais dos alunos para dar conta de uma população que
possui características peculiares, também o professor da educação 
especial
deve ampliar suas perspectivas, tradicionalmente centradas nessas
características, e passar a preocupar-se também com o currículo,
com os níveis de ensino, com a avaliação do desempenho do aluno, com
o fracasso e evasão escolar, para contribuir de fato com o trabalho 
pedagógico
desenvolvido no ensino regular. Neste aspecto, é fundamental reiterar
o imenso desafio que têm diante de si os professores especialistas e
as instituições formadoras, quanto à compreensão da deficiência não
mais vista sob o prisma do “que falta”, mas como força motriz capaz de
reorganizar todo o organismo do sujeito, no processo denominado 
supercompensação
(Vygotski, 1997, p. 58).
Assim, pensar e implementar políticas de formação de professores
requer a compreensão da realidade social e educacional, especialmente
por que vive-se em tempos de inclusão escolar. Embora a
educação inclusiva esteja mais no plano do discurso, já que as 
estatísticas
sobre matrículas de alunos com deficiência são ainda
incipientes e a verdadeira inclusão desses alunos numa instituição
escolar que existe dentro de uma sociedade excludente, ainda aconteça
de forma muito precária, não se pode negar que, gradativamente,
muitos desses alunos que no passado estariam em instituições
segregadas, hoje adentram a escola regular e a desafiam e a seus
professores, em todos os níveis de ensino – da educação infantil ao
ensino superior – a encontrar novas formas de ensinar e de se 
relacionar
com essa nova população de alunos.
Página 115.
REFERÊNCIAS:
1. BOBBIO, N. A era dos dir direitos eitos eitos. Tradução de Carlos 
Nelson Coutinho.
Rio de Janeiro: Campus, 1992.
2. BRASIL. Lei n.º 9394/96 . Lei de Diretrizes e Bases da Educação 
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4. BRASIL. Lei n.º 10.172. Plano Nacional de Educação . Brasília, 2001.
5. BRASIL. Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação
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6. BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica.
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2002.
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especial especial. Curso de licenciatura em educação especial. 
Brasília, 2002.
9. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. 
Propos- Proposta
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especial.
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2002.
10. BUENO, J. G. S. Crianças com Necessidades Educativas Especi- 
Especiais,
ais, Política Educacional e a Formação dos Professores:
Generalistas ou Especialistas? Revista Brasileira de Educação Especial.
Piracicaba: Editora UNIMEP, v.3, n 5, set. 1.999, p.7-25.
11. BUENO, J. G. S. A educação especial nas universidades brasileiras.
Brasília:Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial, 2002.
Página 116.
12. CNE. Resolução CNE/CP 1/2002. Diário oficial da união, Brasília, 9
de abril de 2002. Seção 1, p. 31. Republicada por ter saído com 
incorreção
do original no D.O.U. de 4 de março de 2002. Seção 1, p 8.
13. CORDE – COORDENADORIA NACIONAL PARA INTEGRAÇÃO DA
PESSOA PORTADORA DE DEFICIÊNCIA. Declaração de Salamanca
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Qualidade. Brasília, 1994.
14. CORREIA, Luís de Miranda. Alunos com necessidades educativas
especiais nas classes regulares regulares. Portugal: Porto Editora, 
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15. MANTOAN, Maria Tereza Eglér. Ser ou estar: eis a questão – 
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o déficit intelectual. Rio de Janeiro: WVA, 1997.
16. MARX, Karl. O capital capital. São Paulo: Difel, 1984, Livro 1, 
Vol. 1.
17. PARANÁ. Conselho Estadual de Educação. Deliberação n.02 - Edu- 
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cação Especial Especial. Curitiba: CEE, 2003.
18. VYGOTSKI L. S. Fundamentos de Defectologia. FM: Obras Completas
Tomo 5 Havana: Editorial Pueblo y Educacion, 1997.
Página 117.
CAPÍTULO V
O USO DA INFORMÁTICA COMO UM
INSTRUMENTO DE APOIO NO PROCESSO
EDUCACIONAL DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA
VISUAL E DEFICIÊNCIA FÍSICA/MOTORA
Dorisvaldo Rodrigues da Silva1,
Vera Lucia Ruiz Rodrigues da Silva2
1 Psicólogo do Centro de Reabilitação Física do Colegiado de 
Fisioterapia,
Membro colaborador dos grupos de pesquisas HISTEDOPR,
Grupo de Inteligência Artificial (GIA) e do Grupo de Estudos sobre
a Educação da Pessoa com Deficiência do Programa de Educação
Especial da UNIOESTE.
2 Pedagoga, Especialista em Fundamentos da Educação e Educação
Especial, Coordenadora do Programa de Educação Especial (PEE).
Membro colaborador do grupo de pesquisa HISTEDOPR e do Grupo
de Estudos sobre a Educação da Pessoa com Deficiência do Programa
de Educação Especial da UNIOESTE.
Página 118.
RESUMO: Este artigo trata do uso da informática como um instrumento de
apoio aplicado à educação de pessoas com deficiência visual e com 
deficiência
física/motora. O subtópico I apresenta um breve histórico da 
informática
na educação, com informações desde o início das discussões, a década de
1970. O subtópico II aborda a inserção da informática na Educação e 
apresenta
dados do trabalho desenvolvido na Unioeste, a partir de 1997. O
subtópico III trata dos recursos técnicos utilizados na educação de 
pessoas
com deficiência visual e com deficiência física/motora. Também 
apresenta
uma classificação dos recursos disponíveis no mercado e utilizados na 
educação
nas áreas de deficiência visual e física/motora. No subtópico IV 
apresenta-
se uma breve fundamentação pedagógica referente ao desenvolvimento
cognitivo da pessoa com deficiência na concepção Vigotiskiana.
I – ASPECTOS OS HISTÓRICOS DA INFORMÁTICA NA EDUCAÇÃO
A Informática Educacional (OLIVEIRA, 1997) começou a ser
discutida no Brasil na década de 70. Nesta época surgiram os primeiros
congressos sobre o uso de computadores. Em paralelo a estes
acontecimentos, o governo federal implantou uma política de incentivo
à pesquisa para que o país pudesse desenvolver suas próprias
tecnologias, criando assim a Secretaria Especial de Informática –
SEI, a Empresa Digital Brasileira - DIGIBRÁS e a Comissão Coordenadora
de Atividades de Processamento Eletrônico – CAPRE.
Este controle pelo Estado ocorreu porque o governo militar possuía
objetivos bem definidos quanto ao uso da informática. Esta questão
é refletida na citação de Rosenthal , (1995, p.19), a qual afirma que
Os segmentos esclarecidos da sociedade já percebiam que o domínio das
tecnologia diretamente associadas com os computadores ia-se tornando
fundamental para a obtenção do grau de autonomia política (militar) 
compatível
com os objetivos desenvolvimentistas “Brasil – potência” e – para
Página 119.
usar um termo em voga – modernizantes, visados pelos governos e pela
sociedade brasileira ou, pelo menos, por suas elites.
Mesmo com a interferência do Estado, o processo de informática
na educação começou a avançar. Em 1975, por meio de um intercâmbio
cultural, a UNICAMP trouxe ao Brasil os pesquisadores Seymour
Papert e Marvin Minski que desenvolveram a linguagem LOGO. Em
1976, os professores da UNICAMP foram para os Estados Unidos
conhecer o Massachusetts Institute of Technology - MIT e, quando
retornaram ao Brasil começaram a estudar a linguagem LOGO3.
Assim, no início de 80, a UFRGS inicia experiências utilizando a
linguagem LOGO, com a finalidade de desenvolver o raciocínio lógico e
a leitura, tendo como base teórica o modelo piagetiano para promover
aprendizagem na criança. Nesta mesma época, a Secretaria Especial de
Informática estudava a aplicabilidade da Informática na Educação.
O caráter de segurança nacional dado ao setor pelo governo brasileiro
da época, estabelecendo controle excessivo sobre as atividades oriundas
da informática, resultou efetivamente em uma barreira dessa tecnologia 
no
Brasil, fazendo com que a pesquisa nesta área ficasse secundarizada. 
Conseqüentemente,
esta posição política adotada no país reduziu a possibilidade
de autonomia nesta área e, ainda, “ampliou a dependência do Brasil
a tecnologias importadas” (ROSENTHAL, 1995, p. 25).
Desde o golpe militar de 1964 até 1982, ocorreram muitas medidas
que aumentaram o endividamento externo do país, pois o desenvolvimento
nacional possuía sua base na dependência do capital
estrangeiro. Esta condição favoreceu o estabelecimento de políticas
externas aos países que tinham o poder de controlar e autorizar os
Inicio de nota de rodapé.
(3)O Logo é uma linguagem INTERPRETADA. Opera por comandos que são 
executados
na tela por um cursor que é chamado Logo de TARTARUGA. Esse nome foi
dado porque na primeira versão do Logo era usado um robô, que parecia 
uma
tartaruga.
Fim de nota de rodapé.
Página 120.
empréstimos internacionais, que buscavam ampliar seus mercados e,
ao mesmo tempo, aumentar a dependência de países em desenvolvimento
na utilização de novas tecnologias.
Quanto à educação neste período, em virtude do processo de 
desenvolvimento
sócio-econômico articulado à política educacional, é posto
à população a necessidade de elevação da escolaridade. Segundo Cunha
(1985), o Estado militar criou formas de conter e liberar o acesso à 
educação
à camada popular, e o fez por meio do ensino médio e superior,
incentivando também as empresas a atuarem na formação profissional.
As leis (5.540/68, 5.692/71) deram continuidade aos aspectos
educacionais expressos na Lei 4.024/61, uma vez que a mudança no
âmbito político objetivava a manutenção do sistema capitalista no
sentido de conservação do status quo da elite brasileira.
Saviani (1978, p. 184) ratifica que “se no plano sócio-econômico
houve continuidade, compreende-se que se constate uma continuidade
também no plano educacional. E essa continuidade está refletida na
legislação”. Contudo, as discussões do uso da informática como recurso
didático dava-se somente no âmbito de algumas universidades.
Com o projeto EDUCOM, em 1983, o governo federal decide
pela implantação de centros-pilotos em Universidades Brasileiras,
sendo selecionados apenas 5 dos 26 projetos enviados. Os projetos
foram implantados nas seguintes instituições selecionadas: UFRGS,
UFPE, UFMG, UFRJ e UNICAMP.
Em 1986, o governo federal cria o Programa de Ação Imediata
em Informática na Educação para 1º e 2º graus, com os objetivos de:
• criar de uma infra-estrutura de suporte junto às Secretarias
Estaduais de Educação;
• capacitar professores;
• incentivar à produção descentralizada de softwares
educacionais;
Página 121.
• integrar pesquisas que vinham sendo desenvolvidas pelas
diversas universidades.
As pesquisas desenvolvidas pelas universidades, através do
projeto EDUCOM, serviram de base de apoio para projetar e implantar,
junto às Secretarias Estaduais de Educação, os Centro de
Informática Educacional - CIEDs, que funcionariam como pólos para
formação de multiplicadores para a capacitação de professores de 1°
e 2° graus e de educação especial. Entre 1988 e 1989 foram criados 17
CIEDs em diversos estados brasileiros.
Em 1989 surgiu o Programa Nacional de Informática na Educação
- PRONINFE, com o objetivo de fornecer suporte ao desenvolvimento
e à utilização da informática nos ensinos de 1°, 2°, 3° graus,
hoje denominado de ensino médio, e educação especial, financiando
a infra-estrutura e a capacitação contínua de professores.
A educação básica, superior, especial e a não-formal foram
divididas em subprogramas para que se estabelecessem diretrizes
diferentes. Face a estas condições, surgiram os Centro de Informática
na Educação Superior - CIEs, os Centro de Informática na Educação
Técnica – CIETs que, junto aos CIEDs realizaram o treinamento e a
capacitação de professores, utilizando o desenvolvimento de novas
metodologias, processos e sistemas na área.
Em novembro de 1996 o MEC lançou o Programa Nacional de
Informática na Educação – PROINFO que junto com os governos estaduais
tem até hoje a finalidade de efetivar a informatização das
escolas públicas, visando atender a capacitação de professores e
equipar as escolas com equipamentos e suporte técnico.
Especificamente para o Estado do Paraná o governo, visando
atender as diretrizes definidas pelo MEC, criou o Programa Estadual
de Informática na Educação - PEIE, que tem por objetivo implementar
Página 122.
a Informática Educacional nas escolas públicas. Com a finalidade de
promover a formação de multiplicadores, foram implantados até 2001,
12 Núcleos de Tecnologia Educacional no Paraná - NTEs, em cidades
pólo e capital. A partir de 2004, o governo do Estado do Paraná
projetou e executou a ampliação do número de NTEs. Estes receberam
uma nova denominação, passando a ser identificados por Centros
Regionais de Tecnologia Educacional – CRTE. Atualmente a
SEED conta 32 CETRs em todo o Estado.
É necessário compreender que a política de informática educacional
em âmbito estadual e federal faz parte de uma proposta
educacional apontada no projeto de desenvolvimento presente nos
documentos do Banco Mundial, BIRD - órgãos que financiam os 
investimentos
de desenvolvimento para o Brasil e outros países. Estes
documentos apontam medidas educacionais voltadas à nova forma
que o capitalismo vem tomando em função do desenvolvimento do
próprio modo de produção que avança no sentido de utilizar meios
de produção com base tecnológicas automatizadas.
É com vistas a uma análise crítica que os educadores devem pensar
no uso da informática na educação, pois, como qualquer outro 
instrumento,
esta pode ser utilizada para favorecer o sistema econômico vigente,
como também contribuir para o processo de emancipação do homem.
A utilização da informática na educação ainda hoje é polêmica,
principalmente no que diz respeito aos professores estarem trabalhando,
com os alunos, os conteúdos estabelecidos nas grades curriculares por
meio do computador, softwares entre outros recursos tecnológicos.
Quanto ao uso da informática como recurso educacional para
as pessoas com deficiência verifica-se que esta tem possibilitado um
salto qualitativo em termos de acesso ao conhecimento sistematizado,
especialmente para o cego e para a pessoa com visão reduzida.
Página 123.
II - INSERÇÃO D DA A INFORMÁTICA NA EDUCAÇÃO
O modelo de sociedade definida pelo sistema capitalista tem enfatizado
a busca do conhecimento/informação, de modo que a tecnologia associada
a esta categoria passou a ser um dos elementos norteador das ações e 
das
atividades do sistema como um todo, quer seja na saúde, na 
agropecuária,
nos transportes, na educação, na indústria ou no setor de serviços.
Neste ambiente de constantes inovações tecnológicas, a educação
deve tomar uma postura crítica, no sentido de analisar às mudanças no
âmbito sócio-econômico, político-educacional, devendo estar à frente, 
para
buscar a reorganização do processo educativo e assegurar a 
transmissãoapropriação
do conhecimento e o desenvolvimento de pesquisa científica.
A utilização de tecnologias pode contribuir para que a educação
formal possa atuar de modo mais eficaz em duas frentes. A primeira
diz respeito à ruptura de uma perspectiva eletista de acesso aos bens
produzidos historicamente pelo homem e para o homem e, com isso,
possibilitando maior acesso ao conhecimento. A segunda refere-se a
assegurar uma formação de homem na perspectiva do ser social.
Entretanto, de acordo Azevedo (1995), em virtude da
intencionalidade política-econômica e educacional posta pelo sistema
capitalista, a educação contemporânea não tem contribuído para
minimizar a desigualdade social e muito menos para proporcionar
uma formação que viabilize a emancipação do homem.
O sistema educacional que deveria estar à frente no que diz
respeito a aplicação dessa tecnologia e que em virtude de determinantes
sócio-econômicos não tem conseguido se desvencilhar do processo
de privatização da educação, ou seja, de uma política de direito
passa a ser uma política de mercado.
Nesta perspectiva, Azevedo (1995) coloca que
A construção de uma sociedade alternativa , democrática e solidária,
não poderia prescindir dos avanços científicos e tecnológicos
Página 124.
da chamada terceira revolução industrial. O aprofundamento das
relações internacionais, os avanços da ciência e da tecnologia são
um patrimônio da humanidade. A questão central é a democratização
destes processos, para que seus efeitos positivos possam ser
potencializados, transformados em fatores de inclusão e em instrumentos
de melhoria da qualidade de vida para todos. O
internacionalismo baseado na solidariedade dos povos é historicamente
uma construção dos movimentos identificados com as utopias
igualitárias. O grande desafio hoje é transformar o sentido meramente
econômico da internacionalização. Trata-se de criar a possibilidade
e as condições políticas, para a globalização dos direitos,
da cidadania, da integração cultural e da democratização do
acesso a todas as conquistas da humanidade (AZEVEDO, 1995, p.11).
Quando se fala em uso de tecnologias na educação, deve-se
procurar compreender que a inserção desses recursos visa contribuir
para a melhoria do material didático-pedagógico através de mecanismos
tecnológicos modernos, e não meramente atrativo da utilização
do computador. Assim como a televisão, o computador não veio
desvirtuar os caminhos do ensino em sala de aula e muito menos
substituir o professor, mas oferecer mais um recurso atrativo para os
elementos que compõem o processo de aprendizagem. Assim, a
tecnologia computacional deve ser um instrumento e meio de ensino
que tem por base promover a compreensão, a interação e a análise
crítica do aluno para a construção do conhecimento.
Para as pessoas com deficiência, a informática tem viabilizado
uma nova perspectiva de ascensão profissional por meio da educação.
Se no âmbito da educação de crianças sem deficiência a informática
ainda não se consolidou como um importante recurso pedagógico, na
educação especial esta tecnologia tem sido um valoroso instrumento
de acesso ao conhecimento. Dados do Programa Institucional de Ações
Página 125.
Relativas às Pessoas com Necessidades Especiais – PEE4-UNIOESTE
têm confirmado que o uso de recursos da informática podem promover
o efetivo acesso à educação, neste caso específico, ao ensino superior.
De modo geral, o uso de tecnologias computacionais trazem uma
nova perspectiva para as pessoas com deficiência, contribuindo para o
acesso ao mercado de trabalho, à educação e ao lazer, 
possibilitandolhes
maior autonomia, acesso ao conhecimento e a manifestação de sua
capacidade produtiva. Conseqüentemente todas as possibilidades de
promover o acesso a educação e ao mercado de trabalho formal para a
pessoa com deficiência são fatores importantes para criar melhores 
condições
de participação ativa em todos os setores sociais. Torna-se então
necessário prover as instituições de ensino, em todos os níveis, com os
recursos de informática para contribuir no processo de educação das
pessoas com deficiência, bem como prepará-las para o trabalho.
A UNIOESTE, por meio das atividades desenvolvidas pela equipe
de PEE, em parcerias com: a Associação Cascavelense de Pessoa
com Deficiênca Visual – ACADEVI, com o Núcleo de Inovações
Tecnológicas – NIT, com Núcleo de Estudos Interdisciplinares, com
a Secretaria Municipal de Educação e com o Núcleo Regional de
Educação, vem realizando desde 1999 cursos de formação continuada
para o uso do computador, principalmente do sistema
computacional Dosvox. Destaca-se neste contexto a realização dos
Encontros de Informática na Educação – ENINEDs que desde a primeira
edição (1999), vem colocando em sua programação minicursos
de Dosvox, bem como a demonstração de softwares destinados às
pessoas com paralisia cerebral e as pessoas com deficiência motora.
Soma-se a estas atividades a infraestrutura de recursos
tecnológicos do PEE que conta com scanners, máquinas perkins-
Inicio de nota de rodapé.
(4) Acadêmicos em atendimento em 2006: 4 com visão reduzida, 3 cegos,
3 surdos. Desde 1997 o programa já atendeu 21 alunos com deficiência
visual e com deficiência física.
Fim de nota de rodapé.
Página 126.
O USO DA INFORMÁTICA COMO UM INSTRUMENTO DE APOIO NO PROCESSO 
EDUCACIONAL ...
braille, impressoras braille, computadores, lupas eletrônicas, 
softwares
sintetizadores de voz e ampliadores de tela, como também de periféricos
adaptados para pessoas com deficiência física. Além disso, o
Núcleo de Inovações Tecnológicas está desenvolvendo um ampliador
de tela inteligente, denominado de Xlupa, destinado às pessoas com
visão reduzida, cujo projeto foi financiado pelo CNPq em 2005.
As atividades desenvolvidas pelo PEE desde 1997 estão pautadas
na mobilização e no comprometimento de sua equipe e dos seus
parceiros, objetivando atender o candidato ao vestibular, bem como
o acadêmico com alguma deficiência. Neste aspecto, a UNIOESTE
vem se consolidando como uma referência estadual no processo de
apoio ao ingresso e a permanência das pessoas com deficiência no
ensino superior, principalmente na área da deficiência visual.
A seguir, serão abordados os recursos tecnológicos utilizados na
educação de pessoas com deficiência visual e/ou com deficiência física.
III – RECURSOS TECNOLÓGICOS APLICADOS NA
EDUCAÇÃO DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA VISUAL E
DEFICIÊNCIA FÍSICA/MOTORA
Não considerando menos importantes o uso da informática na
educação de pessoas com deficiência mental ou auditiva, este artigo
toma como exemplos apenas as áreas da deficiência visual e física.
Segundo (MARTÍN; LA FUENTES; DIAZ; BUENO, 2000, p.
95), Tiflotecnologia é entendida como um conjunto de técnicas, 
conhecimentos
e recursos que facilitam ou proporcionam às pessoas
cegas ou com visão reduzida os meios oportunos para a correta 
utilização
da tecnologia, que contribuem com a sua autonomia pessoal e
plena integração social, laboral e educativa.
Neste conjunto de adaptações tiflotécnicas estão os sistemas
de reprodução de áudio, armazenamento e processamento de informações
Página 127.
síntese de voz através de periféricos ou software específico,
sistemas de reconhecimento óptico de caracteres, instrumentos 
eletrônicos
portáteis para tradução ou para cálculo, entre outros.
Existe um número significativo de empresas que comercializam
diversos produtos destinados a área da deficiência visual, conforme
apresentado no “Anexo A” 5.
Os diversos instrumentos a seguir, apresentados na Figura 1,
são os de maior aplicação no âmbito da educação especial de pessoas
com deficiência visual.
Figura 1 –Lista de instrumentos utilizados na educação de pessoas com
deficiência visual
 - Braille-falado: é um sistema portatil de armazenamento e processo de 
informação cuja entrada de dados se realiza
através de um teclado braille de 6 pontos e espaçador, e a sua saída se 
produz através de uma voz sintetizada. tem como caracteristicas
mais destacáveis: editor de textos, agenda, cronômetro, calendário e 
calculadora.
 - PC-falado: é um computador compatível IBM-XT portátil, com teclado 
braille de oito pontos que permite a edição de textos e a gestão de 
atividades
do tipo agenda eletronica (relógio, calculadora, calendário, terminal 
de comunicações, etc). Permite
fazer conexão com impressora Braille de tinta, unidade de disco 
externa, podendo ser utilizado como
sintetizador de voz. com sistema operacional MS-DOS, versão 5.0, 
permite a execução do programa de cálculo
"multical" e outros programas.
Inicio de nota de rodapé.
(5) Lista de fabricantes de equipamentos e programas para deficientes 
visuais e
os seus principais produtos. Disponível em: http://www.lerparaver.com/
links_software.html. , Acesso em 20 de out de 2004.
Fim de nota de rodapé.
Página 128.
Impressoras Braille: São instrumentos que, conectados a um computador 
ou outros dispositivos
especificos(Braille falado, PC falado, ect.), permitem imprimir a 
informação no sitema braille.
A mais utilizada é a impressora personal porta-thiel, de baixa tiragem, 
que imprime sobre papel
continuo e em folhas soltas com o maximo de 39 caracteres por linha e 
29 linhas por página
a um velocidade de 10 caracteres por segundo. Imprime em 6 e 8 pontos.
Livro Digital Adaptado: são conteúdo digitalizados e estão ao alcance 
das pessoas cegas através de
sofware apropriado e um leitor de CD.
Linhas Braille: são periféricos de aplicativo capazes de reproduzir em 
braille a informação
que aparece no monitor do computador. Conectadas ao computador, 
permitem às pessoas cegas ou
de visão reduzida com baixo resíduo visual fazerem a leitura em braille 
sobre a linha do texto
situado na tela de qualquer computador que utilize MS-DOS ou Windows. 
Possui um teclado de funções
para configurar a linha, o modo de trabalho, etc.
Sintetizador de voz: São recursos desenvolvidos especialmente para 
trabalhar com aplicativos.
Tem por objetivo o acesso à informação que aparece na tela do 
computador, mediante a leitura
pela voz sintética, dos textos selecionados pelo usuario. Permite à 
pessoa cega explorar a
tela, situar-se na mesma, acionar os comandos de leitura, etc.
Calculadoras científicas falantes: são utilizadas como instrumentos 
manuais individuais
ou como software para PC. As mais usadas são: Audiocal EC-9056-AF e o 
programa de cálculo
Multical.
Página 129.
Leitor óptico: Reconhecedor Óptico de Caracteres (OCR) ou o 
Reconhecedor INteligente de
Caracteres (ICR) - são programas capazes de interpretar e reconhecer a 
digitalização
de um documento realizado por scanner. Esta digitalização parece uma 
fotografia do
documento original que um computador pode reconhecer. Destacam entre 
estes sistemas,
como Hardware, o Reading-Edge e os sistema Galileo e, como software, o 
programa Lee.
Tradutores e dicionários: são instrumentos eletronicos portáteis que 
permitem a tradução bidirecional
entre os idiomas inglês e espanhol, como o dicionário inglês Franklin e 
Dicionário
Berlitze, e o programa Dile.
Ampliador de telas e caracteres: são softwares que permitem ampliar 
caracteres de 2 até 16 vezes.
Destre estes destacam: Zoomtext Xtra, Mega, Tiflowin e Jaws.
Ampliador de imagem: Éum sistema de ampliação que permite aumentar a 
imagem
de um objeto, ou texto na tela de um monitor, através de um circuito de 
TV. Pode ampliar em até
60 vezes a imagem. São conhecidos como lupa-televisão ou telelupa, 
rádio-lupo e também
como lupa eletrônica.
Teclado adaptado: são teclados adaptados e podem ser encontrados em 
diversas
modalidades, tais como: teclados com teclas maiores, para facilitar a 
digitação
com pinos metalicos que se levantam formando caracteres sensiveis ao 
tato.
Pode-se usar uma pelicula braille que é colocada sobre o teclado e que 
os
auxiliam na digitação. Entretanto, na maioria das vezes não se utilizam
teclados especiais quando o usuario faz a interação como o computador
que possui sintetizador de voz.
Página 130.
Windows: O Windows possui recursos que facilitam o acesso de 
deficientes.
Pode ser configurado o mouse com rastro, o aumento de ícones e 
caracteres
a lente de aumento (para aumentar uma determinda parte da tela), os
filtros para o teclado, os avisos visuais ao invés de avisos sonoros
o aumento de contraste e a emissão de sons em geral.
Logo: a linguagem Logo tem sido usada amplamente na educação regular 
como também
na educação especial. O Logo está fundamentado na teoria construtivista 
de
Piaget, que enfatiza o desenvolvimento do pensamento lógico-matemático 
do portador de
necessidade especial. Este sistema permite que a criança programe o 
computador
de forma criativa e espontânea, manipulando os materiais que encontra 
em seu ambiente.
Dosvox: é um sistema de sintese de voz, em português, desenvolvido pelo 
núcleo
de Computação Eletrônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que 
facilita
o acesso de deficientes visuais a computadores, permitindo-os estudar e 
trabalhar com
o computador ou, simplesmente, interagir com outras pessoas sem 
depender de alguém.
O DOSVOX vem sendo aperfeiçoado a cada nova versão. Hoje, ele possui 
mais
de 80 programas. Contava em julho de 2004 com cerca de 8000 usuários no
Brasil e em alguns países da América Latina. Disponível em 
http://intervox.nce.ufrj.br/dosvox.>.
Acesso em 27 de jul. 2004.
Página 131.
Além da relação de recursos relacionados na Figura 1, apresenta-
se o aplicativo demonstrado nas figuras 2 e 3. Estas figuras tratam da
tela do software “Falando Sobre História do Brasil”, versão DV, 
desenvolvido
no Núcleo de Inovações Tecnológicas – NIT/UNIOESTE e financiado
pela Fundação Araucária-PR. Este software atende as necessidades
do aluno cego e ou do aluno com visão reduzida. Possui todo
o conteúdo narrado em voz humana e permite ao usuário fazer a
interação por meio do teclado e também com o uso do mouse. Com o
acionamento do botões direito e esquerdo do mouse permite alterar a
cor da fonte e da tela, respectivamente. Também por meio de teclas de
atalho pode-se ampliar o tamanho da fonte adequando-o às necessidades
do usuário com visão reduzida (Falando Sobre, 2002).
Figuras iguras 2 e 3 - Telas do software com ampliação da fonte e 
mudanças de
cores da tela e da fonte
Página 132.
Para as pessoas com deficiência física/motora são usados recursos
de acessibilidade, os quais são classificados em três grupos,
a seguir identificados.
a) Adaptações físicas ou órteses
São todos os aparelhos ou adaptações fixadas e utilizadas no
corpo do aluno e que lhe facilitam a interação com o computador. A
figura 4 demonstra um exemplo de adaptação física.
Figura 4- Estabilizador de punho e abdutor de polegar com ponteira para
digitação(6).
A figura 4 demonstra o uso de adaptações: a) física (o estabilizador
de punho e abdutor de polegar com ponteira para digitação) e, b) de
hadware (colméia ou mascara de teclado) ambas tem por finalidade 
possibilitar
ao usuário interagir com a máquina por meio do teclado.
Inicio de nota de rodapé.
6 Figuras 4, 5 e 6 disponíveis em 
http://infoesp.vilabol.uol.com.br/recursos/
recurso2.htm, acesso em 06 de fev de 2006.
Fim de nota de rodapé.
Página 133.
b) Adaptações de hardware
São todos os aparelhos ou adaptações presentes nos componentes
físicos do computador, nos periféricos, ou mesmo quando os próprios
periféricos, em suas concepções e construção, são especiais e 
adaptados.
As figuras 5 e 6 demonstram um exemplo de adaptação de hardware.
Figuras 5 e 6 – Colméia ou máscara de teclado sobreposta ao mesmo
c) Softwares especiais de acessibilidade
São os programas especiais de computador que possibilitam
ou facilitam a interação do aluno com deficiência e a máquina.
Página 134.
Emulador / Simulador de Teclado – consiste em um teclado virtual
simulado no monitor. Um programa “varre” sequencialmente as
teclas do teclado no monitor, mudando-as de cor e, quando alcança a
tecla desejada, o usuário pode acionar a opção desejada por meio de
periféricos adaptados ( mouse, ponteiras, teclado) e ainda por emissão
de som por meio de microfone, como por exemplo o software Luciana.
Figura 7 - Demonstra a tela do Menu mouse do software Luciana
• Clica (serve para clicar sobre o ícone)
• Sobe (move a seta para cima)
• Desce (move a seta para baixo)
• Esquerda (move a seta para esquerda)
• Direita (move a seta para direita)
• Outros Cliques (ativa o menu
Outros Cliques)
• Mouse Rápido (acelerar/desacelerar
o movimento do cursor do mouse)
• Comanda Janela (ativa o menu
Comanda Janela)
• Digita (inicia o menu de teclagem)
• Visualiza (esconde o menu)
• Meus Programas (inicia o menu de
seleção de programas)
O software “Luciana” ao ser ativado abre a tela do menu mouse
(demonstrado na figura 7), inicia a varredura das opções constantes
no “menu mouse”. Com o acionamento da tecla Ctrl ou de qualquer
som por meio de microfone, o usuário faz a escolha e o acionamento
da opção desejada. O usuário poderá movimentar o mouse, selecionar
e abrir programas, abrir as janelas dos “ menu outros cliques,
“menu comanda janela”, “menu digita” “menu meus programas”, enfim
Página 135.
acionar todas as funções do teclado. Este software permite que o
usuário com o mínimo de movimentos e mesmo sem poder falar, poderá
interagir com o computador. Pode ser utilizado por pessoa com
paralisia cerebral ou com deficiência motoras graves.
A seguir são apresentados alguns exemplos de emuladores/simuladores
de teclado.
• Tflex: Um simulador de teclado com múltiplos modos de
varredura, desenvolvido pela UNICAMP – disponível em
www.nied.unicamp.br/~tflex/downloads,php.
• Motrix, desenvolvido pelo Núcleo de Computação da UFRJ
– disponível em http://intervox.nce.ufrj.br/motrix/
download.htm.
• Teclado amigo e Luciana, ambos desenvolvidos pelo Núcleo
de Computação Eletrônica da UFRJ.
• Software Luciana disponível em http://intervox.nce.ufrj.br/
beatriz/
• Teclado amigo disponível em http://caec.nce.ufrj.br/saci2/
kitsaci2.zip.
• ETM VOICE, desenvolvido pelo CEFET-PR, disponível em
www.korp.com.br/etm.
• Teclado virtual livre, desenvolvido pela PUC-PR, disponível
em www.ler.pucpr.br/amplisoft/projeto.htm.
IV – ASPECT ASPECTOS OS RELA RELACIONADOS CIONADOS A AO O DESENV 
DESENVOL OL OLVIMENT VIMENT VIMENTO
COGNITIV COGNITIVO O D DA A PESSO PESSOA A COM DEFICIÊNCIA NA
CONCEPÇÃO VIGOTSKIANA
Na área da educação especial, um dos fatores relevantes no
processo de ensino e aprendizagem da pessoa com deficiência é o
material didático adaptado ou desenvolvido para atender as
especificidades do aluno com necessidades educativas especiais.
Página 136.
Entretanto, devido à pouca disponibilidade deste material na escola, 
reduz-
se e, muitas vezes, exclui-se a oportunidade da pessoa com deficiência
estar participando do próprio processo educacional. Assim sendo, a
tecnologia computacional é um dos recursos que pode minimizar a 
desvantagem
de acesso ao conhecimento entre o aluno considerado “normal”
e aquele com alguma deficiência durante o período escolar.
É importante compreender que no processo de educação de
pessoas com deficiência visual tem-se utilizado a avaliação funcional
da visão como um dos parâmetros para definir os recursos pedagógicos
que atenderão as especificidades do aluno em questão. Assim
torna-se indispensável entender a definição conceitual do que é 
cegueira
e visão reduzida.
Segundo (BRUNO, 1997), a cegueira caracteriza-se pela ausência
total de visão até a perda da projeção de luz. Neste caso, o
processo de aprendizagem ocorrerá por meio da integração dos sentidos:
tátil – cinestésico – auditivo – olfativo – gustativo, sendo que o
principal meio utilizado para fazer a leitura e a escrita é o sistema
braille. Hoje, os usuários que possuem computador, ou de alguma
forma tem acesso a ele, utilizam-se de sintetizadores de voz para
realizar estas atividades de leitura e escrita.
Convém salientar que o sistema braille é extremamente importante no
processo de alfabetização da criança cega, possibilitando-lhe 
principalmente
o conhecimento e a aquisição da escrita ortograficamente correta.
Para o aluno cego, o processo educacional deve ocorrer de
forma idêntica ao da criança normal. Entretanto, a captação da 
informação
se dá fundamentalmente por meio da audição e do tato. Assim,
todos os recursos capazes de auxiliar o aluno cego, em seu processo
educacional devem atender as condições de captação da informação
por meio dos sistemas auditivo ou tátil ou, ambos.
Página 137.
A pessoa com visão reduzida pode ser caracterizada, no que diz
respeito ao uso funcional da visão, como sendo àquela que lê tipos 
impressos
ampliados ou com o auxílio de potentes recursos ópticos. O
processo educacional para esta pessoa, segundo a mesma autora, se
desenvolverá por meios visuais ou pelo uso de resíduo visual ainda 
existente
mesmo que seja necessário a utilização de recursos específicos.
Entretanto, para que a educação da pessoa com deficiência
visual possa efetivamente ocorrer e produzir bons resultados, é 
indispensável
proporcionar condições materiais adequadas às necessidades
deste tipo de aluno. (BRUNO, 1997).
Neste aspecto, Masini (1994) cita que o sucesso escolar de
muitas pessoas com deficiência visual está diretamente vinculados à
utilização de recursos pedagógicos adaptados ou desenvolvidos para
este tipo de aluno. Segundo esta autora, esta condição sendo 
concretizada
já seria o suficiente para facilitar e propiciar melhores 
possibilidades
para que o aluno com este tipo de deficiência possa realizar,
sem prejuízos significativos.
Além das questões relacionados à acessibilidade ou ao material
didático a serem disponibilizados à educação de pessoas com 
deficiência,
a formação continuada do professor também é extremamente importante.
Existem diversas concepções téoricas que tratam do processo
de ensino-aprendizagem na educação e educação especial. Entretanto,
o suporte téorico adotado pela equipe do programa de educação especial
(PEE) está vinculado a perspectiva teórica de Liev S. Vigotski,
principalmente por tratar não somente da educação da pessoa com
deficiência, mas antes disso, da concepção da pessoa com deficiência.
Na concepção teórica de Vigotski (1997) o processo da educação
formal acontece fundamentalmente pela atuação do professor,
fazendo a mediação entre o aluno e o conhecimento sistematizado e
Página 138.
historicamente produzido, com auxílio ou não recursos pedagógicos.
Neste aspecto, necessariamente o encaminhamento teóricometodológico
da prática do professor em sala de aula deve estar
alicerçado numa fundamentação pedagógica que dê as diretrizes da
ação do docente com objetivos educacionais.
Ao tratar da questão da deficiência, Vigotski tem como diretriz
de fundamentação os seguintes aspectos: 1) a concepção de deficiência,
a qual é determinada pelo caráter biológico e social do defeito;
2) o conceito de compensação social e, 3) o processo relacionado à
educação da pessoa com deficiência.
A concepção da deficiência está relacionada ao caráter biológico
do defeito e, portanto, corresponde à deficiência em si mesma (p.ex.,
a cegueira, a surdez, a deficiência motora). Também é denominada em
alguns textos como defeito primário ou deficiência primária.
Já, a concepção de deficiência compreendida como caráter social
do defeito, também denominada de deficiência secundária ou defeito
secundário é entendida como sendo à conseqüência social do defeito, a
qual poderá produzir reflexos significativos para o sujeito com 
deficiência.
Assim sendo, o resultado da conseqüência social do defeito poderá
acarretar dificuldades significativas para o desenvolvimento 
educacional
e social da pessoa com deficiência (VIGOTSKI, 1997).
Ainda, em relação a compensação social do defeito ou da deficiência
Vygotski afirma que podem ocorrer duas conseqüências
relacionadas a esta questão. Para compreender as reações que resultam
em compensação ou supercompensção é necessário compreender
que o que afirmou Adler(7) “ o defeito não é somente uma pobreza
psíquica, senão também uma fonte de riqueza, não é somente uma
debilidade, senão também uma fonte de força”. Nesta concepção
Inicio de nota de rodapé.
(7) Citado por Vigotski 1997, p. 33.
Fim de nota de rodapé.
Página 139.
teórica Adler pensa dialéticamente em dois momentos acerca do
desenvolvimento psicológico: 1) o caráter dialético do defeito e, 2) a
base social da psicologia da personalidade. A partir desta compreensão
a compensação ou supercompensação social do defeito aparece
como resultado da contraposição entre a deficiência orgânica
primária e as tendências psicológicas dirigidas para a superação da
conseqüência social do defeito.
Para Vigotski, essas possibilidades de reações são extremamente
importantes para pessoa com deficiência porque são elas que vão
mostrar efetivamente para o indivíduo as suas potencialidades 
relacionadas
a compensação ou supercompensação social do defeito. Neste
contexto, os possíveis resultados alcançados podem ser de um lado, o
êxito, a superação e de outro, o fracasso, este caracterizando-se como
a aceitação da redução de suas potencialidades. Ambos os resultados
desse processo acabam estabelecendo influências significativas no 
desenvolvimento
cognitivo e social da pessoa com deficiência.
É importante ressaltar que nem todas as pessoas, quer sejam
com deficiência ou não, alcançam o sucesso escolar. Da mesma forma,
é necessário salientar que nem todas as pessoas com deficiência
conseguem obter resultados positivos no processo de compensação.
Neste aspecto, se pudesse se estabelecer uma linha defeito-compensação,
observaria que Vigotski (1997) coloca a compensação/supercompensação
como um dos pontos de um dos extremos desta linha.
O outro ponto, na outra extremidade, corresponderia ao fracasso da
compensação, caracterizado pela luta defensiva do sujeito, usando
como escudo a própria deficiência, a qual poderá criar a desmotivação
para a superação e a redução de suas potencialidades, elevando assim
o nível de energia psíquica à dimensão do defeito primário e,
conseqüentemente produzindo, como resultado a deficiência secundária.
Página 140.
Portanto, pode-se imaginar que entre os pontos extremos da
linha defeito-compensação existem vários pontos possíveis em termos
de resultados de compensação social do defeito. É nesta verdade
psicológica que se encontra os pólos denominados por Vigotski
de “alfa o omega da educação social das crianças com defeitos”.
Ainda, em relação ao processo compensatório Rodney (2003)
coloca que existem condições que influenciam neste processo e que
as mesmas são divididas em quatro categorias, a saber:
1) O alcance ou intensidade da deficiência que a criança possui.
2) Os recursos, em termos de potencial próprio de cada sujeito,
que influem tanto no desenvolvimento da criança com
deficiência, como na criança sem deficiência.
3) A natureza da interação com o entorno social mais próxima
da criança com deficiência.
4) A socialização cultural ou interação social da criança com
deficiência.
Até aqui os apontamentos feitos possibilitam compreender a questão
do defeito primário (a deficiência em si) e do defeito secundário (a
conseqüência social do defeito) bem como do processo de compensação
e supercompensação. Além desses dois aspectos Vigotski afirma que é a
educação da pessoa com deficiência o principal meio de reduzir ou
minimizar as conseqüências sociais do defeito. Assim sendo, o processo
educacional da pessoa com deficiência deveria ser capaz de criar todas 
as
possibilidades para ela desenvolver-se tanto cognitiva quanto 
socialmente.
Para Vigotski (1997), o processo de interação ocorre num ambiente
social-histórico e cultural e é mediado pela linguagem, pelos
signos e pelos instrumentos. A atividade humana é o motor propulsor
para criar as condições de existência do homem e é também o elemento
acionador de todo o processo de interação homem-homem e
Página 141.
homem-natureza. Este sistema de relações social-histórico e cultural
irá desencadear o desenvolvimento e o uso da linguagem, a formação
e a compreensão dos signos e a atividade de planejamento e 
desenvolvimento
de instrumentos. O uso desses instrumentos certamente
objetivam atender uma necessidade social do próprio homem.
O processo de interação é o responsável por criar todas as
condições para o homem compreender a sua relação com o mundo
e internalizar os conceitos e os conhecimentos historicamente 
produzidos.
Neste sentido, o desenvolvimento da personalidade de qualquer
indivíduo está dirigido pelas exigências de seu papel frente à
sociedade, tendo como base de sustentação as relações sociais, as
quais são consideradas por Adler (FADIMANN,1986), como elementos
fundamentais para o desenvolvimento de qualquer pessoa.
Os instrumentos também são elementos importantes nesse processo.
Neste aspecto, todas as tecnologias produzidas pelo homem
podem ser vistas, segundo a teoria de Vigotski como instrumentos 
mediadores
de atividades e, conseqüentemente de aprendizagem do próprio
homem. Neste caso o computador e o software educacional também
são importantes instrumentos. Entretanto, para que esses instrumentos
possam ser usados na educação especial, eles devem ser desenvolvidos
para atender, de forma abrangente todas as especificidades
dos seus potenciais usuários, em quaisquer áreas da deficiência. Ao
serem desenvolvidos ou adaptados às necessidades da pessoa com
deficiência estes recursos permitem ampliar as possibilidades de acesso
e de acompanhamento de conteúdos sistematizados, se utilizados
nas atividades relacionadas a educação formal. Assim, os recursos
tecnológicos, computador e software entre outros terão uma importante
função social como instrumentos que, associados a uma prática docente
tecnicamente competente e comprometida com a educação poderão
Página 142.
contribuir com o ingresso e permanência das pessoas com deficiência,
seja nos níveis de ensino básico, médio e superior.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise do uso da informática na educação deve ser
contextualizada, pois a forma como ela se configura é inerente ao
sistema capitalista, com seus movimentos contraditórios, entre eles,
as condições materiais concretas da maioria das pessoas e os bens
produzidos historicamente.
Assim, para compreender a informática na educação brasileira/
na educação especial, é necessário aprofundar os estudos sobre os
conteúdos abordados neste artigo: aspectos históricos da informática
na educação com vistas a fatores sócio-econômicos, a inserção da
informática na educação, os recursos tecnológicos aplicados na educação
de pessoas com deficiência visual e deficiência física/motora e o
desenvolvimento cognitivo da pessoa com deficiência na concepção
Vigotskiana. Convém ressaltar também que, além destas questões 
mencionadas,
a educação da pessoa com deficiência deve ser efetivamente
assegurada no que diz respeito à acessibilidade, destacando a redução
de barreiras arquitetônicas, a construção ou adequação de espaços
físicos e a produção de materiais pedagógicos adequados, que
possam contribuir com o seu desenvolvimento cognitivo.
Além disso, com o intuito de assegurar a inclusão no ensino
regular, é necessário fomentar discussões com professores e alunos
nas escolas, buscando romper barreiras atitudinais e criar um ambiente
pautado na consciência e no respeito pela heterogeneidade presente
no homem, não somente na escola, mas em toda sociedade.
Também é de fundamental importância ter clareza de que para
concretizar o processo de inclusão no ensino regular, promover o
Página 143.
desenvolvimento educacional e, conseqüentemente a maior participação
social da pessoa com deficiência, é imprescindível investir em
pesquisas, em recursos materiais e em tecnologias, bem como na
formação continuada de professores para, enfim, propiciar as melhores
condições possíveis no atendimento aos alunos com deficiência.
REFERÊNCIAS
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Paixão de Aprender
9. Secretaria Municipal de Educação. Porto Alegre, RS. 1995.
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de Aula Aula. Campinas: Papirus, 1997.
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informática informática: o paradigma de sua implementação . Recife: 
Protem, 1995.
SAVIANI, D. Análise Crítica da Or Organização anização Escolar 
Brasileira Atra- Através
vés das Leis 5.540/68 e 5.692/71 71. in GARCIA, W. Organização 
Brasileira
Contemporânea. São Paulo. Grau, 1978.
VIGOTSKI, L. S. Fundamentos de defectologia defectologia. In: Obras 
completas.
Tomo cinco. La Habana: Editorial Pueblo y Educación, 1997.
ANEXO A - LIST LISTA A DE F FABRICANTES ABRICANTES DE EQ EQUIP UIP 
UIPAMENT AMENT AMENTOS OS E
PR PROGRAMAS OGRAMAS P PARA ARA DEFICIENTES VISUAIS E SEUS
PRINCIP PRINCIPAIS AIS PR PRODUT ODUT ODUTOS OS
ABBYY, fabricante do FINE READER, um interessante OCR
www.finereader.com
ACCESS SOLUTIONS
Triple riple T Talk alk - Sintetizador de Voz
Notas: Evolução do Double Talk, sendo primeiro sintetizador a
usar a porta USB.
Ainda não possui a língua portuguesa.
http://www.axsol.com/welcome.html
Página 145.
ACCESSIBLE GAMES
Uma página muito interessante com jogos acessíveis para
deficientes visuais
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sp Softwork - Fabricante de vários jogos acessíveis como um
jogo de arcada, un pimball, monkey bussiness....
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AI SQUARED
Zoom T Text ext Lev Level el 1 - Ampliador de ecrã;
Zoom T Text ext Lev Level el 2 - Ampliador e leitor de ecrã;
VisAbility - Ampliador de documentos através de scanner;
BigShot - Ampliador de ecrã, para pessoas não deficientes
visuais.
http://www.aisquared.com/
ALVA
ABT ABT, , Delphi, Delphi Multimédia e Satellite - Linhas, ou
terminais Braille
OutSpoken - Leitor de ecrã, o único para MacIntosh.
http://www.alva-bv.nl/alvacorp/alva_corp_home.html
ARKENSTONE
OpenBook - OCR com apoio vocal e ampliação de ecrã.
Wynn - Programa de leitura para quem tem dificuldades de leitura,
como dislexia. Possui OCR;
Vera era - Máquina de leitura
http://www.arkenstone.org/
Página 146.
ARTIC
WinVision - Leitor de ecrã;
SQw SQwert, ert, Er Ergo o Braille e Braille Pad - NoteTakers Braille;
TransT ransT ransType ype e T TransP ransP ransPort ort - 
Sintetizadores de Voz. Não possuem
a língua portuguesa.
http://www.artictech.com/
BAUM
Vario ario (ou Rabbit) e DM 80 Plus - Linhas, ou terminais, Braille;
113
Vir ir irgo - Leitor de ecrã para Windows 9x e NT;
Galileo - Ampliadores de ecrã;
Web eb Wizard - Exploradores de Internet;
Visio PC - Ampliador de Documentos (CCTV).
http://www.baum.de/English/homeeng1.htm
BETACOM
BisAble - Calculadora científica de caracteres ampliados.
http://www.betacom.com/
BLAZIE
Braille Lite - Note Taker Braille
Type ype Lite - Note Taker Braille
Braille and Speak - Note Taker falado
Type ype and Speak - Note Taker falado
Blazer e Inferno - Impressoras Braille
Power Braille - Linhas, ou terminais Braille
http://www.blazie.com/pages/main.html
Página 147.
BLISTA-BRAILLETEC
Elotype 4 - Máquina de escrever e impressora Braille;
Eurotype / E - Máquina de escrever Braille elétrica;
Elvis-E - Monitor para visualização do que é escrito nas
máquinas Braille.
http://brailletec.de/home_en.htm
CARETEC
LumiT LumiTest est - Identificador de luz;
Colortest - Identificador de cores;
Gluki Plus - Medidor de glicemia com boz;
Sw SweetHeart eetHeart - Medidor de Tensão e pulsação com Voz
http://www.caretec.at/products/englisch/products.html
DANCING DOTS
Good F Feel eel - Tradutor de pautas a negro para Braille
CakeT CakeTalk alk - Scripts do Jaws e manuais para o CakeWalk
http://www.dancingdots.com/
DIGALO
Digalo - sintetizador de voz com língua portuguesa (Brasil)
http://www.digalo.com/
DOLPHIN
Hal - Leitor de ecrã;
Lunar - Ampliador de ecrã;
SuperNova SuperNova- Leitor e Ampliador de ecrã;
Apollo, Juno e Gemini - Sintetizadores de voz hardware;
Orpheus - Sintetizador de voz software.
Cicero d d- OCR;
Cipher - Tradutor Braille.
http://www.dolphinuk.co.uk/
Página 148.
DOSVOX – Sistema de síntese de voz em português e espanhol
http://intervox.nce.ufrj.br/dosvox/download.htm
DUXBURY SYSTEMS
Duxb Duxbury ury - Tradutor Braille.
http://www.duxburysystems.com/
ENNABLING TECNOLOGIES
Romeo, Juliet, etc. - Impressoras Braille
http://www.brailler.com/
EUROBRAILLE
Dracula - Leitor de ecrã;
Clio, Junio e clio eurobraille - Linhas, ou terminais, Braille.
http://www.eurobraille.fr/
FH PAPEMMEYER REHA
Braillex - Linhas, ou terminais, braille;
Braille In - Teclado Braille;
Visulex LP Win - Ampliador de ecrã com apoio vocal.
http://www.papenmeier.de/reha/rehae.htm
FRANK AUDIODATA
Blindows - Leitor de ecrã;
WebF ebF ebFormator ormator - Explorador da Web com Voz;
LeseF LeseFix ix - Máquina de Leitura (Scanner+OCR+Voz)
LapBraille - NoteTaker Braille;
Generation 2000 - Linhas, ou terminais, Braille;
Videolight e E-Mag - Ampliadores de documentos (CCTV);
http://www.audiodata.de/e/index.html
FREEDOM SCIENTIFIC
Jaws - Leitor de ecrã;
Magic - Ampliador de ecrã;
Conect OutLoud - Explorador da Web com voz;
Página 149.
Braille Lite - Note Taker Braille
Type ype Lite - Note Taker Braille
Braille and Speak - Note Taker falado;
Type ype and Speak - Note Taker falado;
Blazer e Inferno - Impressoras Braille
Power Braille - Linhas, ou terminais Braille
OpenBook - OCR com apoio vocal e ampliação de ecrã.
Wynn - Programa de leitura para quem tem dificuldades de
leitura, como dislexia. Possui OCR;
Vera era - Máquina de leitura
http://www.freedomscientific.com/
GW MICRO
Window Eyes e V Vocal ocal Eyes - Leitores de ecrã;
http://www.gwmicro.com/
HANDIALOG
VisioBraille - Leitor de ecrã;
Terminal erminal V VisioBraille isioBraille - NoteTakers Braille.
http://www.handialog.com/indexuk.htm
HANDY TECH
Book W Worm orm - Leitor Braille de textos;
Braille W Wav av ave - Note Taker e linha Braille;
Braille T Top op - Linhas, ou terminais, Braille;
Modular - Linhas braille.
http://www.handytech.com/
HENTER-JOYCE
Jaws - Leitor de ecrã;
Magic - Ampliador de ecrã;
Conect OutLoud - Explorador da Web com voz;
http://www.hj.com/main.html
Página 150.
IBM
Home Pag Page e Reader - Explorador da Web com voz;
ViaV iaV iaVoice oice OutLoud - Sintetizador de Voz, com idioma 
português.
http://www-3.ibm.com/able/
INDEX BRAILLE
Basic, Everest e 4x4 - Impressoras Braille.
http://www.indexbraille.com/
KURZWEIL
Kurzweil 1000 - OCR com voz e ampliação;
MagniRead - Ampliação de documentos com OCR e voz.
http://www.kurzweiledu.com
MICROPOWER
Virtual Vision - Leitor de ecrã brasileiro;
Delta T Talk alk - Sintetizador em português do Brasil;
Delta T Translator ranslator - Tradutor Português-Inglês-Português;
Talking alking Books - Leitor de livros.
http://www.micropower.com.br/
MICROSOFT ACCESSIBILITY
www.microsoft.com/enable
MICROSOFT Intelligent Interface Technologies
www.microsoft.com/iit
MICROTALK
ASAP e ASA ASAW - Leitores de ecrã.
http://www.microtalk.com/
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Página 151.
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Scan and Read - OCR com voz;
Text ext Clone - OCR;
Doc Reader - Leitor de textos.
http://www.premier-programming.com/
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Software de acesso à internet
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ftp.jvnc.net
PROJECTO DOSVOX, um leitor de ecrã muito usado no brasil
http://www.nce.ufrj.br/aau/dosvox/
PULSEDATA INTERNATIONAL
Braille Note - NoteTaker Braille;
Voice oice Note - NoteTaker por Voz;
SmartView - Ampliadores de documentos (CCTV);
KeySoft - Pacote de software, tipo Works, com Voz;
KeyNote - sintetizadores de voz, soft e hardware, sem língua
portuguesa.
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QUANTUM TECHNOLOGY
Mountbaten - Impressora e NoteTaker Braille;
Mimic - Monitor para ver o texto escrito na Mountbatem ou
NoteTakers da Blazie;
Mounty - Tradutor Braille;
QT QTalk alk - Sintetizador de voz;
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Página 152.
ROBOTRON SENSORY TOOLS
Columbus e C2 - Bússolas faladas;
Galileo, Rainbow e Pronto - Máquinas de Leitura;
Ar Area ea e Eur Eureka eka - NoteTakers Braille;
Braille Master - Tradutor Braille.
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SYNTHA-VOICE
Window Bridg Bridge e 2000 - Leitor de ecrã.
http://www.synthavoice.com/
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Orion, P PortaV ortaV ortaVision, ision, Prima V Vision, ision, T 
TeleLupe eleLupe e MaxLupe -
Ampliadores de documentos;
Peg eg egase, ase, V Video ideo Matic e Ar Argus gus - CCTV’s 
ampliadores de
documentos;
WinDif - Leitor e ampliador de ecrã;
Alize, Manag Manager er NT e Zephyr - Linhas e NoteTakers Braille;
TechniPag echniPag echniPage - Máquina de leitura.
http://www.technibraille.fr/accueil.htm
TELESENSORY
Aladino - CCTV’s Ampliadores de documentos;
Aladin Embassador e Reading Edg Edge - Máquinas de leitura.
http://www.telesensory.com/
TIEMA
Voy oy oyag ag ager er - Linha, ou terminal, Braille
Twinkle winkle (Star Star, , Spectrum and Bright) - CCTV Ampliador de
Documentos;
http://www.tieman.nl/tekstuk/tekst1.html
Página 153.
VIRTOUCH
Virtual touch Mouse - Rato, com três células braille (8x4
pontos), para visualização táctil de imagens.
http://www.virtouch.co.il/
VISUAIDE
Victor - Leitor electrónico de livros;
Proverbe - Sintetizador de voz, adaptação do Digalo.
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ELECTRO SERTEC - Representante de vários fabricantes
www.electrosertec.pt/
TIFLOTECNIA - venda de material Tiflotécnico
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nomeadamente: AiSquared, Caretec, GwMicro, Index,
PulseData, Visuaide e Zychem.
www.ataraxia.pt
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VISUAIS
www.cmdv.com.br
BENGALA BRANCA - Empresa brasileira que vende material
tiflotécnico
www.bengalabranca.com.br/
Página 154 - Em branco.
Página 155.
CAPÍTULO VI
AS PESSOAS COM DEFICIÊNCIAE A LÓGICA D DA A ORGANIZAÇÃO
DO TRABALHO NA SOCIEDADE CAPITALISTA
Alfredo Roberto de Carvalho1
Paulino José Orso2
1 Professor Pedagogo da SEED/PR, Professor Colaborador da Universidade
Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE, Membro do Programa
Institucional de Ações Relativas as Pessoas com Necessidades
Educacionais Especiais -PEE, Membro do HISTEDOPR, Membro
do Conselho Deliberativo da ACADEVI – Associação Cascavelense
de Pessoas com Deficiência Visual.
2 Doutor em História e Filosofia da Educação pela Unicamp, docente
do Curso de Pedagogia da Unioeste e Líder do Grupo de Pesquisa
em História, Sociedade e Educação no Brasil – GT da Região Oeste
do Paraná – HISTEDOPR.
Página 156.
“(...)a ciência moderna deve dar ao cego o direito
ao trabalho social não em suas formas
humilhantes, filantrópicas, de inválidos (como
se tem cultivado até o momento), senão as formas
que respondem à verdadeira essência do
trabalho, unicamente capaz de criar para a personalidade
a posição social necessária”
(VIGOTSKI, 1997, p. 87).
Este postulado apresentado por Vigotski já na terceira década
do século XX, ao discutir as possibilidades para a existência dos cegos
e que compõe a sua teoria sócio-psicológica (ciência moderna), não é
uma exclusividade destas pessoas, mas um princípio que deve ser 
aplicado
a todos aqueles com deficiência3 física, sensorial e mental. Ele
aponta na direção oposta em relação àquilo que vem sendo desenvolvido
ao longo da história, principalmente na sociedade capitalista, isto
é, na exclusão deste segmento do processo produtivo e do aproveitamento
de alguns em tarefas parcamente remuneradas e extremamente
degradantes, tanto do ponto de vista físico quanto sócio-psicológico.
Apesar desta proposição estar sendo defendida dentro de uma
realidade marcada por profundas transformações sociais, como no caso
da União Soviética daquele momento, ela também necessita ser defendida
no interior das relações capitalistas de produção, como mais uma
forma de denunciar o caráter excludente que está presente nesta 
sociedade.
Para tanto, é indispensável que as próprias pessoas com deficiência,
bem como, aqueles que atuam junto a este segmento compreendam que
3 Para efeito deste trabalho, considera-se deficiência como sendo “toda
perda ou anormalidade de uma estrutura ou função psicológica, 
fisiológica
ou anatômica que gere incapacidade para o desempenho de atividade,
dentro do padrão considerado normal para o ser humano” (BRASIL,
1999, art. 3º, inc. I).
Página 157.
todos, independente de suas dificuldades físicas, sensoriais e mentais
podem e têm o direito de contribuir para o processo de produção dos
meios de vida de que a humanidade necessita para a sua existência.
Este artigo pretende levantar e refletir alguns aspectos, que no
entender de seus autores, são indispensáveis para compreender as
condições de existência das pessoas com deficiência na sociedade
atual, principalmente em relação a situação destas diante do processo
produtivo. Para tanto, é indispensável situar e analisar a questão
dentro da lógica da relação capitalista de produção, buscando retirar
o véu ideológico que vem ocultando as principais causas de um
problema, que não só tem privado este segmento social do direito de
atuarem no processo de produção de seus meios de vida e, com
isto, tem impedido de compor o sujeito histórico de seu tempo.
Ao longo da existência da humanidade, os homens, através das
constantes lutas para produzir os meios de vida, vêm vivenciando
diferentes formas de organização social. A forma de propriedade
dos meios de produção e a relação de trabalho existente, caracterizam
os períodos históricos. Com o estabelecimento das sociedades
classistas, a história da humanidade passou a ser determinada a partir
do desenvolvimento das contradições entre as antagônicas classes,
presentes em cada modo de produção. Isto significa afirmar que
(...) a história de todas as sociedades que existiram até nossos dias
tem sido a história das lutas das classes. Homem livre e escravo,
patrício e plebeu, senhor e servo, mestre de corporação e oficial,
numa palavra, opressores e oprimidos, em constante oposição, têm
vivido uma guerra que terminou sempre, ou por uma transformação
revolucionária da sociedade inteira, ou pela destruição das suas
classes em luta (MARX e ENGELS, 2001, p. 8).
Mas este processo transformador, constituinte da história humana,
não tem sido acessível a uma parcela da população. Ao se
Página 158.
analisar as condições de existência das pessoas com deficiência ao
longo da história, principalmente daquelas pertencentes as classes 
sociais
exploradas, pode-se afirmar que elas sempre estiveram à margem
destes acontecimentos históricos. Isto vem ocorrendo mesmo a partir
do momento em que elas passaram a ter o direito à vida - final do
modo de produção escravista e início do feudal -, já que livram-se do
extermínio, mas ficam fora do processo produtivo e, desta forma, 
impedidas
de participarem ativamente dos grandes embates sociais.
Buscando romper com esta trajetória excludente, nas últimas
décadas vem se verificando uma intensificação das lutas das próprias
pessoas com deficiência pela sua inclusão social. Para que esta luta
poça contribuir com o processo de inclusão deste segmento, faz-se
necessário que a mesma se atenha as bases fundantes da exclusão destas
pessoas. Neste sentido, é necessário examinar as estruturas 
constituintes
do processo produtivo, pois ela tem sido a base sobre a qual se
assenta toda uma prática excludente que perpassa toda a história da
humanidade, inclusive na atualidade. Segundo PASTORE4 (2000, p. 7),
o Brasil é possuidor de um dos maiores contingentes de pessoas com
deficiência (16 milhões), sendo que destes, 60% encontram-se em idade
de trabalhar e 98% dos mesmos encontram-se desempregados.
Este dado revela que aqueles que pertencem a esse segmento
social não estão conseguindo nem se colocarem enquanto mão-deobra
a ser explorada pelos capitalistas. Como decorrência de tal fato,
os mesmos não vêm encontrando condições de serem provedores de
4 A compreensão deste autor a respeito da exclusão das pessoas com 
deficiência
do mercado de trabalho vai numa direção oposta a aquela defendida
neste artigo. No entanto, alguns dados apresentados no seu livro
intitulado Oportunidades de Trabalho Para Portadores de Deficiência,
podem auxiliar no desvelamento das verdadeiras causas que vem na 
atualidade
excluindo este segmento social.
Página 159.
sua própria existência e, desta forma, impedidos de viverem dentro
da dignidade pregada pela burguesia, já que, conforme a ideologia
vigente, “é o trabalho que dignifica o homem”.
Como resultado da exclusão do processo produtivo, estas pessoas
são consideradas improdutivas, inúteis, incapazes, um fardo pesado ou
uma cruz a ser carregada pela família e pela sociedade. Esta concepção
desconsidera a possibilidade das mesmas em se constituírem enquanto
sujeitos e, desta forma, transformam-nas em objetos da caridade e da
filantropia. Nesta forma de tratamento, as pessoas com deficiência 
quase
sempre são concebidas como doentes ou como seres eternamente infantis.
Esta forma de compreender e tratar as pessoas com deficiência
não é específica de uma classe da sociedade e nem do seu setor
menos esclarecido. Mesmo aqueles que dispõem de uma cultura erudita
ou que conseguem formular uma consciência crítica a respeito
da realidade, reproduzem em sua práxis quase as mesmas atitudes
preconceituosas e discriminatórias em relação àqueles que pertencem
a esse segmento social. Via de regra, não percebem que as pessoas
com dificuldades físicas, sensoriais e mentais também compõem
a totalidade social. Porém, as formas como vivenciam as contradições
não são iguais para todos. Além disso, quase sempre, reduzemse
as causas das dificuldades enfrentadas pelas mesmas às suas 
características
pessoais, desresponsabilizando as barreiras sociais e,
com isto, naturalizam a segregação de que são vítimas.
Embora as práticas excludentes não sejam exclusivas da sociedade
burguesa, já que nas sociedades anteriores, quase sempre, prevaleceram
os procedimentos do extermínio, do abandono e do isolamento,
é na atualidade que elas merece ser profundamente questionadas,
pois o nível de desenvolvimento das forças produtivas permite que todas
as pessoas, independente de suas condições físicas, sensriais e
Página 160.
mentais, possam estar inseridas socialmente, produzindo e usufruindo
das conquistas da humanidade.
A sociedade burguesa, que começou a ser edificada com o fim do
feudalismo e o surgimento do modo de produção capitalista, foi fazendo
com que aos poucos os tradicionais costumes medievais fossem perdendo
força e, em seu lugar, nascesse a cultura moderna. Conforme nos diz 
Anibal
Ponce (1992) “os burgueses compraram as suas terras; a pólvora derrubou
os seus castelos. Os navios apontavam agora as rotas de um continente
remoto, mais inacessível do que as princesas de Trípoli, que só poderia 
ser
conquistado mediante a indústria e o comércio” (p. 112).
Com a implantação do capitalismo o modo de produzir transformou-
se profundamente. Rompeu-se com o modo de produção feudal,
com as corporações de ofícios e estabeleceu-se uma nova forma de
propriedade onde o trabalho assalariado transformou-se na chave do
processo produtivo. Inicialmente ocorreu o advento das manufaturas,
em que o trabalhador passou a executar apenas atividades simples e
rotineiras. Mais tarde, devido à crescente intervenção da ciência como
força produtiva, passou-se ao sistema da fábrica e da indústria e o
homem passou a ser um simples acessório da máquina.
Esse processo de transformação das relações de produção,
que deslocou massas inteiras da população não somente das oficinas
artesanais para as fábricas, mas, também dos campos para a
cidade, produziu novas necessidades e fez surgir novas classes sociais:
a burguesia e o proletariado.
A classe burguesa compõe-se dos grandes proprietários não trabalhadores
que possuem os meios de produção na indústria e na agricultura.
São eles que organizam o trabalho nas empresas que lhes
pertencem e, sob a forma de lucro, apropriam o produto suplementar
criado pelo trabalho não pago dos operários assalariados
(HERMAKOVA e RÁTNIKOV, 1986, p. 49).
Página 161.
De outro lado, encontram-se os trabalhadores, que na sociedade
primitiva já haviam sido comunitários, escravos na antigüidade
e servos de gleba na Idade Média, que, com o capitalismo, passaram
a condição de proletários, ou seja, de “operários assalariados privados
dos meios de produção e dos meios de subsistência. Para viver,
os operários são obrigados a trabalhar como assalariados para os
capitalistas, vendendo-lhes a sua capacidade de trabalhar, ou a sua
força de trabalho” (HERMAKOVA e RÁTNIKOV, 1986, p. 49).
A ação do capitalista no processo produtivo, tem por finalidade a
extração da mais-valia, de onde obtém o lucro. Para tanto, seus 
empreendimentos
estão assentados na compra e venda de mercadorias, as quais
possui um valor de troca que, como diz Marx, é determinado “(...) pela
quantidade da ‘substância criadora de valor’ que aí se acha contida - o
trabalho. A própria quantidade de trabalho é medida pela sua duração, e
o tempo de trabalho é medido por seu turno, segundo certos intervalos
de duração fixa, tais como hora, jornada, etc” (1982, p. 26).
A força de trabalho do operário é também ela uma mercadoria
que precisa ser diariamente vendida pelo seu possuidor. Como 
mercadoria,
o valor desta força de trabalho mede-se da mesma forma
como se mede o valor de qualquer mercadoria “pelo tempo de trabalho
necessário à sua produção e, consequentemente, também para
sua reprodução” (MARX, 1982, p. 31).
Apesar da determinação do valor da força de trabalho ser o
mesmo das demais mercadorias, ela possui um elemento fundamental
que a distingue radicalmente de todas as demais: trata-se da sua
capacidade de, ao longo do processo produtivo, gerar um valor maior
do que ela mesma vale. Esta quantidade de riqueza adicional que
excede ao valor da força de trabalho é a mais-valia. Segundo Marx,
(...) a mais-valia é produzida pelo emprego da força de trabalho. O
capital compra a força de trabalho e paga em troca o salário. 
Trabalhando,
Página 162.
o operário produz um novo valor, que não lhe pertence, e
sim ao capitalista. É preciso que ele trabalhe um certo tempo para
restituir unicamente o valor do salário. Mas isso feito, ele não pára,
mas trabalha ainda mais algumas horas por dia. O novo valor que
ele produz agora, e que ultrapassa então ao montante do salário, se
chama mais-valia (1982, p. 53).
O capitalismo, que está assentado na propriedade privada dos meios
de produção, na relação assalariada de trabalho, na produção de 
mercadorias
e na obtenção do lucro por meio da extração da mais-valia, desde
seus primórdios procurou colocar homens, mulheres e crianças a serviço
do processo de acumulação. Para isso, os burgueses, além de arrancar o
trabalhador da terra e provocar a ruína dos artesãos, mercantilizaram 
praticamente
tudo aquilo que os homens necessitam para sobreviver. Este fato,
que foi crescendo ao longo do desenvolvimento do modo de produção
capitalista, acabou obrigando as pessoas a se submeterem a lógica do
mercado burguês para sobreviver, onde uma mercadoria deve ser trocada
por outra, mediada simbolicamente pelo dinheiro. Para sobreviver nesta
relação, a imensa maioria da população necessita estar inserida no 
processo
produtivo na condição de empregado, produzindo, direta ou 
indiretamente,
os recursos que possam garantir sua existência.
Apesar desta necessidade estar colocada a todos aqueles que
pertencem a classe trabalhadora, uma parcela da mesma não consegue
se inserir nas relações assalariadas de trabalho. Isto ocorre porque,
“com a acumulação do capital produzida por ela mesma, a população
operária produz pois, em proporções incessantemente crescentes, os
meios de se tornar excedente” (MARX, 1982, p. 160). Este excedente
populacional, que torna-se maior ou menor, dependendo das necessidades
do capital e que é produzido a partir da riqueza gerada pela
própria classe operária, “forma para a indústria um exército de reserva
sempre disponível, e do qual o capital tem inteira propriedade, como
se ele o tivesse criado com seus próprios gastos” (MARX, 1982, p. 161).
Página 163.
Na retaguarda deste exército de reserva de força de trabalho
estão aqueles que possuem uma capacidade produtiva menos rentável
para os detentores do capital. Dentre estes, encontram-se as pessoas
com deficiência, para as quais o modo de produção capitalista
vem negando até a possibilidade de serem exploradas numa relação
de trabalho formal. Ao contrário do que muitos imaginam, existe uma
quantidade expressiva de pessoas com deficiência na sociedade.
A ONU estima que 10% da população mundial apresenta algum tipo
de limitação, incluindo-se as restrições leves, moderadas e 
severas.(...) Os
portadores de deficiência se concentram nos países mais pobres. Mais de
400 milhões de portadores de deficiência vivem em zonas que não dispõem
dos serviços necessários para ajudá-los a superar as suas limitações
(ELWAN apud PASTORE, 2000, p. 72).
Aplicando-se as estimativas da Organização Mundial da Saúde,
pode-se afirmar que no Brasil existem mais de 16 milhões de pessoas
com deficiência. Destas, “estima-se em 9 milhões as que estão em idade
de trabalhar. Mas as que trabalham, formal e informalmente, mal chegam
a um milhão - pouco mais de 10% “ (PASTORE, 2000, p. 73).
O lado mais perverso desta realidade reside no fato de que a
maioria das pessoas com deficiência que estão trabalhando, encontram-
se atuando de maneira informal, em entidades que aproveitam-se
desta condição para segregá-las do convívio social e aproveitá-las 
enquanto
mão-de-obra semi- escrava. Além disto, muitas acabam caindo
na mendicância ou desenvolvendo atividades muito próximas desta.
No Brasil, dentro do que se chama trabalho, a vasta maioria é 
constituída
de pedintes de rua (principalmente cegos e portadores de
limitações físicas), camelôs que trabalham irregularmente, vendedores
de bilhete de loteria, distribuidores de adesivos nos semáforos
e os que pedem dinheiro em nome de entidades que cuidam de
portadores de deficiência (RIBAS apud PASTORE, 2000, p. 73).
Página 164.
Levando-se em consideração apenas as pessoas com deficiência
que trabalham de maneira formal, este número cai de forma drástica, 
pois,
(...) se formos considerar como trabalho a atividade que é exercida de
forma legal, com registro em carteira de trabalho ou de forma autônoma,
mas com as devidas proteções da seguridade social, é bem
provável que essa proporção fique em torno de 2% do total de portadores
de deficiência em idade de trabalhar do Brasil -180 mil pessoas
(PASTORE, 2000, p. 74).
Estes números reduzem-se ainda mais se analisarmos o emprego
industrial no Brasil. Segundo estudo, realizado em 1999 pelo SENAI
- Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial - junto a uma amostra
de 516 empresas, foi possível verificar que
(...) de um total de 337.580 empregados registrados naquelas empresas,
2.414(0,7%) foram considerados como portadores de deficiência.
Por esse dado, o emprego formal atinge menos de 1% do
emprego do setor industrial. Ademais, os poucos que entram no
segmento formal têm dificuldade de nele permanecer por muito tempo.
Acabam saindo prematuramente e demoram para voltar
(PASTORE, 2000, p. 74-75).
Esta exclusão é um pouco menor nos países desenvolvidos, onde
a combinação de diversos programas sociais tem feito com que uma
quantidade expressiva de pessoas com deficiência consigam ingressar
no mercado de trabalho. “Quando se consideram os portadores de
deficiência de todos os níveis de gravidade - leves, moderados e 
severos
- na Europa e Japão, a proporção dos que estão em idade de trabalhar
e que trabalham varia entre 30% e 45%” (PASTORE, 2000, p. 75).
Na busca do entendimento desta situação vivenciada pelas pessoas
com deficiência, as explicações quase sempre recaem nos seguintes
fatores: na carência de escolaridade e qualificação profissio-
Página 165.
nal dos mesmos; na dificuldade em se ter acesso a tecnologias que
possam potencializar a vida e, por conseqüência, a produtividade de
sua força de trabalho; na existência de barreiras arquitetônicas e
atitudinais e; na necessidade de se formular uma eficaz legislação
que leve os empregadores a se interessarem pela exploração da 
capacidade
produtiva daqueles que pertencem a esse segmento social.
Numa análise rápida e desprovida de um método que permita
compreender a realidade social na sua essência, poder-se-ia atribuir
maior ou menor peso a qualquer um destes fatores ou admitir que a
soma de todos eles constitui a razão fundamental que exclui as pessoas
com deficiência do processo produtivo. Não se pode negar que
os empregadores, devido à existência de um exército de mão-deobra
de reserva cada dia maior, vem ampliando as exigências de escolaridade
e de qualificação profissional para os seus funcionários.
Apesar desta exigência, na maior parte dos países, principalmente
nos subdesenvolvidos e nos em desenvolvimento, a grande
maioria dos cegos, dos surdos e daqueles com graves dificuldades
físicas ou mentais, não recebem nenhum tipo de educação formal.
“Segundo a Secretaria de Educação Especial do Ministério da Educação,
contando-se todas as séries das escolas públicas e particulares,
há, no Brasil, pouco mais de 300 mil alunos portadores de deficiência
matriculados” (MEC apud PASTORE, 2000, p. 207). Ao se analisar
este fato, poder-se-ia afirmar que ele decorre, dentre outras razões,
do despreparo do professor para ensinar o aluno com necessidades
educacionais mais diferenciadas; das barreiras físicas existentes
nas instalações escolares; da falta de recursos didático- pedagógicos
adequados a esses educandos e das atitudes preconceituosas
que permeiam todos os segmentos da sociedade.
Porém, para que se possa ir à raiz do problema educacional das
pessoas com deficiência, faz-se necessário compreender o porquê do
Página 166.
surgimento e expansão da educação formal na sociedade capitalista.
Para MANACORDA (1997, p. 198), ela tem uma finalidade técnica e
política, isto é: instruir para o trabalho e preparar para as relações
sociais burguesas. Já XAVIER, (1990, p. 60-61), afirma que a mesma
tem cumprido uma função ideológica, pois o liberalismo atribui a uma
educação escolar pública, gratuita e de qualidade, o instrumento capaz
de garantir as mesmas oportunidades a todos os indivíduos e, desta
forma, isentando as desigualdades sociais.
Apesar do esforço de muitos educadores comprometidos com
uma educação crítica, a escola se encontra inserida numa sociedade
capitalista que, em ultima instância, determina os seus objetivos, que
tem sido o de preparar os homens para viverem nesta sociedade, isto é:
serem produtivos, lidarem com as normas sociais e assimilarem a 
ideologia
liberal. Do ponto de vista do capital, estas ações educacionais
são desnecessárias em relação as pessoas com deficiência, pois as
mesmas encontram-se na retaguarda do exército de mão-de-obra de
reserva, com mínimas possibilidades de serem aproveitadas no processo
produtivo; vivem uma existência segregada, em instituições ou
mesmo no âmbito familiar e acabam sendo tuteladas e, ainda, a condição
de inferioridade pode ser justificada pela própria limitação física,
sensorial e mental. São por estas razões que cegos, surdos e aqueles
com graves dificuldades físicas ou mentais, na sua grande maioria, 
acabam
não dispondo da formação necessária para se colocarem em pé
de igualdade, do ponto de vista da formação escolar, com as demais
pessoas no momento de disputar uma vaga no mercado de trabalho.
No que se refere ao desenvolvimento tecnológico, não se pode
negar que os homens, por meio dos seus embates para sobreviver,
vêm produzindo um conjunto de conhecimentos que poderiam estar
a serviço da potencialização da existência de toda a humanidade. No
Página 167.
capitalismo, com o advento do maquinismo e, mais recentemente, com
o desenvolvimento da informática, muitas tarefas que até outrora eram
impossíveis ou muito difíceis de serem desenvolvidas tornaram-se 
“perfeitamente”
realizáveis por qualquer pessoa, incluindo aquelas que
possuem algum tipo de deficiência mais grave. As novas tecnologias
estão viabilizando certas atividades até então impensáveis (...). Esse 
é
o caso da informática e das telecomunicações. Essas tecnologias estão
permitindo aos portadores de deficiência um domínio de atividades
até pouco tempo inexeqüíveis (PASTORE, 2000, p. 86).
Apesar deste grande desenvolvimento tecnológico, na prática,
ele não pode equiparar a capacidade produtiva das pessoas e muito
menos, colocar todos aqueles que possuem alguma deficiência em
pé de igualdade com os demais trabalhadores no momento de buscar
uma vaga no mercado de trabalho. Esta impossibilidade decorre 
basicamente
de três fatores os quais são condicionados pela lógica do
empreendimento capitalista.
O primeiro refere-se a apropriação privada das tecnologias por
parte da classe dominante, que acaba impedindo que a maioria da 
população,
dentre ela, as pessoas com deficiência pertencentes à classe explorada,
possa ter acesso àquelas de uso pessoal, (computadores adaptados,
aparelhos auditivos, bengalas, cadeiras de rodas motorizadas, bons
serviços de reabilitação e habilitação etc.).
O segundo diz respeito ao fato de que, por mais desenvolvidas
que possam ser as tecnologias, não têm conseguido substituir os órgãos
dos sentidos, a ausência ou anormalidade de membros do corpo
humano e nem graves deficiências mentais ao ponto de tornarem a
capacidade produtiva deste segmento social tão rentável para o 
capitalista
quanto a dos demais trabalhadores. Para exemplificar o fato
de que as tecnologias não podem garantir às pessoas com deficiência
Página 168.
a mesma produtividade no trabalho, basta imaginar um surdo na
atividade de atendimento ao público, um cego mexendo com a burocracia
de uma empresa e alguém com sérias deficiências físicas submetida
ao ritmo frenético de uma fábrica. Alguns pesquisadores ao
procurarem demonstrar o potencial produtivo das pessoas com 
deficiência,
apresentam como exemplos, dentre outros, cegos eletricistas
de rua e tetraplégicos arquitetos.
Como as estatísticas indicam, estes são apenas exceções, mas
os mesmos são propagandeados enquanto verdadeiros modelos a
serem seguidos por todos. Esta propaganda serve muito mais como
instrumento ideológico para justificar a ordem vigente, pois contribui
para reforçar a falsa idéia de que no capitalismo todos têm 
oportunidades
de vencer na vida e até mesmo aqueles que “naturalmente”
estão em desvantagem, quando imbuídos de boa vontade, podem superar
suas dificuldades e conquistar seu espaço na sociedade.
O terceiro refere-se ao fato de que a tecnologia da produção
capitalista é desenvolvida a partir das necessidades impostas pelo
tipo de mercadoria a ser produzida e está “adequada” a exploração
de um padrão médio de ser humano. Neste processo, o trabalhador
não pode adequar os equipamentos de trabalho segundo as suas 
necessidades
específicas mas, sim, deve estar ajustado aos mesmos,
como já denunciava MARX (1982), ao falar sobre o advento do maquinismo:
“O operário não domina as condições de trabalho, é dominado
por elas” (p. 113). Diante deste processo o homem torna-se uma
extensão do instrumento de trabalho, tendo que atender às exigências
do mesmo e, desta forma, tornando-se uma espécie de homem-máquina.
Neste sentido, os órgãos do corpo humano ganham novas definições:
os olhos são faróis, o coração é visto como uma bomba, os
rins são filtros, os braços e mãos são guindastes ou pinças, os nervos
Página 169.
são percebidos como fios condutores e, mais recentemente, o cérebro
passou a ser considerado como um computador perfeito.
Numa sociedade onde a força de trabalho está colocada como
uma mercadoria, que deve funcionar como a extensão da máquina e
possuir a precisão de um relógio, a pessoa com deficiência que tenha
alguma limitação acentuada, passa a ser considerada um mecanismo
defeituoso e, sendo assim, com maiores dificuldades de satisfazer as
necessidades de seu comprador, ou seja, a de gerar maior quantidade
de lucro para o capitalista. “Se o corpo é uma máquina, a 
excepcionalidade
ou qualquer diferença nada mais é do que a disfunção
de alguma peça dessa máquina. Ou seja, se na Idade Média a diferença
estava associada a pecado, agora passa a ser relacionada à 
disfuncionalidade”
(BIANCHETTI, 1998, p. 35).
Tal disfuncionalidade pode estar apenas na perda de um dedo,
provocado por uma mutilação sofrida pelo trabalhador. Esta constatação
já era denunciada num fragmento de um relatório do século XIX, que
tratava dos acidentes nas fábricas inglesas. No mesmo, datado de 31 de
outubro de 1855, o inspetor Leonard Horner faz o seguinte comentário:
Certos empregadores falaram com uma frivolidade indesculpável
de certos acidentes, como a perda de um dedo que eles consideram
como uma bagatela. A vida e o futuro de um operário dependem de
tal forma de seus dedos que tal perda constitui para ele um 
acontecimento
trágico. Quando escuto essas palavras absurdas, pergunto:
Suponhamos que vocês tivessem necessidade de um novo operário
e que para isso se apresentassem dois, ambos igualmente
capacitados, mas um não tendo mais o polegar ou o indicador: qual
escolheriam? Sem nenhuma hesitação, escolheriam o que tivesse
todos os dedos (HORNER apud MARX, 1982, p. 116).
As barreiras arquitetônicas e atitudinais, que consistem na falta
de adequações às necessidades específicas das pessoas com deficiência
Página 170.
como as de edificações e de meios de transportes, bem como
a rejeição àquele que destoa do padrão físico, cognitivo e sensorial
pré-estabelecido, também se tornam mais um elemento que contribui
para a exclusão do mercado de trabalho deste segmento social.
Por isso, os empregadores precisam ser educados e estimulados a
fazer uma ‘acomodação razoável’ para exercer as suas atividades no
máximo de sua potencialidade. Por exemplo: se o prédio onde está o
local de trabalho tem cinco degraus, esses degraus constituem uma
barreira para quem tem competência profissional, mas usa cadeira de
rodas. Uma acomodação razoável consistiria na eliminação desses
degraus ou na construção de uma rampa - ajudados por linhas de
financiamento, quando necessárias (PASTORE, 2000, p. 64).
Porém, estas barreiras, não podem ser entendidas apenas como
o resultado de atitudes preconceituosas e discriminatórias, que brotam
na cabeça dos homens sem a existência de razões objetivas. Pelo
contrário, necessitam ser compreendidas como decorrentes da lógica
da organização do processo de produção capitalista, o qual, como
foi mencionado, está voltado fundamentalmente para permitir ao dono
do capital a obtenção da maior quantidade de lucro possível. Para
atingir tal objetivo, o burguês organiza o processo produtivo em 
conformidade
com as conveniências do lucro onde, dentre outras medidas
a substituição de escadas por rampas, as modificações nas instalações
sanitárias, a predisposição dos instrumentos de produção e a
aquisição de tecnologias adaptadas faz com que o capitalista tenha
de investir uma quantidade maior de capital para obter, na melhor
das hipóteses, a mesma quantidade de mercadorias. Mesmo quando
a produtividade da pessoa com deficiência for semelhante a dos demais
trabalhadores, havendo a necessidade de modificações no processo
produtivo, estas encareceriam as mercadorias e fariam com
que diminuísse o lucro do capitalista.
página 171.
Apesar do capitalismo não se interessar pela exploração da
força de trabalho das pessoas com deficiência, pois há outros que
respondem melhor ao seu empreendimento, elas estão presentes na
sociedade e necessitam, dentre outras coisas, de alimentos, de moradias
e de vestimentas e, para adquirir estes bens, precisam vender a
sua capacidade de produzir. Com a finalidade de tentar abrir uma
brecha no excludente processo de produção capitalista, este segmento
social, em especial aqueles que pertencem à classe trabalhadora, há
algum tempo vem cobrando do Estado algumas medidas que possam
contribuir para a sua inserção no mercado de trabalho.
Porém, para o setor mais esclarecido deste segmento social,
esta luta não deve estar alicerçada na tradicional política da
sensibilização dos empregadores, pois a burguesia não se tornou a
classe dominante por meio da prática da filantropia, empregando as
pessoas apenas com a finalidade de oportunizar a estas as condições
de produzirem os seus meios de vida, mas pelo contrário, o fez
objetivando explorá-las sem piedade, arrancando da sua capacidade
produtiva a maior quantidade de lucro possível, obrigando-as a 
trabalharem
até o limite de suas forças.
Por não possuírem uma estrutura física, sensorial e ou mental,
rentável para o capital, as pessoas com deficiência vêm buscando o
estabelecimento de algumas medidas legais que possam auxiliar na
sua inserção no mercado de trabalho. Neste sentido, como uma das
principais conquistas deste segmento social, encontra-se a política
de cotas - reserva de um percentual de postos de trabalho para as
pessoas com deficiência. Na historiografia existem relatos apontando
que, já no século XIX, tal procedimento era adotado. “Em 1815,
no Parlamento inglês, assinalou-se o caso de uma paróquia de Londres
que estabeleceu um contrato com um fabricante do Lancashire
Página 172.
pelo qual este se comprometia a receber, por cada 20 crianças sãs
física e mentalmente, uma idiota” (MARX, 1982, p. 189).
Com o advento da Primeira Guerra Mundial, aumentou consideravelmente
o número de pessoas com deficiência e, por conseqüência,
a luta por emprego para este segmento social. Como resultado
destas reivindicações,
(...) em 1923 a OIT recomendou a aprovação de leis nacionais que
obrigavam entidades públicas e privadas a empregar um certo montante
de portadores de deficiência causada por guerra. Em 1944, na
Reunião de Filadélfia, a OIT aprovou uma recomendação, visando
induzir os países-membros a empregar uma quantidade razoável de
portadores de deficiência não-combatentes (PASTORE, 2000, p. 157).
Esta recomendação da Organização Internacional do Trabalho
foi transformada em lei em muitos países, dentre eles, o Brasil. Na
legislação brasileira, duas leis merecem ser destacadas. A primeira
(Lei 8112) criou uma reserva de empregos para pessoas com deficiência
nos órgãos civis da União, autarquias e fundações públicas federais,
ao estabelecer que “(...) às pessoas portadoras de deficiência é
assegurado o direito de se inscrever em concurso público para o 
provimento
de cargo cujas atribuições sejam compatíveis com a deficiência de
que são portadoras; para tais pessoas eram reservadas até 20% das vagas
oferecidas no concurso” (BRASIL, 1990, art. 52, inc. II).
A Segunda (Lei 8213), por sua vez, estabeleceu cotas compulsórias
a serem respeitadas pelas empresas privadas na admissão e
demissão de pessoas com deficiência. Em conformidade com esta lei
(...) a empresa com 100 (cem) ou mais empregados está obrigada a
preencher de 2% (dois por cento) a 5% (cinco por cento) dos seus
cargos com beneficiários reabilitados ou pessoas portadoras de 
deficiência,
habilitadas, na seguinte proporção: I - de 100 até 200 empregados
Página 173.
2%; II - de 201 a 500 3%; III - de 501 a 1.000 4%; IV - de 1.001 em
diante 5% (BRASIL, 1991, art. 93, inc. I - IV).
Mesmo que todas as empresa cumprissem esta última lei, a quantidade
de pessoas com deficiência que adentrariam no mercado de trabalho
estaria muito aquém daqueles que necessitam trabalhar. Nesta 
perspectiva,
analisando-se os dados de 1998, teríamos o seguinte panorama:
(...) para cumprir a cota de 2%, as empresas de 100 a 200 empregados
teriam de contratar 35.007 portadores de deficiência; no caso da cota
de 3%, as que possuem de 201 a 500 empregados teriam de empregar
74.096 pessoas; para a cota de 4%, as empresas de 501 a 1.000 
empregados
teriam de recrutar 74.967 portadores; e, para o caso dos 5%, as
empresas com mais de 1.000 empregados teriam de admitir 306.891
pessoas. Isso dá quase 500 mil pessoas (PASTORE, 2000, p. 206).
Ao comparar estas duas leis, pode-se perceber que a primeira,
do ponto de vista legal, oferece mais postos de trabalho para as 
pessoas
com deficiência, do que a última. A explicação para o fato da reserva
do serviço público (de 5% a 20%), ser maior que a da iniciativa
privada (1% a 5%), é mais um outro elemento que auxilia na demonstração
de que o burguês rejeita a força de trabalho deste segmento da
sociedade. Afinado com os interesses do capital, o legislador preferiu
estabelecer uma quantidade maior de postos de trabalho naquele setor
que não está submetido à lógica da produção capitalista.
Atendo-se ao fato de que no Brasil a quantidade de pessoas com
deficiência que estão em idade de trabalhar é de nove milhões, que a
lei lhes reserva em torno de 500 mil postos de trabalho no setor 
privado
e que o número daqueles que conseguem se empregar é inferior a
200 mil, pode-se afirmar que estes dados também ajudam a explicitar a
rejeição da burguesia em explorar tal força de trabalho. Esta 
explicitação
ocorre de três formas: na necessidade de se estabelecer leis para 
tentar
Página 174.
obrigar o empregador a explorar a capacidade produtiva da pessoa
com deficiência; na quantidade de vagas reservadas na iniciativa 
privada,
as quais, se fossem cumpridas, atenderiam apenas a uma pequena
minoria, isto é, pouco mais de 5% das que estão em idade de trabalhar;
e a resistência dos empresários em cumprir tal dispositivo legal.
Nos países desenvolvidos, apesar da quantidade de pessoas com
deficiência que estão inseridas no mercado de trabalho ser bem maior,
a legislação e a prática adotada em relação a esse segmento social,
também revela o desinteresse dos empregadores pela sua capacidade
de trabalhar. Na maioria dos mesmos, existem cotas, combinadas com
incentivos aos empregadores, que exploram esta capacidade produtiva
e opções para aqueles que não pretendem adotar tal procedimento. Já
alguns têm preferido flexibilizar a legislação trabalhista, admitindo 
remuneração
inferior dentro de uma mesma função para aqueles que não
alcançam a mesma produtividade.
Dentre as medidas adotadas pelos países que combinam políticas
de cotas com incentivos econômicos aos empregadores,
objetivando o ingresso das pessoas com deficiência no mercado de
trabalho e que ajudam a confirmar a hipótese defendida neste artigo,
podem ser destacadas a complementação de salário do trabalhador,
feita diretamente ao mesmo por meio de recursos estatais. Esta medida
é adotada porque “muitas vezes, a pessoa trabalha apenas uma
parte do dia e a complementação cobre a outra parte. Outras vezes,
ela tem um salário menor na empresa e a complementação iguala-a
aos não-portadores de deficiência” (PASTORE, 2000, p. 147). Podese,
ainda, destacar a redução de contribuições sociais, dentre outras,
a previdenciária, tanto de empregado quanto de empregador e o repasse
de recursos para as empresas custearem os gastos com o processo
de adaptação de sua estrutura produtiva. Além destas medi-
Página 175.
das, em alguns países desenvolvidos é facultado ao empregador o
direito de pagar contribuições a determinados fundos e, desta forma,
ficando isentos de cumprir as cotas estabelecidas por lei.
No continente europeu predominam as políticas de cotas com
incentivos e alternativas aos empregadores. “Hoje, dois terços dos 
países
da Europa possuem cotas legais e compulsórias - a maioria baseada
em sistemas de cota-contribuição” (THORNTON apud PASTORE,
2000, p. 158). Como exemplos práticos das mesmas, podem ser destacadas
aquelas que vêm sendo adotadas na Áustria, na Alemanha e na
França, as quais, apesar de terem ampliado a quantidade de pessoas
com deficiência inseridas no mercado de trabalho, também revelam o
desinteresse dos empregadores em empregar este segmento social.
Na Áustria, onde existe um sistema de cota-contribuição, a lei
federal exige que todas as empresas que tenham mais de 25 empregados
reservem 4% das vagas de trabalho para as pessoas com deficiência
ou paguem uma contribuição a um fundo especial.
Cerca de 60% do total de cotas são preenchidos, mas a maioria
trabalha em órgãos públicos. No setor privado, o preenchimento
das cotas é maior nas grandes empresas. Quando se considera o
universo do setor privado, como um todo, apenas 20% das empresas
preenchem suas cotas. Ou seja, 80% pagam a contribuição
(PASTORE, 2000, p. 160).
Por sua vez, a lei alemã estabelece uma reserva de postos de trabalho
de 6% para todo empregador, público ou privado, que possua mais de
16 empregados. No caso dos primeiros, o percentual é único. Já para os
últimos, a cota varia de acordo com o ramo de atividade e região do 
País.
As grandes empresas (mais de 1.000 empregados) normalmente
chegam perto da cota de 6%. O setor público ultrapassa essa marca.
Nas pequenas empresas do setor privado (16-30 empregados),
Página 176.
porém, a cota média fica em torno de apenas 2,7%. As empresas dos
setores agrícola, construção, transporte, comunicação, comércio 
varejista
e bancos também ficam abaixo dos 6%. As firmas que não
alcançam a cota pagam uma contribuição para um fundo de apoio aos
portadores de deficiência. Cerca de 75% das empresas optam pela
contribuição total ou parcial (PASTORE, 2000, p. 162-163).
Na França, a lei exige que órgãos públicos e empresas privadas
(com mais de 20 empregados) preencham 6% de seus postos de trabalho
através da contratação de pessoas com deficiência. Neste país,
também a grande maioria das pessoas com deficiência estão impedidas
de terem acesso ao mercado de trabalho, pois, “cerca de 63%
das empresas pagam a contribuição; 12% contratam toda a cota; 20%
contratam uma parte e pagam contribuição para completar a cota; as
demais fazem outras combinações” (PASTORE, 2000, p. 166).
Alguns outros países desenvolvidos, certamente com a finalidade
de não criarem transtornos aos capitalistas, nunca estableceram
leis que definissem reservas de postos de trabalho para as pessoas
com deficiência. Também existem aqueles que, após várias décadas
de adoção das mesmas, vêm abandonando-as e utilizando outros 
procedimentos
mais ajustados à lógica do capital.
Dentre os países que nunca adotaram dispositivos legais reservando
postos de trabalho para as pessoas com deficiência, encontra-se
os Estados Unidos da América, no qual só existe uma lei genérica 
“antidiscriminação”,
aprovada em 1990. No mesmo, a política específica,
voltada para a inserção deste segmento social no processo produtivo,
está assentada simplesmente na flexibilização dos direitos trabalhistas
e num serviço de reabilitação e habilitação. Neste país, “a legislação
trabalhista é suficientemente flexível para permitir às empresas pagar
um portador de deficiência, por exemplo, 75% do salário quando a sua
produtividade é de 75% em relação à de um não-portador” (GOPUS
Página 177.
apud PASTORE, 2000, p. 135). Mesmo com tal flexibilidade, o 
aproveitamento
desta força de trabalho é muito pequeno, pois “nos Estados
Unidos, cerca de 400 mil novos portadores de deficiência entram nos
serviços de reabilitação todos os anos. Apenas 4 mil conseguem retornar
ao trabalho” (MASHAWE RENO apud PASTORE, 2000, p. 144).
Nas últimas décadas, enquanto reflexo das chamadas políticas
neoliberais, alguns governos vêm tornando mais fácil a tarefa dos 
capitalistas
- a de explorar com mais lucratividade a capacidade produtiva
do trabalhador. Neste sentido, alguns países que foram pioneiros no
estabelecimento de leis reservando postos de trabalho para as pessoas
com deficiência, vêm abandonando tais procedimentos. Este é o caso
da Inglaterra, onde “o sistema de cotas foi abandonado em 1995. 
Atualmente,
os programas de apoio aos portadores de deficiência se baseiam
na lei antidiscriminação (Disability Discrimination Act), aprovada
naquele ano” (PASTORE, 2000, p. 176).
Diante do que já foi exposto a respeito das dificuldades que as
pessoas com deficiência têm encontrado para se inserir no mercado de
trabalho, bem como, das medidas que vêm sendo adotadas para favorecer
o aproveitamento de sua capacidade de produzir, parece ser 
desnecessário
elencar novos argumentos para comprovar que a capacidade
produtiva deste segmento social não interessa à lógica da produção 
capitalista.
Apesar do número de pessoas com deficiência inseridos no
mercado de trabalho ser um pouco maior nos países desenvolvidos, em
comparação com aqueles das nações em desenvolvimento, não resta
dúvida de que nos primeiros a burguesia também despreza esta força de
trabalho. Em tais países, a maior parte das empresas privadas, mesmo
com os incentivos financeiros estatais e da flexibilização das leis 
quando
a legislação permite, preferem pagar determinadas contribuições a 
fundos
especiais do que explorar a capacidade produtiva daqueles com
deficiência física, sensorial e mental.
Página 178.
Apesar do desinteresse do capitalismo pela capacidade produtiva
das pessoas com deficiência, algumas destas, devido ao desenvolvimento
tecnológico, mais do que nunca, vêm percebendo que
podem contribuir no processo de produção e lutam para romper com
uma prática que os excluem socialmente desde os tempos mais remotos
da história da humanidade.
Porém, a luta para se romper com as atuais condições de existência
das pessoas com deficiência, não passa somente pela
conscientização de que são seres humanos com capacidade de produzir
e muito menos com a inserção de alguns no mercado de trabalho.
Para atuar nesta direção se faz necessário construir uma nova
sociedade, onde o trabalho não esteja colocado como instrumento a
serviço da exploração do homem pelo homem e sim, como processo
coletivo de produção dos meios necessários a vida humana.
Somente com a edificação de uma sociedade com esta característica
é que o trabalho das pessoas com deficiência pode ser valorizado, pois
nela se poderá adotar à máxima socialista que afirma: “A cada um 
conforme
suas necessidades. De cada um conforme suas possibilidades”.
A construção desta nova sociedade passa necessariamente pela
superação de todas as formas de conformismo e uma luta incessante
contra todas as práticas exludentes que estão presentes na atualidade.
Dentre estas, não se pode esquecer da exclusão das pessoas com
deficiência do atual processo produtivo, que, devido a lógica 
constituinte
das relações burguesas de trabalho, são consideradas como
seres inválidos, incapazes e inúteis, ficando desprovidos da 
possibilidade
de compor o sujeito histórico de seu tempo.
Página 179.
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XAVIER, M. E. S. P. Capitalismo e escola no Brasil Brasil. Campinas/SP:
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Página 180 - Em branco.
Página 181.
CAPÍTULO VII
APONTAMENTOS SOBRE O MOVIMENTO SOCIAL DAS PESSOAS
COM DEFICIÊNCIA NO BRASIL
Enio Rodrigues da Rosa1
Vandiana Borba2
1 Docente da UNIOESTE e da Rede Estadual, Conselheiro da Associação
Cascavelense da Pessoa com Deficiência Visual (ACADEVI),
Coordenador do Fórum Municipal em Defesa dos Direitos das Pessoas
com Deficiência e Membro do Grupo de Pesquisa História,
Educação e Sociedade - HISTEDOPR, Subgrupo da Educação da Pessoa
com Deficiência.
2 Docente da Rede Estadual, Coordenadora de Organização da Associação
Cascavelense da Pessoa com Deficiência Visual (ACADEVI) e Membro
do Grupo de Pesquisa História, Educação e Sociedade - HISTEDOPR,
Subgrupo da Educação da Pessoa com Deficiência.
Página 182.
O presente artigo pretende demonstrar que o surgimento e fortalecimento
do movimento das pessoas com deficiência no final da
década de 1970 e início de 1980, no Brasil, contou com a conjugação
de pelo menos quatro fatores: 1 - necessidades objetivas possibilitaram
a tomada de consciência de uma parcela das próprias pessoas
com deficiência no sentido de travarem lutas na defesa dos seus 
direitos;
2 - a conjuntura nacional favorável, em que movimentos políticos
e sociais lutavam contra a Ditadura Militar, na busca da 
redemocratização,
da participação e da garantia de bens materiais; 3 - a
mobilização internacional do segmento das pessoas com deficiência
forçando uma conjuntura favorável em torno desta problemática social;
4 - um certo estímulo do governo brasileiro que não via nesse
movimento nenhuma ameaça política ideológica.
Ao lado de alguns elementos sobre o trabalho, enquanto base
material do processo de exclusão histórica das pessoas com deficiência,
o estudo pretende também fazer algumas inferências sobre o
real caráter das entidades criadas e dirigidas pelas pessoas com 
deficiência.
Com base nas investigações preliminares até agora realizadas
e aqui expostas, em linhas gerais, parece possível deduzir que do
ponto de vista do objetivo da prestação de serviços não existia (em
sua origem e continua não existindo hoje) grande divergência entre as
entidades para e as entidades de pessoas com deficiência.
Por fim, o trabalho destaca a importância das conquistas obtidas
pelo movimento nos últimos vinte anos no Brasil, mas aponta a
necessidade da redefinição dos seus rumos e a superação na crença
da democracia liberal baseada na equiparação de oportunidades
enquanto possibilidade real na perspectiva da construção de uma
sociedade inclusiva de fato e não apenas de direito formal. Hoje está
mais do que claro a necessidade da superação do modelo societário
Página 183.
capitalista, cada vez mais devastador da natureza e destruidor da
humanidade em todos os aspectos da vida social.
Sintetizando as atitudes pela qual a sociedade se portou diante
da pessoa com deficiência ao longo da história, de acordo com
Lafayette Pozzoli (2006, p. 192): três tipos de conduta se perpetuaram
e ainda se fazem presentes: a indiferença, a caridade e o
paternalismo. Dessas, a mais nefasta para as pessoas com deficiência
certamente tem sido a atitude de indiferença. Para os indiferentes
é como se essas pessoas não existissem. Na perspectiva dos 
indiferentes,
os membros deste segmento são o substrato da sociedade e
não têm sequer o direito de terem direitos. Quem não tem direito de
ter direito não é cidadão nem mesmo nos termos meramente jurídicos.
Apesar do apelo também danoso, a caridade se legitima pelo
altruísmo do caridoso. De sentimento normalmente religioso, o
caridoso vê na pessoa com deficiência apenas um objeto de remissão
dos pecados. No entendimento do caridoso a pessoa com deficiência
não se enquadra no conceito jurídico de “pessoa”, portanto,
não é sujeito de direito. Por fim, o paternalismo procura assumir com
exclusividade a responsabilidade pela direção das questões da pessoa
com deficiência. Na perspectiva da concepção paternalista, apesar
da pessoa com deficiência possuir direitos, ela não está capacitada
para exercê-los, por isso necessita de um tutor. Ainda hoje,
A maioria das pessoas, ressalvadas as devidas proporções, se adapta
às situações que acabamos de referir sobre as concepções. A angústia
desse reconhecimento parece ser o primeiro passo para uma reflexão
mais séria sobre o problema que estamos abordando porque a pessoa
portadora de deficiência não quer ser segregada, não deseja esmolas e
muito menos paternalismo; a pessoa portadora de deficiência exige
direitos, a começar pelos contemplados na Constituição de 1988, devendo
exercitar sua cidadania. (POZZOLI, 2006, pp. 192-193).
Página 184.
Essas atitudes têm na aparência o preconceito e a discriminação
como justificativa principal da causa da exclusão das pessoas com 
deficiência
sem questionar a origem do próprio preconceito e da discriminação
também como produção social histórica. Assim, na essência
desta problemática social, descendo até a raiz, encontra-se a 
perpetuação
de uma situação que acompanha a civilização humana desde os
tempos em que a vida social pouco se distinguia da vida animal.
Em toda parte, a identidade entre o homem e a natureza aparece de modo
a indicar que a relação limitada dos homens com a natureza condiciona a
relação limitada dos homens entre si, e a relação limitada dos homens
entre si condiciona a relação limitada dos homens com a natureza, 
exatamente
porque a natureza ainda está pouco modificada pela história. E,
por outro lado, a consciência da necessidade de estabelecer relações 
com
os indivíduos que o circundam é o começo da consciência de que o
homem vive em sociedade. Este começo é tão animal quanto a própria
vida social (...) (MARX e ENGELS, 1984, p. 45).
Partindo deste pressuposto histórico, no entendimento deste
estudo, a raiz de praticamente todas as formas de exclusão e 
conseqüentemente
de preconceito e discriminação contra as pessoas com
deficiência encontra-se na idéia historicamente construída de que elas
são inúteis para o trabalho. São inúmeros os exemplos relatados pela
literatura especializada pontuando fatos que consideram essas pessoas
como um peso morto para a sociedade. Como não existe espaço
para explorar com maiores detalhes todos estes aspectos, destaca-
se apenas um deles, presente na história moderna recente: “Calcula-
se que até a derrota alemã em 1945, duzentas mil pessoas entre
adultos e crianças deficientes tenham sido assassinadas”. Para 
conseguir
o apoio social, “O objetivo da mensagem martelada pelos nazistas
era estigmatizar deficientes e doentes mentais como um peso
morto para a sociedade” (LOBO, 1997, p. 155).
Página 185.
Como se pode constatar a seguir, de alguma maneira o tipo de
pensamento acima ainda se reflete fortemente nos dias de hoje, 
principalmente
no que diz respeito ao acesso ao mercado de trabalho.
Lidando com as questões de emprego e desemprego há mais de 40
anos, confesso ter deixado passar despercebido, durante muito tempo,
um dos problemas mais sérios do Brasil: a baixíssima participação
dos portadores de deficiência no mercado de trabalho. Comecei
a estudar o assunto em 1997. Examinando os dados, percebi,
de início, o quanto estávamos atrasados. O Brasil possui uma das
maiores populações de portadores de deficiência do mundo (16 milhões
de pessoas) e uma das menores taxas de participação no mercado
de trabalho. Segundo estimativas disponíveis, 9 milhões estão em
idade de trabalhar. Destes, os que trabalham no mercado formal somam
cerca de 2%, enquanto nos países mais avançados essa
proporção fica entre 30% e 45% (PASTORE, 2000, p. 07).
Embora este estudo esteja utilizando essas informações do Professor
José Pastore, não pode deixar de mencionar e criticar que no
conjunto do seu trabalho encontra-se uma clara oposição ao atual modelo
de cotas. Ao fazer critica à legislação brasileira que obriga tanto
o setor público como o setor privado reservar vagas para as pessoas
com deficiência, o autor acaba reforçando a posição da grande maioria
dos empresários que se tivessem a opção não teriam pessoas com
deficiência trabalhando nas suas empresas. Não é raro ouvir de alguns
empregadores ou responsáveis pelos setores de recursos humanos: “mas
eu não posso dispensar um pai de família para colocar uma pessoa
com deficiência”, como se pessoa com deficiência também não tivesse
família e não necessitasse comer, vestir-se, morar, etc.
A idéia da inutilidade para o trabalho não trouxe como conseqüência
somente a segregação dessas pessoas “inválidas” e “incapazes”,
em locais especializados próprios, afastadas do conjunto da sociedade,
Página 186.
onde os “perturbadores” da ordem social passaram a ganhar tratamentos
diferenciados. A indiferença com o segmento social se reflete também
no campo da produção do conhecimento, cujo interesse pela temática
sobre movimentos sociais, por exemplo, acaba sendo preocupação quase
que somente da chamada literatura especializada. Numa investigação
sobre o movimento social das pessoas com deficiência, é extremamente
raro encontrar alguma menção ou desenvolvimento do assunto por parte
de autores que discutem os movimentos sociais no Brasil.
Numa das obras mais completas sobre movimentos sociais,
lançada no Brasil nos últimos anos, Teorias dos Movimentos Sociais:
Paradigmas Clássicos e Contemporâneos, a autora, Maria da Glória
Gohn, afirma que:
A origem de um movimento social advém de uma demanda/carência
não atendida, podendo ser esta (de ordem econômica, política, social
e cultural) ou projetos de uma utopia. As carências podem ser
de bens materiais ou simbólicos. A luta contra as desigualdades no
tratamento das pessoas em relação a cor, raça, nacionalidade, religião,
idade, sexo etc. situa-se no plano do simbólico (1997, p. 258).
Mesmo reconhecendo que “a origem de um movimento social
advém de uma carência/demanda não atendida”, a renomada autora,
no conjunto do seu texto - aliás, obra muito esclarecedora e de um
rigor teórico notável sobre movimentos sociais - em nenhum momento
faz menção ao movimento das pessoas com deficiência, apesar
deste segmento representar 14,5% da população do Brasil, segundo
dados do IBGE apurados no Censo de 2000. Certamente tem conhecimento
da sua existência, mas parece desconsiderar como força organizada
capaz de lutar pela superação das suas “carências/demandas
não atendidas”. Limita-se a incluí-lo, é o que parece, nos “etc.”
ou no quadro dos movimentos dos “excluídos”.
Página 187.
Porém, dois anos depois, 1999, a mesma autora, em outro texto,
“Educação Não Formal e Cultura Política: Impacto Sobre o
Associativismo do Terceiro Setor”, captando a realidade, faz uma
pequena menção ao segmento das pessoas com deficiência. Diz ela:
Deve-se destacar ainda a nova cultura política que vem sendo gerada
em relação ao espaço público e aos temas de interesse coletivo, como
meio ambiente, saúde, lazer etc., ou temas de interesse de coletivos
específicos como os portadores de deficiência física, mental, do vírus
da AIDS etc. (GOHN, 1999, p. 86).
Revelando uma mudança substancial no modo de organização
e no conteúdo das reivindicações (ou proposições) dos movimentos
sociais dos anos noventa, com o deslocamento do plano econômico
para o plano da cultura, a autora demonstra que
O cenário da mobilização e organização da sociedade civil também
mudou substancialmente nos anos 90. Os movimentos que resistiram
estão colocando ações mais defensivas do que reivindicativas e 
adquirindo
também outra natureza, atuando mais no plano da cultura, na
busca de valores identitários, no plano da moral, do que no plano
econômico (GOHN, 1999, p. 87).
Quando o assunto aparece em trabalhos de autores fora da área
(como também dela mesma), em certos casos, ainda são utilizadas
terminologias e expressões inadequadas. Embora tenha dado uma 
contribuição
ao reconhecer e incluir o movimento das pessoas com deficiência
como parte integrante dos outros movimentos sociais que participam,
por exemplo, da Central de Movimentos Populares, Frei Betto
cunha a terminologia PODE para se referir a pessoa com deficiência.
“Ela é um PODE (Portador de Direitos Especiais)” (2001, p. 177). Ainda
que faça isto para destacar que além dos direitos universais essas
pessoas possuem direitos especiais em face das suas necessidades 
escíficas
Página 188.
não parece adequado afirmar que a pessoa com deficiência
seja um “PODE”, desconsiderando, sobretudo, a opção terminológica
assumida pelo próprio movimento das pessoas com deficiência.
A falta de maior interesse pela pesquisa sobre o movimento
social das próprias pessoas com deficiência ainda não mereceu a
devida atenção nem mesmo por pesquisadores ligados ao campo desta
problemática social. A maioria dos trabalhos científicos que tomam
as questões envolvendo as pessoas com deficiência como objeto de
estudo ainda se voltam mais para a educação, a psicologia e o trabalho.
Mesmo assim, apesar da escassa produção e da dificuldade de
acesso às bibliografias disponíveis, principalmente aquelas produzidas
pelas próprias pessoas com deficiência, com base no material
investigado, o presente estudo pretende assinalar alguns tópicos - em
caráter provocativo - sobre a origem e o núcleo central da 
reivindicação
do movimento das pessoas com deficiência no Brasil.
No final da década de 1970, o país atravessava uma crise econômica,
política e social. Neste cenário de crise, inclusive de legitimidade do
governo militar, inúmeras forças políticas e sociais atuavam em busca 
do
atendimento das suas demandas/ reivindicações específicas, inscritas no
plano econômico, político, social e cultural. Com a restrição da 
liberdade
de organização e expressão, uma bandeira que unia desde setores da 
esquerda
até parte das forças liberais era o clamor pela redemocratização
do país. A busca do direito à participação se transformou então no 
grande
lema, inclusive das próprias pessoas com deficiência que reclamavam o
fim da tutela e a “participação plena”. Como dizia um analista político 
na
época, “algo surpreendente está ocorrendo com a participação: estão a
favor dela tanto os setores progressistas que desejavam uma democracia
mais autêntica, como os setores tradicionalmente não muito favoráveis 
aos
avanços das forças populares” (BORDENAVE, 1994, p. 12).
Página 189.
Com interesses e fins diferentes dos setores populares ou mesmo
de alguns setores liberais, até o próprio “bloco no poder”, na
expressão de Poulantzas (SAES, 2001), passou a falar da participação
dentro do plano estratégico de abertura lenta e gradual, definindo
qual era a oposição tolerável e qual era a intolerável.
Os parâmetros da ‘democracia forte’ eram definidos de modo a limitar a
participação de setores da população até então excluída e permitir que 
o
Estado determinasse qual era a oposição aceitável e qual é intolerável.
Grupos ligados aos movimentos sociais de trabalhadores e camponeses,
fossem seculares ou vinculados à igreja, enfrentaram repressão contínua
e sistemática (ALVES, 1989, p. 225 - grifos da autora).
Buscando uma conexão do movimento brasileiro e aqueles das
pessoas com deficiência de outras regiões do mundo, é possível 
constatar
a existência da articulação das suas ações e o conteúdo das
propostas defendidas. Embora essas mobilizações só tenham eclodido
com maior força a partir do início da década de 1970, tanto no Brasil
como no exterior, elas já vinham sendo “gestadas” desde o final da
Segunda Guerra Mundial, quando os mutilados de guerra começaram
exigir reabilitação profissional e reinserção no mercado de trabalho.
Esse movimento vai se disseminando, se fortalecendo e incorporando
também pessoas com deficiência que não haviam ido à guerra, a
ponto de exigir da ONU - Organização das Nações Unidas, documentos
versando sobre os seus direitos.
Embora a Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada
pela Resolução, 217-A (III), de 10 de dezembro de 1948, no seu
Artigo 7º afirme que “Todos são iguais perante a lei e, sem distinção,
têm direito à igual proteção da lei”, foi preciso que a ONU em 1975,
por meio da “Declaração dos Direitos dos Deficientes”, reiterasse: “As
pessoas deficientes têm os mesmos direitos civis e políticos que outros
Página 190.
seres humanos”. Ora, depois de 27 anos da aprovação da Declaração
dos Direitos Humanos, a publicação de uma Declaração específica
reiterando que as pessoas com deficiência possuem os mesmos direitos
civis e políticos que os outros seres humanos, confirmando a idéia
de que nem a Lei era para todos e nem todos eram iguais perante a Lei.
A “Declaração dos Direitos dos Deficientes” faz menção aos
“direitos civis e políticos”, ou seja, reconhece o direito civil de 
cidadania
e por conseqüência o direito político da participação. A tese
central do documento da ONU tem, portanto, no seu núcleo o conteúdo
do direito individual lockeano: “(...) cada homem tem uma propriedade
em sua própria pessoa; a esta ninguém tem qualquer direito
senão ele mesmo” (LOCKE, 1991, p. 228). Por exemplo, com base
neste direito natural o sistema tutelar começou a ser questionado nos
Estados Unidos da América, pelos idealizadores do primeiro Centro
de Vida Independente (CVI), de Derkeley, criado em 1972 por um
grupo de tetraplégicos: “[...] Nós, um pequeno grupo de clientes
institucionalizados, resolvemos abandonar a proteção do ambiente
institucional e saímos às ruas para protestar e encontrar alguma outra
forma de viver que não fosse tutelada, dependente e humilhante”
(DRATER, apud SASSAKI, 2003, p. 10).
Quanto a libertação da tutela institucional no Brasil, no início da
década de 1980, é preciso esclarecer que isto atingia mais diretamente
aquelas pessoas com deficiências mais comprometidas. As pessoas com
deficiência visual, com deficiência auditiva, as cegas, as surdas e as 
com
deficiências físicas em sua grande maioria, embora recebendo algum
tipo de “tutela” por parte dos profissionais das áreas específicas, não
podem ser consideradas institucionalmente tuteladas. Por exemplo, mesmo
antes do período em análise, houve por parte do Estado brasileiro
“alguma percepção da importância da participação política do 
deficiente,
Página 191.
como se nota em 1954, quando Getúlio Vargas determina providencias
para que se conceda o direito de voto ao indivíduo cego como parte
importante à sua recuperação social” (JANNUZZI, 2004, p.72).
Assim, as mobilizações de rua e inúmeras outras formas de
manifestações nos principais centros mundiais forçou os membros
da ONU, encarregados pela preparação do ano Internacional da pessoa
com deficiência, a reconhecerem que ocorria uma dramática mudança
nas atitudes das pessoas deste segmento social.
Elas estavam assumindo cada vez mais o papel de um grupo consumidor
que tinha seus próprios pontos de vista quanto à forma de como as
melhorias de suas condições de vida deveria ser efetivada e desejavam
que esses pontos de vista fossem conhecidos daqueles que tomavam
decisões (SILVA, 1986, p. 331).
Além da garantia dos direitos civis e políticos, a “Declaração
dos Direitos dos Deficientes”, reconheceu também o direito ao trabalho,
a sindicalização e a organização das próprias pessoas com
deficiência. Os itens 07 e 12 tratam do assunto, in verbis:
As pessoas deficientes têm direito à segurança econômica e social
e a um nível de vida decente e, de acordo com suas capacidades, a
obter e manter um emprego ou desenvolver atividades úteis, produtivas
e remuneradas e a participar dos sindicatos; as organizações
de pessoas deficientes poderão ser consultadas com proveito em
todos os assuntos referentes aos direitos de pessoas deficientes.
No Brasil, seguindo a tendência internacional, a mobilização
das próprias pessoas com deficiência teve início no final da década
de 1970 e início da década de 1980. De acordo com Araci Nallin,
citada por Sassaki (2003):
A mobilização das pessoas deficientes no sentido de uma luta
reivindicatória é fato bastante recente na história do nosso país. Os 
grupos
Página 192.
com esta característica começaram a surgir em fins de 1979 e início
de 1980, período que coincidiu com o início da “abertura” política que
permitia o debate de vários temas e a organização de diversos setores 
da
comunidade (p. 04 - grifos da autora).
Conforme a mesma fonte, também aqui aparecia em destaque
o questionamento contra a tutela das pessoas com deficiência: “Antes
deste período, a questão das pessoas deficientes era ligada à
religião ou à medicina e seus ‘porta-vozes’ eram os religiosos e os
profissionais de reabilitação”. (SASSAKI, p. 04 - grifos nossos).
Também como resultado do processo de mobilização do movimento
internacional das pessoas com deficiência, em 16 de dezembro de
1976, foi aprovada a Resolução n° 31/123, proclamando o ano de 1981
como o Ano Internacional das Pessoas Deficientes, cujo lema oficial era
a “participação plena” (SILVA, 1986, p. 330). Com esta Campanha a ONU
objetivava sensibilizar as Nações para que incorporassem no seu
ordenamento jurídico os direitos específicos, bem como procurassem
incentivar e apoiar a realização da Campanha e a participação das 
pessoas
com deficiência nas suas organizações e na vida social em geral.
Todavia, também aqui o apoio do governo federal só veio após a
mobilização e manifestação do movimento já organizado em diversas
regiões do país. Essas mobilizações começaram a ocorrer de forma 
espontânea
a partir de 1979, surgindo simultaneamente em algumas cidades
do Brasil (Porto Alegre, Curitiba, Rio de Janeiro, Recife, São Paulo,
Salvador, Brasília, Ourinhos e outras), de início sem articulação de 
âmbito
nacional. No bojo dessas discussões, no início do mês de julho de
1980, surgiu em São Paulo um grupo constituído por pessoas com e sem
deficiência, cujo objetivo era apoiar a realização no Brasil do Ano 
Internacional.
Consta que logo após a sua primeira reunião foi tomada a deliberação
de remeter ao Senhor Presidente da República ofício subscrito
Página 193.
por entidades participantes, solicitando que fosse dado ao Ano o nome
correto ao assinar o decreto de criação da Comissão Nacional. Ouvia-se
falar de traduções inaceitáveis, tais como “Ano Internacional do 
Incapacitado”,
“Ano Internacional do Excepcional” e outros nomes que estavam
sendo fortemente tentados. A mensagem, juntamente com outras de locais
e iniciativas diferentes, parece que chegou ao destino, pois em 16 de
julho de 1980 o Presidente da República assinava o Decreto criando a
Comissão Nacional do Ano Internacional das Pessoas Deficientes, 
vinculada
ao Ministério da Educação e Cultura (SILVA, 1986, pp. 336 - 337).
Neste processo, um marco importante para o movimento em
todo o País, foi a realização do primeiro Encontro Nacional de 
Entidades
de Pessoas com Deficiência, com cerca de mil participantes,
incluindo cegos, surdos, deficientes físicos e hansenianos de diversas
regiões do país. Na pauta principal o lema da Participação plena e o
fim da tutela do Estado e das instituições especializadas (JANNUZZI,
2004). Segundo a mesma autora,
Em relação aos deficientes, a década de 1980 foi significativa para o
movimento, surgindo em 1984 a Federação Brasileira de Entidades de
Cegos (FEBEC), a Organização Nacional de Entidades de Deficientes
Físicos (ONEDEP) a Federação Nacional de Educação de Surdos (FENEIS)
e o Movimento de Reintegração dos Hansenianos (MORHAM). Em dezembro
do mesmo ano foi fundado o Conselho Brasileiro de Entidades
de Pessoas Deficientes que reuniu as quatro entidades e substituiu a
coalizão nacional organizada em Brasília em 1980, no primeiro encontro
nacional anteriormente referido (JANNUZZI, 2004, p. 184).
Mesmo tendo vida curta, a Coalizão realizou em 1981, na cidade
do Recife, de 20 a 25 de outubro, o primeiro Congresso Brasileiro
das pessoas com deficiência, com mais de 600 participantes. A 
característica
maior deste evento foi o seu objetivo político de lançar
bases para exercer pressão, capaz de reivindicar mudanças no sistema
Página 194.
de atendimento às pessoas com deficiência, nos programas de
reabilitação e na luta contra as barreiras ambientais e sociais, 
argumentavam
os seus organizadores.
Revelando uma confluência das idéias, as propostas do Encontro
do Recife sinalizavam na mesma perspectiva das questões defendidas
pelo movimento de São Paulo. Além da proposição da criação
de um órgão de caráter inter-secretarial, contando com representação
não só das Secretarias de Estado envolvidas, mas também de
entidades de/para pessoas com deficiência e com dotação orçamentária
própria, havia também a preocupação com a educação, prevenção,
reabilitação global, trabalho, conscientização, acesso, eliminação
de barreiras, materiais, equipamentos e legislação.
Fechando o ciclo dos três grandes eventos nacionais deste período,
em 1982, em Contagem, Minas Gerais, de 23 a 26 de março, foi
realizado o Segundo Encontro Nacional, inclusive com a presença da
Comissão Nacional, das Comissões Estaduais, entidades de e para
pessoas com deficiência, onde foi avaliado o resultado do Ano 
Internacional
e definidas novas estratégias de ações para o movimento.
Este Encontro também estabeleceu como prioridade “a necessidade
de criação de um órgão nacional com o objetivo de planejar e acompanhar
as recomendações fundamentais para a década de 80 aprovadas
nesse encontro” (SILVA, 1986, p. 342).
Além disso, no ano de 1982, em São Bernardo do Campo, com o
apoio de diversas associações das Pessoas com Deficiência, foi definido
o dia 21 de setembro como o dia Nacional de Lutas, até hoje lembrado
com atividades e manifestações pelo segmento. Na ocasião, vários atos
de rua foram realizados no País e em São Paulo, destacando-se as 
memoráveis
manifestações nas Estações de Metrô, na Avenida Paulista e na
Praça da Sé, liderados pelo movimento representativo das próprias 
pessoas
Página 195.
com deficiência e com ampla divulgação pela imprensa. Esse processo
de mobilização iniciado nas capitais foi se disseminando rumo ao
interior com a criação de entidades por áreas específicas.
Em 1984, com o fim da Coalizão Nacional, que reunia todas as
áreas das deficiências, começou a ocorrer uma reformulação geral
no movimento, dando origem às Federações nacionais e estaduais,
marcando o início da proliferação das entidades específicas nos 
municípios.
No âmbito nacional, surgiu a Organização Nacional de Entidades
de Pessoa com Deficiência Física (Onedef), Movimento Nacional
de Reintegração do Hanseniano (Morhan), Federação Nacional
de Educação e Integração de Surdos (Feneis), Sociedade Brasileira
de Ostomizados (SOB), a Associação de Paralisia Cerebral do
Brasil (APCB) e a Federação Brasileira de Entidade de Cegos (FEBEC).
De acordo com Bieler, citada por Sassaki (2003):
A partir de 1984, portanto, foi configurado no Brasil um movimento
organizado, estruturado, separado por área de deficiências e que tentou
se articular num Conselho Brasileiro de Pessoas com Deficiência, unindo
todas essas representações, mas que, infelizmente, não conseguiu
colocar em funcionamento (pp. 03-04).
Assim, os movimentos específicos das pessoas com deficiência
foram se organizando
como muitos outros; por exemplo, os das mulheres, dos negros e
outras etnias, dos homossexuais, movimentos ecológicos e outros
em torno de temas específicos. Conquistaram espaços públicos através
dos diversos conselhos tentando resolver alguns problemas comuns.
Suas reivindicações às vezes ganhavam relativa força, reunindo
sob um enfoque comum pessoas de categorias sociais diferentes,
algumas com acesso aos núcleos políticos poderosos que até lhes
possibilitaram algumas tênues conquistas (JANNUZZI, 2004, p. 185).
Página 196.
Buscando caracterizar o movimento das pessoas com deficiência
na década de oitenta, Sassaki (2004, p. 08) assinala quatro possíveis
tendências: 1 - Conscientização e disseminação de informações
sobre problemas, situações, necessidades, direitos e deveres e
potencialidades das pessoas com deficiência, com o conseqüente
surgimento da bandeira da integração social; 2 - Formação de 
organizações
de pessoas com deficiência (por exemplo, associações e
cooperativas de trabalho); 3 - Elaboração e aprovação de leis 
específicas
deste segmento populacional além da inserção de preceitos
específicos dentro da Constituição; 4 - Formulação de reivindicações:
atendimento através de centros regionais de reabilitação, projetos
de Reabilitação Baseada na Comunidade e/ou serviços básicos
de reabilitação nas redes oficiais e particulares e formação de 
recursos
humanos para os programas e serviços de reabilitação.
As características e as tendências pontuadas pelo autor, na essência,
refletem os anseios do movimento internacional e nacional pelo
fim da tutela e do direito a participação, ou seja, o reconhecimento 
dos
direitos civis e políticos já assegurados a todos os cidadãos, 
independente
das suas características físicas, cognitivas ou sensoriais. Mas, a
luta dessas pessoas não se restringia apenas nessas reivindicações, 
outras
inúmeras foram incorporadas no ordenamento jurídico brasileiro e
posteriormente ganharam materialidade na política nacional da pessoa
com deficiência, principalmente após 1988 e 1989, com a aprovação da
Constituição e da Lei Federal n.º 7.853/89, respectivamente.
Como resultado deste processo de mobilização, duas propostas
gestadas diretamente no interior do movimento merecem uma atenção
especial. Uma delas deu origem à Coordenadoria Nacional da Pessoa
Portadora de Deficiência (CORDE), instituída pelo Decreto n.º 93.481/
86. A outra deu origem ao Conselho Nacional do Direito da Pessoa
Página 197.
Portadora de Deficiência (CONADE), criado pelo Decreto nº. 3.076
de 01 de junho de 1999. Pode-se dizer que a criação desses dois órgãos
na estrutura do governo federal é bastante revelador, pois ao mesmo
tempo em que atende a reivindicação do movimento acaba também
atraindo o segmento para dentro da estrutura do Estado, comprometendo
a sua autonomia e as lutas políticas reivindicatórias.
A mobilização e a organização das pessoas com deficiência nas
suas próprias entidades, como protagonistas da sua própria história,
inquestionavelmente representou avanço significativo para o conjunto
da sociedade e no crescimento da consciência crítica deste segmento.
Este processo cumpriu importante papel na consolidação de direitos
na Constituição de 1988, assegurados nos seguintes dispositivos 
específicos:
art. 7º, XXXI, art. 24, XIV, art. 37, VIII; art. 203, IV e V; art. 227,
§1º, II e art. 244, §2º. A regulamentação desses dispositivos resultou
nas seguintes Leis: Lei n.º 7.853/89, dez anos depois regulamentada
pelo Decreto n.º 3.298/99 e no Decreto n.º 5.296/04, que regulamenta
as Leis n.º 10.098/00 e 10.048/00, que dispõem sobre a acessibilidade.
No plano geral, essas normas e mais o capítulo V da Lei n.º 9.394/96
(LDB), destinado à Educação Especial, definem os aspectos jurídicos
e as medidas a serem implementadas pela política nacional da pessoa
com deficiência nos diversos setores da administração pública direta e
indireta, no âmbito nacional, estadual e municipal.
Sassaki (2004, p. 09), avaliando os desafios enfrentados pelo
movimento na década de 1990, revela que a luta se restringiu na 
tentativa
da implementação dos projetos e planos de equiparação de oportunidades,
para consolidar o ideal de inclusão social com a participação
plena das pessoas com deficiência em todos os aspectos da
vida comunitária; cumprimento da legislação conquistada por este
segmento; implantação das reivindicações formuladas na década de
Página 198.
80; implantação de programas de emprego apoiado nas empresas e
nas entidades de reabilitação, juntamente com o treinamento de pessoal
para tais programas.
O mesmo autor, analisando as perspectivas da reabilitação na
América Latina para as próximas décadas, mantém o otimismo e a
crença no poder de pressão do movimento das pessoas com deficiência.
Ao fazê-lo toma como exemplo o modelo Norte Americano de
organização baseado no CVI: “[...] Proliferação de Centros de Vida
Independente, com a conseqüente melhoria da qualidade de vida das
pessoas com deficiência e o aumento do seu poder de pressão social
e política junto aos governos em todos os níveis e junto a outros
setores da sociedade” (2004, p. 10).
Hoje, diante da afirmação das políticas (neo) liberais e do progressivo
afastamento do Estado brasileiro na subvenção econômica
das políticas públicas sociais, é preciso refletir melhor sobre o 
otimismo
do autor a cerca dos possíveis objetivos e da real força política
do segmento, não apenas do Movimento de Vida Independente
(MVI), mas também das entidades das outras áreas das deficiências.
Com base no material investigado, embora houvesse indicativo claro
da luta de alguns segmentos das pessoas com deficiência pelo fim da
tutela da família, do Estado e das instituições especializadas, não
existem dados suficientes para sustentar que as entidades de pessoas
com deficiência, criadas e dirigidas por elas próprias, não tinham na
sua perspectiva a prestação de serviço. A luta contra o modelo de
instituição para pessoa com deficiência não era por causa da prestação
de serviços e da conseqüente relação de colaboração e dependência
econômico-política que elas mantinham com o Estado. Na
essência, questionava-se a forma de relacionamento que essas entidades
e os seus profissionais mantinham com as pessoas com deficiência,
Página 199.
consideradas meros objetos de comoção social - em certos
casos como forma de angariarem fundos - sem vontade própria e
capacidade física, sensorial, cognitiva ou intelectual de tomarem 
decisões
sobre as suas próprias vidas. De acordo com Drater, citado
por Sassaki, além do fim da tutela os CVIs tinham
dois objetivos principais: Primeiro, fornecer às pessoas com 
deficiência
os serviços essenciais que as capacitassem a viver independentemente
na comunidade, assumindo maior controle sobre sua vida. Segundo,
defender os direitos das pessoas com deficiência a fim de efetivarmos
mudanças nos setores público e privado, principalmente nos
ambientes sociais, políticos e físicos ainda inacessíveis às pessoas
com deficiência (2004, p. 11).
Constata-se, então, que os CVIs nascem, proliferam-se nos EUA
e chegam no Brasil com três características básicas: 1 - prestação de
serviços, concorrendo ou assumindo o papel do Estado; 2 - defesa
de direitos das pessoas com deficiência, sem fazer enfrentamento
com o Estado que deveria cumprir e fazer cumprir os direitos; e 3 -
movimento de matriz Norte Americana, é um movimento despolitizado
que não questiona o sistema capitalista em vigor. Não há dúvida de
que o americano se organiza:
Está no Rotary Clube, está no Lyons, está na Associação dos amigos
dos cachorros, dos inimigos dos gatos, dos prós e dos antitabagistas
etc.etc. Mas trata-se de um associativismo, de uma sociedade civil
que se organiza de modo inteiramente despolitizado. Em que sentido?
Cada uma dessas associações luta por interesses restritos, meramente
econômico-corporativos [...] (COUTINHO, 2001, p. 26).
O CVI chegou ao Brasil em 1988, na cidade do Rio de Janeiro e
pretendia se transformar em uma força organizada de vanguarda em
todo o País. Mesmo sendo um Centro de Vida aberto às pessoas com
Página 200.
qualquer tipo de deficiência por força das circunstâncias acabou se
configurando num movimento quase que exclusivamente de usuários
de cadeiras de rodas, que carregam o estigma de elitizados.
Hoje, após 17 anos no Brasil, o movimento enfrenta dificuldades
para se firmar como proposta alternativa, apesar da novidade que 
representou
num primeiro momento. Assim, como outras entidades de
pessoas com deficiência, pode-se mesmo dizer que vive uma espécie
de crise de identidade, entre assumir uma posição mais firme de pressão
contra os governos ou se manter na linha da prestação de serviços,
dependendo do financiamento do orçamento público ou da benevolência
de algumas empresas que financiam projeto com a marca da 
“responsabilidade
social”. Porém, o CVI e o modelo Norte Americano não
são os únicos a exercerem influência no Brasil. Também o modelo da
ONCE - Organização Nacional dos Cegos Espanhóis - faz sucesso aqui
nessas terras tupiniquins. Essa entidade acabou se transformando numa
grande empresa de prestação de serviço e geradora de emprego aos
cegos, através da exploração de uma concessão diária de loterias
fornecida pelo governo Espanhol e transmitida pela televisão.
Essa loteria é toda feita pela ONCE, com seus próprios funcionários,
no país inteiro. Ela distribui prêmios em dinheiro. São cinco prêmios
e o sorteio é feito todos os dias no canal 5 da televisão espanhola. A
ONCE tem 200 prédios em toda a Espanha, onde funciona a loteria.
Grande número de cegos trabalha em função da loteria”. Além disso,
“A ONCE é detentora de uma grande parte de ações desse canal de
TV. Possui estação de rádio, e na Ilha Marguerita, na Venezuela, é
dona de um magnífico hotel de turismo (NOWILL, 1995, p. 211 - 212).
Diante desses e outros inúmeros exemplos dentro e fora do
Brasil, constata-se que a luta das pessoas com deficiência para criarem
e dirigirem as suas próprias organizações foi legítima e necessária,
mas isso por si só não ofereceu nenhuma garantia de que estas
Página 201.
entidades foram e continuarão sendo mais combativas e menos 
conservadoras
sob os aspectos políticos ideológicos. Mesmo sendo entidades
de pessoas com deficiência, a grande maioria das existentes
no Brasil e no exterior, limitam-se a desempenhar a função de
prestadoras de serviços, competindo, colaborando ou substituindo o
Estado, exercendo pouco ou nenhum poder de pressão capaz de provocar
mudanças substanciais na vida da grande maioria das pessoas
com deficiência em um futuro próximo.
No momento, as entidades de pessoas com deficiência (ONGs),
que nasceram no bojo das lutas sociais reivindicatórias, têm assumido
um caráter empresarial que se situa no campo do
empreendedorismo, cujo objetivo principal é a atuação na geração
de emprego e renda para os seus associados, e em muitos casos
somente para os dirigentes. Inserida no conjunto das políticas (neo)
liberais, esta estratégia também cumpre outro objetivo, não menos
importante para o Estado mínimo: introduz a idéia de que as entidades
precisam gerar, através de relações comerciais, os recursos financeiros
próprios para a manutenção de suas ações, isentando o
Estado das suas responsabilidades constitucionais. Neste quadro, onde
todos os “gatos” parecem “pardos”, “quantas ONGs são hoje pequenas
empresas? Quantas ONGs são hoje bico para se ganhar dinheiro?
Vamos ser sinceros! Parece que o mundo das ONGs é constituído
pela generosidade celestial mas não é verdade. A sociedade civil não
é angelical; nela também há demônios” (COUTINHO, 2002, p. 36).
Corroborando com Coutinho, Maria da Gloria Gohn afirma que
As novas entidades que estão se expandindo estruturam-se como
empresas, autodenominam-se cidadãs por se apresentarem sem fins
lucrativos e atuarem em áreas de problemas sociais, criam e desenvolvem
frentes de trabalho em espaços públicos não-estatais; algumas
Página 202.
nasceram por iniciativas de empresários privados e se apresentam
juridicamente como ONGDS – Organizações Não-Governamentais
de Desenvolvimento Social. Este fato ampliou o universo
da participação para campos pouco ou nada politizados e desenvolveu
inúmeras novas formas de associativismo ao nível do poder
local (...) São ONGs que dão novo perfil ao terceiro setor brasileiro,
caracterizando o que tem sido denominado de “privado, porém
público” (1999, p. 79 - grifo da autora).
Percebe-se, portanto, que numa realidade onde o imperativo
do mercado e o fetichismo da mercadoria são dominantes, mesmo as
necessidades específicas das pessoas com deficiência também foram
transformadas em mercadorias e colocadas no mercado capitalista
de troca com fins de acumulação de riquezas. A própria ONU,
durante a preparação do Ano Internacional, já se referia às pessoas
com deficiência como um “grupo consumidor”, caracterizando bem a
perspectiva futura deste segmento. Enquanto uma pequena parcela
de pessoas com deficiência se insere como cliente consumidor - o
verdadeiro cidadão - no mercado de consumo, a enorme massa, o
“resto”, a “sobra” continua enquadrada na categoria da desvantagem
social (CASTEL, 1998), totalmente dependentes da “benemerência dos
ricos com relação aos pobres, reforçando a tradição assistencialista
da sociedade brasileira” (CHAUI, 2001, p. 14).
No início da década de 1980, uma pequena “elite” dessa massa de
miseráveis com deficiência estigmatizada, levantou a bandeira da 
“libertação”
do jugo da família, do especialista, do médico e do Estado, tal
como já fizera em tempos passados o escravo em relação ao amo e o
servo em relação ao senhor feudal. A “libertação” conclamada pelas 
pessoas
com deficiência foi concedida e proclamada pelos organismos 
internacionais
e pelos Estados nacionais, na forma legal do livre direito à
plena participação, mas será isto suficiente para a superação histórica
Página 203.
do processo de exclusão social? Não, é claro que isso não é suficiente. 
O
reconhecimento de que as pessoas com deficiência possuem os mesmos
direitos que “os outros seres humanos”, não deixou de ser importante. O
direito à “participação plena” e a equiparação de oportunidades também
representou uma conquista significativa dentro dos marcos da democracia
liberal do pós Segunda Guerra Mundial. Porém,
Propalada desde a época da Primeira Guerra Mundial, a democracia
liberal organiza-se com base na igualdade de oportunidades conforme
a capacidade de cada indivíduo, não tencionando a igualdade real na
sociedade. Esta democracia se assenta no equilíbrio de forças entre
governantes e governados no plano político e não no plano econômico
(VIEIRA, 1992, p. 96).
Apesar do reconhecimento da igualdade de oportunidades,
segundo o documento “Alianças para um desenvolvimento inclusivo”,
versão Brasil, 2004, elaborado por organismos de cooperação das
agências internacionais, publicado com o apoio da CORDE, as 
perspectivas
para as pessoas com deficiência (e não só) não são nada
animadoras. Alguns dados apresentados a seguir demonstram bem o
quanto a democracia política sem a democracia econômica transforma
a equiparação de oportunidades numa tese de conteúdo meramente
ideológico com a nítida função de ocultar a realidade social.
A maioria das pessoas com deficiência (70 a 85% das quais são
crianças) vive nos países economicamente mais pobres do Sul, onde
a falta de acesso aos direitos humanos traduz-se em uma grande
falta de respeito por direitos, tais como direito à educação, à 
alimentação,
à água e à moradia. Dado que a pobreza é tanto uma
causa como uma conseqüência da deficiência, alguns cálculos indicam
que uma de cada cinco pessoas pobres apresenta uma deficiência.
Isto significa que praticamente todas as famílias das comunidades
pobres são diretamente afetadas pela deficiência (p. 09).
Página 204.
O mesmo documento (pp. 09 - 10) demonstra: Apesar das dificuldades,
várias agências das Nações Unidas coletaram grande variedade
de dados ao longo dos anos. Embora não tenha sido possível
obter cifras precisas, os cálculos gerais são corroborados pela 
experiência
e são úteis para o planejamento. Vejamos a seguir um resumo
dos pontos-chave nesses dados. Distribuição: 70% das pessoas com
deficiência vivem nos países pobres do hemisfério Sul; Infância: 87%
das crianças com deficiência vivem nos países do Sul; Impacto familiar:
em um país com famílias que têm em média seis membros, e se
apenas 5% da população tiver alguma deficiência, mais de 25% dessa
comunidade será diretamente afetada pela deficiência. Tratando do
crescimento demográfico e a sua relação com o aumento das deficiências
entre os países ricos e os países pobres, o estudo ainda revela
o tamanho da diferença de proporção, confirmando que as causas
fundamentais das deficiências estão na falta da distribuição de rendas,
ou seja, tem uma forte base econômica. “Segundo estimativas do
crescimento demográfico, o número de pessoas com deficiência aumentará
120% nos países do Sul nos próximos trinta anos. No mesmo
período, o índice de aumento do número de pessoas com deficiência
nos países do Norte será de 40%” (p. 10).
Mesmo este artigo assumindo um posicionamento crítico diante
da tese da equiparação de oportunidades, propalada praticamente
no mundo inteiro, quase como uma profecia de fé, não pode deixar
de reconhecer a força ideológica devastadora desta proposta de essência
extremamente liberal, individualista, competitiva e conservadora.
Verdade seja dita: essa proposta deu conta de romper o bloqueio
e penetrar na consciência e na prática até mesmo daqueles
partidos políticos de esquerda e dos movimentos populares que tinham
na sua origem a perspectiva da destruição do capitalismo e a
Página 205.
construção do socialismo. Daquelas entidades nacionais que abandonaram
a perspectiva da luta de classe e o socialismo como projeto
estratégico, talvez o caso mais emblemático, dado a sua importância
no novo movimento sindical brasileiro, nascido das lutas contra a
ditadura e o arrocho salarial dos fins da década de 1970, seja 
justamente
a Central Única dos Trabalhadores (CUT), criada em 1983/
1984, questionando as práticas assistencialistas dos sindicatos
“pelegos”. Em trabalho recente, analisando a Política de Formação
Sindical da CUT, Tumolo assim sintetiza a sua trajetória:
Podem-se vislumbrar três fases na trajetória do sindicalismo cutista.
Primeiramente, aquela que vai de 1978-1983 até aproximadamente
1988, que se caracteriza por uma ação sindical combativa e de 
confronto.
A segunda, cujo período aproximado é de 1988 a 1991, que
pode ser classificada como a fase de transição e, por último, a mais
recente, caracterizada por um sindicalismo propositivo e negociador.
Trata-se, portanto, de uma mudança política substancial, de
um sindicalismo combativo e de confronto, de cunho classista e
com uma perspectiva socialista, para uma ação sindical pautada
pelo trinômio proposição/negociação/participação dentro da ordem
capitalista que, gradativamente, perde o caráter classista em troca
do horizonte da cidadania (2002, p. 129).
Nos dias de hoje, falar em participação sem mencionar de que
participação está se falando e para que fins e interesses se defende a
participação é incorrer num gravíssimo erro teórico e político, pois a
participação de agora, tão apregoada por todos os cantos do país e
utilizada por todos os setores da sociedade indistintamente, foi 
totalmente
esvaziada do seu conteúdo político e significado de controle
social do final da década de 1970 e início da década de 1980,
quando os movimentos sociais combativos pretendiam através da 
participação
exercer o controle sobre o Estado.
Página 206.
Pode-se mesmo dizer que ninguém vive na sociedade sem tomar
parte dela, de uma ou de outra forma, com maior ou menor grau de
envolvimento, agindo ou se omitindo. É com base nisso que alguns 
sustentam
que ninguém vive excluído na sociedade, pois todos estão e fazem
parte da mesma sociedade. Quando se diz: não gosto de política, já
se tomou parte em favor de um tipo de política que necessita da 
participação
por omissão para se perpetuar. A participação pode ser com fins
coletivos ou individuais, pode ser para conservar, reformar ou 
transformar
uma dada realidade social. Hoje, por exemplo, embora boa parte
das empresas no Brasil defenda a participação dos trabalhadores dentro
e fora do local do trabalho, como estratégia de cooptação, na 
realidade,
há “um empenho das empresas no sentido de afastar e neutralizar a ação
sindical, valendo-se de diversos mecanismos desde a proposta de 
participação
controlada dos trabalhadores até a perseguição e mesmo a demissão
sumária dos ativistas sindicais” (TUMOLO, 2002, pp. 64 - 65).
Revelando a existência de uma ação articulada e coordenada,
a mesma postura dos empresários vale também para o Estado, por
meio de todo o seu aparato de controle burocrático, jurídico e 
ideológico.
A proposta de controle dos movimentos sobre o Estado acabou
se convertendo no controle do Estado sobre os movimentos. Quem
controla e libera recursos financeiros para os movimentos sociais em
geral, também controla o poder e determina, por meio do conjunto
de normas e regras estabelecidas, os limites das ações permitidas.
Com este intuito, o Estado possibilita e até estimula a participação
de todos, mas é uma participação totalmente despolitizada e 
conservadora,
utilitarista e desmobilizadora de qualquer conteúdo revolucionário
das massas exploradas pelo capitalismo.
Constata-se que diante de um momento em que tanto se fala em
participação nunca se negou tanto o direito a uma efetiva participação
da população nas decisões como no atual momento histórico. Se
Página 207.
o conceito de participação nos dias de hoje está diretamente ligado e
articulado com o conceito de ser cidadão; se só é cidadão quem
participa da chamada sociedade do consumo como consumidor, então
a grande massa excluída da possibilidade de ser consumidora,
conseqüentemente está também excluída da participação social.
Quanto ao fetichismo da mercadoria e o imperativo do mercado 
capitalista,
ou da chamada sociedade do consumo, segundo alguns autores,
Vivemos, hoje, a etapa ou o caráter neoliberal do sistema capitalista,
centrado na obtenção do lucro. Agora, com a ditadura do mercado, a
palavra “marginalização” já não se aplica. Hoje, aplica-se a palavra
“exclusão”, na medida em que a sociedade se divide entre aqueles que
têm e os que não têm acesso ao mercado. A família, a escola e as
Igrejas pretendem formar cidadãos. Mas toda a cultura midiática que
respiramos pretende formar consumidores. Essa é a tensão de fundo
que vivemos nesse momento de mercantilização do planeta, inclusive
das relações humanas (FREI BETTO, 2001, p. 176 - grifos do autor).
Diante deste quadro e da ofensiva implacável do capital na
busca da sua reprodução cada vez mais acelerada e ampliada, além
das lutas pelos interesses específicos e imediatos, as entidades de
pessoas com deficiência e do campo popular, comprometidas com
um projeto socialista, precisam compreender que esta situação de 
exclusão
social só poderá ser resolvida, em definitivo, com uma profunda e
radical distribuição de renda - no Brasil, em torno de 05% dos mais 
ricos
controlam o equivalente a 50% da renda dos mais pobres, caracterizando
bem o tamanho da exploração da classe trabalhadora - divisão e
socialização da terra, a real democratização do acesso à informação e a
cultura historicamente produzida pela humanidade. Nesta conjuntura, a
bandeira da inclusão social deve ser apropriada pelo movimento das
pessoas com deficiência e ser utilizada como instrumento de denúncia
contra um sistema que no plano da formalidade legal e do discurso 
afirma
Página 208.
a igualdade de oportunidades e uma sociedade inclusiva para todos,
mas no plano da realidade objetiva continua negando e sonegando o
acesso aos bens materiais e espirituais necessários há uma vida digna a
milhões de seres humanos, com ou sem deficiência.
Embora não faça parte do objetivo deste trabalho e nem haja
espaço para desenvolver o assunto devido a sua amplitude e 
complexidade,
a guisa de finalização merece uma breve consideração sobre
a inclusão social das pessoas com deficiência. Kátia Moreno Caiado,
na sua tese de doutoramento transformada em livro, fazendo menção
as lutas sociais da década de 1980, afirma
Que a redação constitucional do direito à educação do aluno deficiente
no ensino regular, direito registrado no art. 208, expressa a
luta do movimento social no país, que era a luta pelo direito de
cidadania para todos. Ainda que forças conservadoras no Congresso
tenham lutado contra o direito público de uma educação especial
inclusiva no ensino regular, esse direito foi grafado como vitória
das forças progressistas (2003 p. 09-10).
Assim, ampliando o leque da inclusão educacional para a inclusão
social, retirando a atuação das forças conservadoras de dentro do
Congresso e estendendo para o conjunto da sociedade, de modo geral
e sem o aprofundamento dos debates e da exploração de todas as
controvérsias que permeiam a pendenga social em tela, nem procurando
identificar as concepções e suas matrizes teóricas, é possível afirmar
que hoje os debates sobre a inclusão encontram-se polarizados
basicamente entre duas tendências, uma que pode ser caracterizada de
“forças conservadoras (contra a inclusão) e outra de “forças 
progressistas”
(a favor da inclusão). O fato dessas “forças” representarem interesses
antagônicos em certos aspectos políticos ideológicos, em termos
de projeto societário ambas podem ser caracterizadas de conservadoras,
Página 209.
pois na essência do progresso, de onde se origina o progressista,
está precisamente a conservação da sociedade capitalista.
Se do ponto de vista teórico este artigo não compartilha da
tese da inclusão propagandeada justamente pelo seu caráter liberal,
a-histórico, biologizante e idealista, sob o aspecto político, 
entretanto,
coloca-se ao lado da inclusão social e educacional das pessoas
com deficiência, justamente como instrumento de pressão social, como
forma de enfatizar o caráter de classe escamoteado pela maioria dos
autores que discutem o assunto. A problemática social da pessoa
com deficiência necessita ser analisada com base em pressupostos
teóricos metodológicos que rejeitem a concepção utilitarista de ser
humano apregoada pelo mercado capitalista.
No atual contexto da sociedade brasileira, se as forças do capital
mais falam do que objetivamente fazem a inclusão social como estratégia
de conservação e preservação da sociedade capitalista, outras tantas
forças sociais não menos conservadoras, com interesses ideológicos os
mais variados, inclusive econômicos, combatem a inclusão simplesmente
porque ela se apresenta como parte do ideário (neo) liberal, 
destituindo
tanto o (neo) liberalismo como a inclusão de historicidade. Adotando
este tipo de postura política, essas forças vêem as árvores, mas não 
vêem
a floresta. Ou seja, pretendem analisar a inclusão como um fenômeno
isolado, fora da totalidade histórico-social, com todas as suas 
múltiplas
mediações, determinações, relações e contradições próprias de um 
sistema
de conjunto em permanente movimento e transformação. Em suma,
essas forças parecem não considerar que
Os objetos do conhecimento, que são as feições e situações da
Realidade que se trata de conhecer, embora se discriminando e 
individualizando,
o fazem como elementos do sistema de relações em
que se totalizam e unificam, e em função dele. É o que Marx denomina
Páhgina 210.
‘a unidade na diversidade’, e entende por ‘concreto’, o que se
exprime muito bem e ilustra no conhecido dito no qual tão acertadamente
se distingue a floresta das árvores que a compõem (viu as
árvores, não viu a floresta) (PRADO JR. 1973 - grifos do autor).
Partindo da especificidade sem perder a noção de conjunto
que se integra numa totalidade que com ela mantém relação, para o
movimento das pessoas com deficiência, comprometido com um novo
projeto societário, se apropriar da bandeira da inclusão e fazer a
denúncia contra a exclusão é assumir a bandeira da inclusão como
ação estratégica sem desconsiderar a luta política de enfrentamento
também como uma estratégia de ação para atingir o fim pretendido,
ou seja, a superação do sistema capitalista. A discussão da inclusão
só tem sentido e significado histórico se for para aprofundar as 
contradições
do sistema capitalista e não para consolidar o consenso e
dissolver as contradições próprias da sociedade de classes. Se o
consenso em torno da inclusão dissolve a contradição, a simples negação
da inclusão como processo histórico contraditório não só dissolve
a contradição como também não compreende que
Onde existe uma relação, ela existe para mim: o animal não se 
‘relaciona’
com nada, simplesmente não se relaciona. Para o animal, na relação
com outros não existe como relação. A consciência, portanto, é desde
o início um produto social, e continuará sendo enquanto existirem
homens, consciência é, naturalmente, antes de mais nada mera 
consciência
do meio sensível mais próximo e consciência da conexão limitada
com outras pessoas e coisas situadas fora do indivíduo que se torna
consente; é ao mesmo tempo consciência da natureza , a princípio,
aparece aos homens como um poder completamente estranho (...)
(MARX e ENGELS, 1984, pp. 43 -44 - grifos dos autores).
A necessidade da superação do mercado imperativo capitalista,
cada vez mais devastador da natureza e destruidor da humanidade em
Página 211.
todos os aspectos, precisa com urgência retornar à pauta dos movimentos
sociais brasileiros comprometidos com a construção do socialismo.
Tanto os movimentos sociais populares como o movimento das
pessoas com deficiência, seduzidos pela idéia liberal da equiparação
de oportunidades, precisam perceber que uma sociedade verdadeiramente
democrática, sem explorados e exploradores, dominantes e dominados,
não será alcançada sem profundas transformações sociais.
Os dados estatísticos aqui expostos e tantos outros produzidos por
agências nacionais e internacionais a serviço do próprio capital 
indicam
a concentração de renda, a falta de democratização do acesso aos
conhecimentos científicos já produzidos pela humanidade e a necessidade
da socialização/ distribuição da terra, como os principais fatores
responsáveis pela exclusão e marginalização de milhões de seres humanos
em todo o planeta, com ou sem deficiência. Diante do exposto,
fazemos nossas as palavras de Ellen Meiksins Wood: “a esperança de
atingir um capitalismo humano, verdadeiramente democrático e 
ecologicamente
sustentável vai-se tornando transparentemente irrealista. Mas,
conquanto essa alternativa não esteja disponível, resta ainda a 
alternativa
verdadeira do socialismo” (2001, p. 130).
CONCLUSÃO
Ratifica-se a posição exposta no início deste estudo, segundo a
qual com relação à prestação de serviço, não há diferença entre as
entidades para e entidades de pessoas com deficiência. Mesmo os
dados aqui expostos e a realidade objetiva de certa forma comprovando
tal comparação, é preciso deixar claro que a questão não é
assim tão simples como parece e nem pode ser generalizada. Isto
certamente requer um estudo que leve em conta toda a dimensão,
complexidade e as devidas e necessárias mediações não exploradas
Página 212.
neste trabalho, tanto por falta de espaço como também pela necessidade
de se avançar nas investigações nos materiais já disponíveis,
bem como em outras fontes ainda não catalogadas.
No trabalho, também foi possível demonstrar que o surgimento do
movimento não só representou avanço como cumpriu importante 
contribuição
na formulação e consolidação de alguns espaços institucionais,
bem como na configuração e implementação de algumas políticas públicas
específicas, tanto em âmbito nacional, estadual e municipal, cuja
implementação continua dependendo da pressão do movimento para se
tornar realidade. Não se pode negar que ainda existe uma enorme 
distância
entre o direito proclamado e a realidade objetiva, mas somente o fato
de uma parcela significativa das pessoas com deficiência ter saído da
histórica condição de meros objetos da caridade não deixou de 
representar
avanço importante nessas últimas duas décadas no Brasil.
Embora o movimento das pessoas com deficiência, de modo
geral, ainda continue alimentando e acreditando na crença da 
equiparação
de oportunidades como o caminho para a superação das desigualdades
sociais, constatou-se que ele não ocupa sozinho tal condição,
pois até mesmo movimentos de trabalhadores que surgiram com
uma perspectiva de enfrentamento de classe e a luta pelo socialismo,
hoje abandonaram esta possibilidade e aderiram a prática da colaboração
de classe. Isso só confirma a urgente necessidade de se recolocar
na pauta a discussão do socialismo como perspectiva estratégica, 
definição
de lutas e enfrentamentos contra a ofensiva do capital, cada vez
mais devastador da natureza e da humanidade.
Mas este próprio movimento, surgido a partir da tomada de
consciência de uma parcela das pessoas com deficiência, para continuar
cumprindo verdadeiramente com a finalidade de lutar pela inclusão
plena de todas as pessoas com deficiência precisa repensar a
Página 213.
sua prática em diversos aspectos. Talvez, de todos o mais substancial
seja justamente o caráter de cúpula que a maioria das entidades 
acabaram
adquirindo, não só deixando de representarem os interesses
coletivos da base como também se constituindo em espaços de exclusão
na medida em que não dão conta de incorporarem as pessoas
com deficiência mais necessitadas como agentes sociais ativos na
luta pelos seus próprios interesses.
Resta ainda uma última consideração. A escassa produção científica
na área dos movimentos sociais das pessoas com deficiência,
bem como a dificuldade de acesso ao material produzido, sobretudo
às fontes primárias, principalmente no período entre o final
da década de 1970 e meados da década de 1980 - fase do alvorecer
do movimento no Brasil - que requer um estudo de maior fôlego e
abrangência, com maior profundidade e rigor metodológico. As lutas
sociais de maior ou menor abrangência, as polêmicas que envolveram
o movimento, as disputas de concepções ou mesmo políticas, as
razões que levaram ao fim da Coalizão e mais tantos outros elementos
e fatos daquele período histórico precisam ser recuperados e
trazidos à luz, de preferência pelos próprios sujeitos que fizeram
parte e ajudaram a escrever, ou melhor, a fazer, na realidade objetiva,
com as condições materiais concretas, um marco importante na vida
de uma parcela significativa das pessoas com deficiência no Brasil.
REFERÊNCIAS
ALIANÇA PARA UM DESENVOLVIMENTO INCLUSIVO. Banco Mundial,
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